Recuar sem deixar rasto
No 25 de Novembro, PCP mandou recuar. O que diz o relatório do militar que desencadeou as movimentações
25 DE NOVEMBRO – O que há ainda por contar
Um texto do Jornal Expresso de 28 de novembro de 2024 com importância particularmente relevante para o debate sobre o 25 de novembro e para a resposta à pergunta “Afinal o que é que aconteceu mesmo?” foi recentemente recuperado e partilhado por Francisco Melro. Aproveitamos o DOSSIÊ NSF – 25 DE NOVEMBRO para o divulgar e torná-lo acessível a mais leitores. NSF – CVR – Coord. Editorial
“O Expresso viu o documento mantido secreto durante décadas. Carlos Carvalhas terá convencido Luís Pessoa a entregar-se a Costa Gomes
28 novembro 2024 22:57
Jornalista
“Não havia plano nenhum” para tomar o poder central por parte do Partido Comunista Português no dia 25 de novembro de 1975. O “objetivo global” da ação dos paraquedistas para tomar as bases aéreas, a RTP e a Emissora Nacional era a “alteração da correlação de forças do Movimento das Forças Armadas” (MFA), onde comunistas e extrema-esquerda estavam em perda acentuada pelo menos desde o início de setembro daquele ano. A ordem para avançar foi dada pelo “P.” — o partido, escrito assim com maiúscula —, e foi também o “P.” que mandou os militares da esquerda revolucionária recuarem “sem deixar rasto”, para “evitar uma guerra civil”, pode ler-se num documento mantido secreto durante décadas e que o Expresso consultou pela primeira vez esta semana, elaborado por Luís Pessoa, um capitão miliciano, engenheiro e militante comunista, assumindo ter sido ele a transmitir as ordens para os ‘páras’ avançarem com a demonstração de força.
Este documento foi entregue nos anos 1990 por Luís Pessoa – falecido em setembro 2020 – ao general Pezarat Correia, membro do Grupo dos Nove (a ala moderada do MFA), quando o ex-miliciano abandonou o PCP na onda de dissidências pós-queda do Muro de Berlim. O general ficou “fiel depositário” do documento, que passou anos fechado num cofre da Associação 25 de Abril, até ceder uma cópia ao coronel Vasco Lourenço (ver texto em baixo sobre a controvérsia entre ambos), outro membro dos Nove, com compromisso de reserva. Parte desse testemunho seria revelado por Lourenço ao Expresso em 2022. No entanto, as informações divulgadas pelo presidente da Associação 25 de Abril vão para além do que consta do “relatório”, depois de ter mantido conversas e trocas de e-mails entre novembro de 2016 e maio de 2017 com o próprio Pessoa – que o Expresso pôde consultar e confirmar –, e após ter cruzado informação com outros protagonistas.
O PCP queria recuperar poder, mas a “quartelada” haveria de gerar o contragolpe
O 25 de Novembro, que foi celebrado esta segunda-feira no Parlamento, acentuando as divisões entre a direita e a esquerda, continua a ser um acontecimento cujos factos históricos ainda estão por esclarecer na totalidade. Daí a importância deste documento, para completar uma parte fundamental do puzzle que permaneceu sempre um mistério: quem deu a ordem aos paraquedistas para avançarem? Vasco Lourenço conta que Pessoa lhe disse que a ordem foi transmitida ao telefone por Jaime Serra, dirigente comunista histórico responsável pelas relações com o MFA, como o Expresso noticiou há dois anos e contou na última edição, mas isso não consta do “relatório”.
No seu documento, o antigo comunista escreveu que a ação foi desencadeada depois de uma reunião no Serviço Diretor e Coordenador de Informações das Forças Armadas (SDCI), onde estava colocado como chefe de gabinete do comandante Almada Contreiras, que não soube da conspiração. Nesse encontro, estava ele próprio e dois militares do quadro permanente afetos ao PCP: “Um ex-ministro [dos Governos Provisórios] e um ex-CR [conselheiro da revolução]”, escreve no documento, sem os identificar. Pezarat Correia diz que podiam ser vários nomes e não arrisca especular. Vasco Lourenço explicou ao Expresso ter confirmado que se tratava do major José Emídio da Silva, ex-ministro da Educação, e o comandante Miguel Judas, ex-conselheiro da Revolução. E que a ordem de Serra precede essa reunião.
“A ideia era os páras tomarem as bases, com apoio dos fuzos”, escreve Pessoa, mas os fuzileiros nunca chegaram a sair do Alfeite. “Páras + fuzos — imbatíveis”, pode ler-se no “relatório”, que não é um relato circunstanciado, mas uma espécie de memorando seco ao estilo militar, com referências como esta: “Otelo — grande incógnita — grande problema.”
O “objetivo” assumido era a “demissão do Morais e Silva e dos elementos da Força Aérea no Conselho da Revolução”. Morais e Silva era o chefe do Estado-Maior da Força Aérea, que acabara de decidir a dissolução dos paraquedistas e decapitado as unidades dos seus oficiais. Com a revolução em “refluxo”, como disse Marcelo Rebelo de Sousa no seu discurso na Assembleia da República, o PCP queria recuperar poder, mas a “quartelada” havia de gerar o contragolpe que os Nove tinham preparado para responder a qualquer movimento militar que viesse das forças revolucionárias.
“Conseguiu-se o recuo”, relatou Pessoa, contrariando a posição oficial do PCP
A meio da tarde do dia 25 de novembro, quando o PCP percebeu que a correlação de forças não lhe era favorável e depois de uma conversa entre Álvaro Cunhal e o Presidente da República, Costa Gomes, alguém do Comité Central do partido mandou Pessoa “recuar com cuidado sem deixar rasto, porque a situação se alterou. Está difícil e pode levar à guerra civil”, conta o ex-miliciano no documento, sem revelar, no entanto, quem lhe deu a ordem. Vasco Lourenço garante que ele lhe disse ter sido Jaime Serra, com Álvaro Cunhal ao lado, como o Expresso já escreveu. Nas trocas de e-mails, Pessoa sugere que contara essa história a Lourenço. Mas o partido deu-lhe mais ordens: “De maneira nenhuma distribuir armas aos SUV [Soldados Unidos Venceremos!] nem CDCR e a qualquer outra organização civil.”
“Conseguiu-se o recuo”, relatou Pessoa, contrariando a posição oficial do PCP, que sempre negou as teses do avanço e do travão. Depois, escreveu que alguém do partido o convenceu a ir entregar-se “a Belém” para ser preso: “O que fiz às 19h.” Mas acrescentaria à mão, por baixo desta frase, o nome de “Carlos Carvalhas”, que viria a ser o sucessor de Cunhal à frente do PCP, que terá sido quem lhe telefonou a convencê-lo a entregar-se na Presidência da República, contextualiza Pezarat Correia.
Nas “conclusões” do relatório, Luís Pessoa escreve que, na sua “opinião, o 25 de Novembro foi um ‘contragolpe’ preparado pelos ‘Nove’ e a nível político pelo PS, direita, Igreja, CIA e outros serviços secretos, felizmente travado a 26 (também pelos Nove) e sobretudo pela intervenção na RTP pelo Melo Antunes”.
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