Acabou ainda a tempo
Evitou-se uma guerra civil e instituiu-se a democracia
25 DE NOVEMBRO – O que há ainda por contar

por Francisco Melro
20/11/2025
Fiz serviço militar enquanto durou o PREC. Entrei em Junho de 1974 na Escola Prática de Infantaria em Mafra, para fazer a recruta para oficial miliciano, acabei suspenso, de licença registada, no dia 27 de Novembro de 1975 ao serviço do Regimento da Polícia Militar (RPM). Pelo meio, fiz, a partir de 28 de Setembro de 1974, a especialidade em cavalaria na Escola Prática de Cavalaria em Santarém e no início de 1975 incorporei no Regimento de Cavalaria Santa Margarida, como aspirante miliciano, um batalhão de cavalaria (o 8425, se bem me recordo), com destino a Angola que se recusou, por unanimidade, a embarcar, tendo permanecido nesta unidade até ao final de Setembro do mesmo ano, momento em que o batalhão foi desmobilizado e fui transferido para o RPM, onde me encontrava por altura dos acontecimentos do 25 de Novembro de 1975. Fiquei detido a 26 de Novembro e, no dia seguinte, entrei em licença registada.
Você era desses
Fui oficialmente confrontado, por duas vezes, com os registos oficiais das minhas vivências no PREC: em Outubro de 1978, quando finalmente me passaram à disponibilidade, e anos depois quando me colocaram na reserva territorial, sendo ameaçado por um capitão, na primeira ocasião, e olhado, de soslaio e com desconfiança, por um sargento, na segunda, com um comentário: “Humm…você era desses….”.
Não sei o que consta dos registos, nunca me mostraram, mas é verdade. Eu era um “desses” e era também verdade tudo aquilo de que o capitão me acusara e que, certamente, integraria o conjunto de razões que tinha dado pretexto ao meu prolongado tempo de licença registada.
Com os grupos de extrema – esquerda
Os ventos do PREC entraram pelas portas que Abril de 1974 escancarou. Esse vendável emergiu logo nos primeiros dias da revolta militar quando a população de Lisboa a transformou em revolução, alastrando ao País, sobretudo ao Sul, entrando nos bairros e nos locais de trabalho, com saneamentos e exigências de direitos sociais e laborais. e acabando por penetrar nos quartéis.
Não irei ocupar-me com a descrição dos inúmeros episódios vividos nos quartéis, únicos na vida e demasiado “twilight zone”, sobretudo 50 anos depois, para quem nunca os viveu. Estão abundantemente descritos na literatura dos jornais e panfletos clandestinos dos militares de extrema-esquerda e também nos jornais da época.
No primeiro ano da revolução, saneou-se, nacionalizou-se, ocupou-se herdades, ergueu-se um movimento popular suportado por comissões de moradores, de trabalhadores e sindicatos, e, sobretudo, pela cobertura e até impulso, desta radicalização social por parte do poder militar dominado pela “Esquerda”. Foi neste ambiente revolucionário e intervindo nos seus diferentes eventos que os grupos de extrema-esquerda foram ganhando adeptos e estruturando a sua organização. Foi com estes que estive sempre.
De G3 na mão, na parada de Mafra
A resistência a rupturas radicais com o anterior regime político emergiu logo depois de 25 de Abril de 1974, quando Spínola pretendeu impor, através de manobras palacianas, um poder presidencialista autoritário, controlar o poder das ruas e evitar a entrega das colónias aos movimentos independentistas, chegando a tentar preservar a PIDE. Ouvi os apelos de Spínola à ordem e contra a anarquia, depois de o ter aguardado durante horas, devidamente fardado, formado e de G3 na mão, ao Sol, na parada de Mafra, no Verão de 1974, no âmbito de um raide que Spínola então realizou pelos diferentes quartéis do País.


Spínola em Mafra, foto ANTT, SNI
Mas de cada crise política, de cada tentativa de golpe, foram sempre resultando impulsos para a radicalização revolucionária e para deslocação para a Esquerda na relação de forças no governo e no Movimento das Forças Armadas.
Foi no seguimento da tentativa derrotada do golpe spinolista do 11 de Março que foi constituído a 14 de Março o Conselho da Revolução. A sua composição reflectiu a relação de forças no seio do MFA à saída do golpe.
As coisas mudaram a partir do início do Verão de 1975
Houve dois impulsionadores decisivos e de efeitos cumulativos para o levantamento anti-PREC: os resultados das eleições para a Constituinte em 25 de Abril de 1975 e o retorno de centenas de milhares de colonos ao longo da segunda metade de 1975.
- Nas eleições para a Constituinte em 25 de Abril de 1975, os programas do conjunto do PCP e da extrema-esquerda receberam o apoio de apenas 21% dos votos expressos, ficando claro que a maioria esmagadora da população estava contra o rumo que o País estava a seguir.

Sobretudo no Norte, de grande influência dos sectores mais retrógrados da Igreja Católica, onde predominavam a pequena propriedade agrícola e as pequenas e médias empresas, e onde se temia a chegada do comunismo e dos ventos colectivizadores que sopravam do Sul.
Mas também no Sul, como comprovaram tanto a criação de sindicatos autónomos fora da CGTP por parte de trabalhadores das áreas dos serviços como os resultados nas eleições para a Constituinte em 25 de Abril de 1975 no Distrito de Lisboa: o PS teve 45% dos votos expressos, tendo o conjunto dos votos no PCP e nos restantes partidos de Esquerda ficado aquém de 30%.
O impacto social e político do regresso de largas centenas de milhares de colonos e de trabalhadores dos serviços públicos coloniais, os “retornados”, radicalizados e em ruptura com a descolonização em curso e com o 25 de Abril, que passaram a engrossar as fileiras dos partidos da Direita e mesmo da extrema-direita.
A direita exprime-se local e eleitoralmente
Surgem grupos bombistas, sediados e financiados a partir de Espanha, casos do MDLP de Spínola e do ELP, integrado por elementos da ex-PIDE, que radicalizam os comícios e manifestações dos partidos da Direita, e até do PS, atacando, colocando bombas e incendiando sedes dos partidos de Esquerda e perseguindo e atacando os militantes destes partidos. Esta onda de violência teve a bênção e o apoio da hierarquia católica nortenha, incluindo através de relações íntimas com os grupos bombistas.
Esta deslocalização social para a Direita ficaria mais evidente nas eleições Legislativas em 1976, onde a Direita teve mais apoio do que o PS, o CDS obteve uma votação expressiva e o peso do conjunto dos votos no PCP e na Extrema-Esquerda se quedou pelos 18,5%. Os eleitores de Direita e anti-PREC que tinham “votado útil” no PS para a Constituinte, passaram a assumir-se. Já não havia necessidade.

A onda de revolta anti-PREC passou para as ruas, exigindo a inversão nas políticas e a recomposição dos órgãos de poder, no governo e nas Forças Armadas, em consonância com a vontade das urnas.
O Partido Socialista assumiu a liderança da contestação que foi ganhando adeptos entre os militares.
Divisão e agregação dos militares em correntes opostas
O agravar do conflito dividiu os militares, fez emergir no seio do MFA três correntes: os “gonçalvistas”, afectos ao PCP, os do “grupo dos nove”, defensores de uma via social-democrata, em convergência com o PS, e os do “grupo do Copcon”, em torno de Otelo e das forças políticas de extrema-esquerda. Será o “grupo dos nove” que irá agrupar o grosso dos militares democratas do MFA descontentes.
Outros militares com menores simpatias pela democracia navegavam, há muito, noutras águas, aderindo às células do MDLP e do ELP e estabelecendo “pontes” com o “grupo dos nove”. Tinham sobretudo origem em militares do quadro permanente que conviveram bem com o anterior regime e que se sentiram penalizados pela subversão operada no poder hierárquico pelos militares de Abril, que odiavam. Povoavam os Estados Maiores e as Direcções das diferentes Armas.
O conjunto dos militares anti-PREC organizaram-se clandestinamente para imporem uma mudança radical na relação de forças.
Estas movimentações gozaram da simpatia, do estímulo, do apoio e do financiamento dos governos dos Estados Unidos, da Espanha, dos países da Nato e dos respectivos serviços secretos, à época muito activos entre nós. O KGB também andava por aí.

O ELP reúne em Salamanca, Fonte ANTT, SNI
O PCP e as estruturas do poder
O PCP seguira desde o 25 de 1974 uma política de colagem aos militares do MFA, como partido moderado, disciplinado e alinhado com as políticas governamentais, numa espécie de braço civil do MFA, fazendo dos sindicatos correias de transmissão da sua política, chegando a opor-se e a condenar publicamente movimentos grevistas, enquanto ia obtendo lugares no governo e colocando militantes e simpatizantes nos órgãos da Administração Pública e nas estruturas militares. A principal excepção esteve na Reforma Agrária, destacando-se na ocupação de herdades nas zonas do Alentejo e Ribatejo, por via do Sindicato dos Trabalhadores Agrícolas, mas contando também com o apoio dos militares do MFA.
Deste modo, o PCP foi reforçando a sua presença nos órgãos de poder político e militar, tendo um simpatizante muito próximo como Primeiro-Ministro, Vasco Gonçalves, em sucessivos governos provisórios, entre 17 de Julho de 1974 e 19 de Setembro de 1975.
Radicalização das posições
Com a contestação ao PREC, o PCP foi perdendo margem de manobra e o V governo foi mesmo boicotado pelo PS e pela Direita, pelo que o Presidente da República demitiu Vasco Gonçalves e indigitou para primeiro-ministro do VI Governo Provisório o almirante Pinheiro de Azevedo, apoiado pelo PS e pelo PPD. O VI governo criou uma força militar paralela, o AMI, constituída por ex-comandos e ex-paraquedistas contratados, e reforçou o Regimento de Comandos da Amadora. Por sua vez, o Conselho da Revolução passou a ser dominado pelo “grupo dos nove”.
Sentindo-se acossado, o PCP veio para a rua, chegando a criar uma aliança com algumas forças de extrema-esquerda, a FUR. O derrube do V governo e a proximidade da data da independência de Angola, que o PCP queria assegurar, entregando o poder ao MPLA, constituíram factores adicionais de radicalização do PCP.
Mas a independência de Angola, em 11 de Novembro de 1975 não acalmou o PCP. Logo no dia 12 de novembro de 1975, o sindicato dos trabalhadores da construção civil, controlado pelo PCP, realizou uma manifestação com dezenas de milhares de trabalhadores que cercou a Assembleia Constituinte durante dois dias. O VI governo entrou em greve e o PS, apoiado por toda a Direita, realizou grandes manifestações populares por todo o País, com destaque para Lisboa e Porto, de apoio ao VI governo e de contestação ao PREC.
Os acontecimentos do 25 de novembro
A nova hierarquia militar passou igualmente à ofensiva. Nas vésperas de 25 de Novembro de 1975, o CEMFA ordenou a passagem à licença registada de 1200 pára-quedistas da Base-Escola de Tancos, com o apoio do Presidente da República e do Conselho da Revolução. Por sua vez, o CR nomeou Vasco Lourenço para comandante da RM de Lisboa, em substituição de Otelo Saraiva de Carvalho, que ficaria apenas à frente do Copcon.

Vasco Lourenço e Otelo Saraiva de Carvalho.
Estas decisões foram contestadas pela generalidade das unidades militares de Lisboa, tal como pelos paraquedistas que se amotinaram em Tancos.
Na madrugada de 25 de Novembro de 1975, o Conselho da Revolução reafirmou as decisões anteriores, que foram aceites por Otelo.
Quando Otelo reuniu, no seguimento dessas decisões, com oficiais na sede do COPCON, foi confrontado por Costa Martins, oficial da Força Aérea próximo do PCP, que por ali se encontrava, “estranhamente”, segundo Otelo, que lhe comunicou que os paraquedistas não aceitavam a sua extinção e que iriam ocupar as bases aéreas e o Comando da Região Aérea. Otelo recusou apoiar essas ocupações e, entretanto, abandonou a sede do CPCON.
Ainda de madrugada, para-quedistas ocuparam as bases aéreas de Tancos, Monte Real, Montijo e o Comando da 1.ª Região Aérea de Monsanto, detendo o comandante, general Pinho Freire e exigindo a demissão de Morais e Silva.
Era um passo em falso que os opositores não deixariam passar. Tinham cobertura legal, apoio institucional, PR e CR, e estavam preparados para agir, como os próprios reconheceram. Agradeceram a oportunidade, desencadeando o contra-golpe, previamente elaborado.
Cronologia do dia 25/26 de Novembro
- 25 de Novembro: Costa Martins tenta convencer Otelo a apoiar as ocupações dos paraquedistas. Otelo recusa. Ocupação das unidades pelos paraquedistas. Morais e Silva ordena a concentração de para-quedistas fiéis na base de Cortegaça. Otelo é chamado e vai para Belém. Otelo fica em sintonia com Costa Gomes e recusa intervenção da Polícia Militar para sair de Belém, quando contactado pelos comandantes desse regimento, assegurando “não estou detido”. Depois, fica incontactável e deixa a Região Militar de Lisboa e as unidades do COPCON sem direcção. Comandos da Amadora saem para a rua. Costa Gomes reúne com Cunhal. Cunhal desmobiliza os seus militantes. Paraquedistas abandonam as unidades ocupadas.
- Manhã de 26 de Novembro: Presidência da República faz ultimato aos comandantes do RPM para se entregarem em Belém. Comandos cercam o RPM, desencadeando-se um tiroteio. Morrem dois militares comandos e um militar que se encontrava no RPM. Comandantes do RPM mandam parar os disparos e entregam-se em Belém.
Ler também de Irene Pimentel, no NSF
PCP e Cunhal determinaram as movimentações dos paraquedistas
O PCP e Cunhal em especial, sempre responsabilizaram os “esquerdistas” pelos acontecimentos do 25 de Novembro de 1975. Mas todos os envolvidos, especialmente os militares ligados ao PCP, sabem que foi, exclusivamente, a direcção do PCP, e em particular Cunhal, quem determinou as movimentações dos paraquedistas.
Versão confirmada pelo alferes Luís Pessoa, que dirigiu operacionalmente os paraquedistas, em carta que entregou, antes de falecer, a Pezarat Correia e a Vasco Lourenço, onde confirma que recebeu ordens directas de Cunhal, para ocupar e para desocupar. Este pronunciamento veio juntar-se a declarações públicas anteriores, no mesmo sentido, da parte de Raimundo Narciso, à época membro da direcção militar do PCP, profundamente envolvido nos acontecimentos, sob a direcção de Jaime Serra.
As versões dos acontecimentos
Ao longo das últimas décadas, diversos historiadores foram repetindo a versão de Cunhal acerca da culpa dos “esquerdistas” nos acontecimentos. Apresentaram uma explicação lógica: o PCP só teria radicalizado o movimento social para assegurar a independência de Angola nas mãos do MPLA e, uma vez conseguido este feito no dia 11 de Novembro de 1975, ficara sem razões para continuar a radicalizar. Além do mais, a Rússia não queria envolver-se num conflito com os Estados Unidos na Península Ibérica. O PCP até teria, de caminho, alcançado outro objectivo, “dera corda” aos militares esquerdistas e estes estamparam-se, vendo-se, assim, livre deles.
Teria tido toda a lógica. Só que não foi assim.
Luís Pessoa não era esquerdista, Costa Martins não era esquerdista, e também não o era aquele, que todos os envolvidos sabem quem foi, que, na ausência de Otelo, quis dar ordens às unidades, mas que não foi obedecido por ninguém. Na RML só aceitariam ordens de Otelo, responderam-lhe.
A verdade é que os militares, não comunistas, da RML, se manifestaram contra as mudanças no comando da RML e contra a extinção do Regimento de Paraquedistas, mas não tiveram envolvimento directo nas ocupações das bases militares que encararam com preocupação.
Ler também em NSF
Afinal quem pagou as favas?
Cunhal procurou instrumentalizar a revolta dos paraquedistas e o descontentamento dos militares de Lisboa para pressionar Costa Gomes e impor uma recomposição no CR e no Executivo governamental num sentido favorável ao PCP, em sintonia e na continuidade das exigências insistentemente gritadas nas manifestações que foi realizando. Contava com o apoio de Otelo e do COPCON, recuando quando viu que não o tinha e ficou confrontado com a intervenção dos Comandos. Recebeu, como contrapartida, a garantia de Costa Gomes de que o PCP não sofreria represálias. Otelo e os militares do COPCON pagaram as favas.
Pelo que vi e vivi e pelo que fui sabendo pelas conversas que fui mantendo com diversos intervenientes, sempre discordei da versão de Cunhal. Diversos militares de Esquerda envolvidos nos acontecimentos, que sabem muito mais do que eu, têm mantido silêncio sobre o assunto, para “não porem em causa camaradas”, e “não fazerem o jogo dos anti-comunistas”.
O depoimento de Raimundo Narciso e a carta deixada por Luís Pessoa a Pézarat Correia e a Vasco Lourenço debilitaram esse “pacto de silêncio”.
O desenlace evitou uma guerra civil
Costa Gomes, os militares do grupo dos nove e Otelo, neste caso demitindo-se de dirigir, foram decisivos para o desenlace relativamente pacífico dos acontecimentos.
Fui um dos derrotados do 25 de Novembro de 1975, mais concretamente, do 26 de Novembro, quando fiquei detido em conjunto com os restantes camaradas do RPM. O desenlace evitou uma guerra civil e conduziu à instauração de um regime político assente numa democracia parlamentar, assegurado pela Constituição aprovada em 1976, que salvaguardou o Estado Social e as principais conquistas do 25 de Abril e que tem garantido a Liberdade e os Direitos Humanos durante os últimos 50 anos.
Devemos este sucesso aos militares e políticos, com destaque para Costa Gomes, militares do Grupo dos Nove e Mário Soares, e às forças democráticas que se empenharam em travar, por meios relativamente pacíficos, os nossos projectos esquerdistas, contendo, em simultâneo, os objectivos revanchistas dos elementos da extrema-direita.
Poderíamos ter vencido militarmente em 25 de Novembro. O COPCON e a Região Militar de Lisboa tinham forças mais do que suficientes para tal. Para além dos paraquedistas e dos militares das unidades de Lisboa, havia ainda as companhias de fuzileiros. Ficaram todos sem comando e orientação quando Otelo se refugiou em Belém.
Os extremistas de direita
A maioria esmagadora do País estava contra nós, pelo que a sequência inevitável de uma hipotética vitória nossa seria uma guerra civil, com o País divido a meio. Num momento seguinte, o resto do País, com a ajuda directa e indirecta dos países da Nato, impor-nos-ia a sua vontade.
Entre as forças vitoriosas do 25 de Novembro cogitavam-se nostálgicos do antigo regime e diversos extremistas de direita, nomeadamente os associados aos bombistas, que ficaram insatisfeitos com a solução pacificadora de conciliação encontrada, exigindo sangue, prisões e ilegalizações partidárias. Vimos algumas das suas figuras de proa assumi-lo, em público, pela TV, no próprio dia 26 de Novembro. Não estavam satisfeitos!
Nunca se vingaram, como pretendiam, do 25 de Abril. Costa Gomes, Melo Antunes, o grupo dos Nove e Mário Soares, a aprovação da Constituição em 1976, a institucionalização da democracia parlamentar e os votos dos portugueses nunca lho permitiram.
Mas tinham grande peso na hierarquia militar, nomeadamente entre spinolistas e naqueles que conviveram bem com a ditadura, que a revolução permitiu que mantivessem os seus postos hierárquicos.

“Pouco depois (22h00), foi anunciado que o General Pinho Freire retomou o comando da 1ª Região Aérea. O Rádio Clube Português cessou as suas emissões (22h10), e foi anunciada a rendição da Base de Monte Real (22h20). A base da Ota regressou à anterior linha de comando e os paraquedistas abandonaram também a Base de Tancos (00h15)” fonte – site 50anos25abril.pt
Os intentos revanchistas
Nunca perdoaram a Costa Gomes nem aos restantes militares do grupo dos nove, que odiavam, basta ler os colunistas da direita nos jornais e pasquins da altura, e usaram a recuperação dos poderes hierárquicos para se vingarem dos militares que mais se tinham destacado no 25 de Abril de 1974, estragando a vida de alguns deles, incluindo a carreira militar de integrantes do grupo dos nove, nomeadamente, a Melo Antunes e a Salgueiro Maia.
É a este 25 de Novembro de intentos revanchistas que os dirigentes do Chega e do CDS e algumas áreas da Direita vão buscar as suas referências e os seus heróis novembristas para as suas celebrações. As suas celebrações não exaltam o 25 de Abril. Celebram sim um 25 de Novembro revanchista que nunca se cumpriu. Basta ouvir falar Ventura e Nuno Melo.
Vasco Lourenço e outros militares democratas fazem muito bem em ficarem fora destas celebrações.
Foto de destaque , ANTT, SNI – site 50anos25abril.pt
Muito interessante o dossier NSF sobre o 25 de Novembro, e particularmente este texto de Francisco Melro. Continua no entanto muito por esclarecer sobre este acontecimento muito relevante da história da nossa revolução democrática. 50 anos passados sobre estes acontecimento não será tempo de revelar toda a informacao histórica relevante sobre esses factos? O que pode impedir a sua divulgação pública? Por exemplo, Francisco Melro no seu texto revela que houve alguém, “não esquerdista”, leia-se, não da UDP, MES ou PRP, “que todos os envolvidos sabem quem foi, que, na ausência de Otelo, quis dar ordens às unidades, mas que não foi obedecido por ninguém”. Fiquei muito curioso!! Quem foi este homem que quis assumir o comando dos militares “revolucionários” , que tinham forca suficiente para vencer o confronto militar do 25 de Novembro, como afirma Francisco Melro, mas que não foi obedecido por ninguém, por apenas reconhecerem autoridade a Otelo? Qual poderia ser o problema de revelar aqui o seu nome, que “todos os envolvidos sabem quem é”?
De resto, eu próprio vivi muito comprometidamente estes acontecimentos, e confesso que esta posição hoje maioritária entre ex-camaradas da esquerda revolucionária dessa época, no sentido de considerar que a revolução portuguesa acabou “ainda a tempo” não me satisfaz nem faz justiça aos processos libertadores desencadeados pelo 25 de Abril, contra os quais se levantaram forças gigantescas e implacáveis. Ainda bem que aconteceu assim? Acho que não! E acho também que o sonho não está morto e que precisamos de o reinventar! Os tempos sombrios que vivemos assim o exigem.
Excelente relato dos acontecimentos, Francisco Melro. Parabéns. Partilho
Abraço
Penso que sei quem não foi obedecido por ninguém, e ainda bem. Não vou, porém, dizer o seu nome, pois não foi essa a vontade do autor. Foi alguém que não era reconhecido como chefe militar.