30 de Abril, 2026

Marco Rubio, um portento de ignorância

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O que Marco Rubio veio fazer à Alemanha foi “pintar a manta”


Por João Gomes, in Facebook 15.02.2026, original AQUI | Editado NSF

[Recomendado por Helena Rato para o NSF]


Há declarações políticas infelizes. Há declarações ideológicas. E depois há aquelas que parecem ter sido escritas por um argumentista nostálgico do século XIX, preso entre mapas cor-de-rosa e fantasias imperiais. As recentes intervenções de Marco Rubio, feitas em solo alemão perante representantes europeus, pertencem a esta última categoria. Retratar a descolonização como um “plano comunista sinistro” que destruiu 500 anos de impérios ocidentais não é apenas uma mentira histórica. É uma proeza de ginástica intelectual que ignora séculos de transformações políticas, económicas e morais. Um verdadeiro portento – mas de ignorância.

A descolonização não caiu do “céu vermelho”. Comecemos pelo básico: a descolonização do século XX não foi um guião redigido em Moscovo. Foi o resultado de dinâmicas estruturais profundas, aceleradas pela devastação da Segunda Guerra Mundial. As potências europeias estavam economicamente exaustas, militarmente fragilizadas e moralmente desacreditadas depois de duas guerras globais.
A criação da Organização das Nações Unidas consagrou o princípio da autodeterminação dos povos. Subitamente, aquilo que durante séculos fora tratado como administração ultramarina passou a ser descrito, com desconforto crescente, como dominação colonial.
Sim, alguns movimentos de libertação adotaram matrizes socialistas. Era a linguagem ideológica disponível para quem procurava mobilização internacional e apoio material durante a Guerra Fria.

Mas confundir instrumento geopolítico com causa histórica é como confundir o fósforo com o incêndio.


Os impérios não ruíram porque um “comité secreto comunista” decidiu apertar um botão. Ruíram porque já não eram sustentáveis – financeiramente, militarmente, politicamente e, cada vez mais, moralmente.

O que foi, afinal, o colonialismo?


Durante meio milénio, impérios como o Império Britânico, o Império Francês, o Império Português e o Império Espanhol expandiram-se pelo globo. Levaram comércio, religião, infraestruturas e sistemas administrativos. Também levaram trabalho forçado, hierarquias raciais, expropriação de terras e escravatura transatlântica. A economia de vastas regiões assentou durante séculos em sistemas que hoje seriam inequivocamente classificados como violações massivas dos direitos humanos. Invocar nostalgicamente esse período como se fosse apenas uma idade de ouro civilizacional exige uma seletividade histórica quase artística.
E os Estados Unidos? São um pequeno detalhe?
Há um pormenor curioso nesta narrativa imperial de Marco Rubio: os próprios Estados Unidos nasceram de uma revolta anticolonial. As Treze Colónias britânicas romperam com o Império Britânico na Guerra da Independência dos Estados Unidos, consagrando na Declaração de Independência dos Estados Unidos o princípio de que os povos têm direito a libertar-se de governos opressivos.
Parte substancial do território americano esteve também sob controlo francês, vendido aos EUA na célebre Compra da Luisiana, herança do antigo Império Colonial Francês.

Portanto, a maior potência mundial contemporânea é produto direto de um processo de descolonização.

Ironia das ironias: se aplicássemos o raciocínio simplista de que “descolonização = plano comunista”, teríamos de reescrever 1776 como uma conspiração marxista avançada – o que seria cómico porque Marx ainda nem tinha nascido.


Colonizadores do resto do Mundo

E o comunismo nos EUA? Bem, se alguém quiser insistir na associação automática entre descolonização e comunismo, convém recordar que, nas décadas de 1940 e 1950, os EUA viveram o Macarthismo, liderado pelo senador Joseph McCarthy. A caça às bruxas anticomunista atingiu artistas, académicos, funcionários públicos e militares. O comunismo, longe de ser matriz fundadora americana, foi tratado como ameaça existencial.
Como tratar a nostalgia imperial como política externa? O que resta, então, das declarações inflamadas em solo alemão de Marco Rubio? Talvez uma tentativa de galvanizar uma identidade ocidental sob a ideia de declínio – um discurso que opõe uma idade imperial gloriosa a uma suposta decadência multipolar.
Mas o mundo mudou. A ascensão de novos polos de poder, o fim formal dos impérios coloniais e a consolidação do direito internacional não são acidentes históricos. São transformações estruturais. Sugerir que a solução para a complexidade do século XXI é um regresso simbólico a lógicas imperiais não revela força estratégica. Revela incapacidade de compreender a evolução histórica da atual administração do EUA. Revela o quão pequenos são os seus dirigentes. Revela, sobretudo, que o que Marco Rubio veio fazer à Alemanha foi “pintar a manta” para – mais uma vez – submeter a Europa às tentativas desesperadas de Trump para se safar das suas recentes escolhas políticas: na tentativa de absorver as economias dos mais fracos e dos menos fracos. Na prática, de serem os EUA os “colonizadores do resto do Mundo”.
Se isto é liderança intelectual, então estamos perante um fenómeno raro: a ignorância elevada a instrumento retórico. E nisso, reconheça-se, há um certo, mas triste talento.

Ilustração in João Gomes

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