3 de Junho, 2026

Na altura não se falava em colegas, era companheiros e companheiras!

Fonte: Fundação Gulbenkian, divulgado pela Beira Serra

[Para assinalar o Dia da Greve Geral – 3 de junho de 2026 – publicamos um artigo sobre o 1º de maio e sobre as lutas dos trabalhadores da indústria têxtil na Covilhã] – CVR / Nsf

Para assinalar o Dia do Trabalhador, a Fundação Gulbenkian conversou com trabalhadores da indústria têxtil da Covilhã sobre liberdade, resistência e organização coletiva, antes e depois do 25 de Abril de 1974.

Entre trabalhadores no ativo e reformados, todos integram o projeto de arte participativa e comunitária Urdidura, apoiado pela 3.ª edição da iniciativa PARTIS & Art for Change. O projeto reúne pessoas com origens e percursos diversos – desde antigos operários dos lanifícios a trabalhadores e estudantes imigrantes recentemente chegados à região – e desafia-os a partilhar um processo artístico coletivo nas áreas da dramaturgia, do teatro e do cinema.

Sublinhando o contributo dos operários fabris da Beira Interior na conquista de direitos laborais, as suas vozes desenham uma história comum: a de um território industrial onde o trabalho, a luta e a liberdade se entrelaçam, fio a fio.

As pessoas não podiam dizer mal do governo

Elvira Cardoso é reformada da indústria têxtil e começou a trabalhar numa fábrica de lanifícios da Covilhã ainda não tinha 13 anos. Vinda da aldeia da Bouça, fazia longos percursos a pé para chegar ao trabalho ou ficava alojada com outras raparigas, sempre acompanhadas por uma mulher mais velha, também operária fabril. Trabalhou na secção da ultimação e foi delegada sindical até ao encerramento da fábrica. Ao falar do período anterior ao 25 de Abril, recorda um tempo marcado pelo medo e pela falta de liberdade: “As pessoas não podiam dizer mal do governo, e muitos até tinham de emigrar porque não havia liberdade.”

Trabalhar em criança era comum na indústria têxtil da região, sobretudo entre raparigas, e as desigualdades salariais faziam parte do quotidiano. Maria Amélia Simplício, que viveu toda a vida no Tortosendo, começou ainda criança a trabalhar numa fábrica de lanifícios e mais tarde tornou‑se urdideira. Atualmente reformada, foi delegada sindical durante vários anos e lembra que, mesmo antes da Revolução, já existiam formas de luta organizada, como a greve de 1973 pelos salários e pelos direitos dos trabalhadores dos lanifícios.

A resistência acontecia também fora das greves e da visibilidade pública. Gabriel Carrola, natural do Tortosendo, começou a trabalhar em criança, dando fios aos teares, e mais tarde foi tecelão. Com um longo percurso no sindicalismo e no associativismo local, sublinha a importância da solidariedade entre trabalhadores, que se organizavam para apoiar colegas doentes ou famílias sem rendimento – gestos que, para ele, foram também formas concretas de resistência ao fascismo.

A seguir ao 25 de Abril sentimos logo na pele a liberdade

O 25 de Abril surge nas memórias como uma mudança sentida no próprio trabalho. Vieram as reuniões, as reivindicações e uma nova forma de relação dentro da fábrica, marcada por um forte sentimento coletivo.

Essa memória do passado dialoga com experiências mais recentes. Alexandre Faria, operário têxtil brasileiro a viver na Covilhã há seis anos, trabalha atualmente na Fábrica Paulo de Oliveira. No Urdidura, cruza a sua experiência com as histórias de quem trabalhou nos lanifícios durante décadas, vendo nas lutas do passado uma força capaz de mobilizar os trabalhadores de hoje.

Também Cybelle Mendes, brasileira a viver na Covilhã há sete anos, participante do projeto e consultora na área do cinema, sublinha a importância histórica da indústria têxtil na organização dos trabalhadores e na disseminação da resistência antifascista. Ao mesmo tempo, traz para o projeto uma reflexão sobre liberdade no presente, marcada pela experiência da migração e pelas formas subtis de discriminação que persistem.

No Urdidura, estas vozes entrelaçam‑se num gesto coletivo de criação. No Dia do Trabalhador, o projeto lembra que a liberdade e os direitos laborais não são abstratos: nascem do trabalho, da organização e das experiências vividas por quem, geração após geração, fez da fábrica um lugar de luta e de comunidade.

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