A chama situacionista vai-se apagando
Com Guy Debord, no verão de 1961, em Paris, fundou a Internacional Situacionista
O filósofo belga Raoul Vaneigem morreu na madrugada de terça para quarta-feira, aos 92 anos, no seu apartamento na costa catalã, perto de Barcelona. Com ele, desaparece uma das últimas vozes do Maio de 68 que nunca se rendeu ao capitalismo e à mercantilização do mundo.
Faleceu “de morte pacífica e natural”, disse um amigo próximo à AFP, com a discrição que caracterizou toda a sua vida. Raoul Vaneigem nunca procurou aparições na televisão ou a vida social parisiense. Não precisava disso. As suas palavras já tinham circulado por Paris em 68 e continuam hoje a ressoar na mente de todos aqueles que se recusam a vergar-se ao todo-poderoso dólar.
Nascido em março de 1934 em Lessines, na Bélgica, no seio de uma família modesta e anticlerical, onde o pai, sindicalista ferroviário, lhe incutiu desde cedo o gosto pela luta de classes, Vaneigem cresceu longe dos requintados salões da burguesia. Depois de estudar literatura e línguas clássicas em Bruxelas, lecionou durante cerca de dez anos antes de o seu encontro com Guy Debord, no verão de 1961, em Paris, lhe mudar a vida. Juntos, fundaram a Internacional Situacionista, um movimento que rejeitava a sociedade do espetáculo, essa máquina de fabricar passividade e resignação perante a ditadura das mercadorias.
Em 1967, enquanto Debord publicava A Sociedade do Espetáculo, Vaneigem lançava Um Tratado sobre a Vida para Uso das Gerações Mais Novas. O manuscrito tinha sido rejeitado por quinze editoras antes de Raymond Queneau o resgatar. Este livro, no entanto, tornar-se-ia a bíblia de toda uma geração que, poucos meses depois, abalaria o regime gaullista até ao âmago. Contra o consumismo desenfreado, Vaneigem clamava por uma emancipação individual radical e por uma vida vivida em plenitude, sem concessões à alienação do trabalho. Uma única frase deste texto resume toda a sua luta: defendia uma vida intensa, para si próprio, com a consciência de que o que realmente importa a cada indivíduo importa a todos. Ao contrário de Debord, mais teórico e frio na sua abordagem da estrutura social, Vaneigem tinha uma visão mais poética e visceral, alimentada por Lautréamont e Nietzsche, onde a revolução também precisava de ser expressa através da alegria e do desejo. Abandonou a Internacional Situacionista em 1970, marcando uma ruptura definitiva com Debord, sem nunca renunciar ao cerne do seu compromisso. Ao longo da sua vida, manteve um olhar atento sobre o estado do mundo, nunca abandonando os seus ideais de rutura com a ordem estabelecida. Chegou a apoiar a revolta zapatista em Chiapas, no México, na década de 1990, e mais tarde o movimento dos Coletes Amarelos em França, em 2018 e 2019, prova de que a sua indignação contra os poderosos não tinha diminuído em nada. Autor de cerca de meia centena de livros que fundem ensaios políticos sobre autogestão com estudos sobre heresias medievais, e pai de quatro filhos, este amante da natureza e do vinho dividia o seu tempo entre o campo da região de Yonne e a costa catalã. Numa rara entrevista ao Le Monde em 2019, fez uma declaração que ressoa como um manifesto para os nossos tempos: a democracia, disse, encontra-se nas ruas, não nas urnas, e defendeu um pacifismo insurrecional que faria da própria vida uma arma que nunca mata.
Este é o legado que nos deixa. Enquanto os poderosos continuam a mercantilizar as nossas vidas, enquanto a precariedade se instala e a revolta popular é desprezada por aqueles que preferem as urnas fraudulentas aos movimentos de rua, o pensamento de Vaneigem permanece surpreendentemente relevante. Nunca acreditou em compromissos com um sistema que destrói vidas para enriquecer uma minoria. Acreditava na autogestão, na criatividade dos bairros operários, na resistência local contra os poderosos no topo. É este legado que devemos manter vivo, sem nunca fazermos concessões, sem nunca nos resignarmos à falsa vida que o capitalismo nos impõe como nosso único horizonte. Descanse em paz, camarada. A luta continua.
Arnaud – Le Média Libre

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