Sim, chamava-se naturalmente Lucia
CONTADORES DE HISTÓRIAS – Na casa do flamenco

Tiago Silva
Vou armar-me em Mark Twain e começar por uma frase que ele nunca escreveu, mas podia perfeitamente ter escrito: “Não saberás nada sobre Espanha se nunca tiveres ido a Sevilha.” Do outro lado do Guadalquivir fica Triana, o bairro onde o flamenco encontrou um dos seus berços. Ou, pelo menos, onde um fogo aprendeu a bater palmas.
Pagámos cinquenta euros pelos quatro para assistir a um espetáculo no Tablao Álvarez Quintero, recomendado por uma amiga espanhola e longe das euforias turísticas das Setas. Como levávamos os putos, reservaram-nos os melhores lugares da sala. Há casas que olham para uma família e veem um problema. Aquela viu convidados.
Sentei os miúdos e fui ao bar buscar bebidas. Junto ao balcão, os artistas partilhavam um pequeno ensaio. Um deles segurava uma guitarra espanhola. Era Juan de los Reyes. Vinte anos. Como nestas coisas tenho uma lata considerável, disse-lhe que, no caminho para ali, tinha acabado de ouvir La Barrosa, de Paco de Lucía. Acrescentei que a mãe de Paco era portuguesa — verdade rigorosa, usada naquele momento sobretudo para me armar em culto.
O rosto de Juan abriu-se e respondeu “sim, chamava-se naturalmente Lucia”. Disse-me que Paco era o seu ídolo, colocou a guitarra em posição e começou a tocar La Barrosa para mim. Assim, simplesmente. Como se tivesse ensaiado a vida inteira para aquele encontro absurdo junto a um balcão. O espetáculo ainda não começara e eu já recebera mais do que pagara. Depois vieram Antonio Amador na voz, María de Amaro na dança e Juan na guitarra. No flamenco, ninguém acompanha ninguém: desafiam-se. A voz chama, a guitarra responde e o corpo bate no chão para obrigar a terra a entrar na conversa.
Há músicas que se escutam. O flamenco acontece-nos. Enquanto tudo aquilo ardia, Benedita ia olhando e desenhando. No final, aproximou-se dos artistas e entregou-lhes a folha. Eles tinham-nos dado a voz, as cordas, o corpo e o suor. Nós aplaudimos. Benedita deu-lhes um desenho. Os aplausos mesmo sem pressa, nunca ficam para sempre, mas desenho ficou com eles.

Foto © Tiago Silva