23 de Agosto, 2026

Quantas vezes por ano conseguimos pôr uma estátua de barro a dar uma volta ao quarteirão em cima de um andor?

Luís Rocha

Há países que medem o seu desenvolvimento pelo número de universidades, pela qualidade dos hospitais, pela produtividade, pela investigação científica ou pela capacidade de transformar uma ideia numa coisa útil. Portugal encontrou uma métrica mais apropriada à sua vocação histórica. Quantas vezes por ano conseguimos pôr uma estátua de barro a dar uma volta ao quarteirão em cima de um andor.

E não estamos a falar de uma actividade residual. Segundo um levantamento baseado na Enciclopédia das Festas Populares e Religiosas de Portugal, de Filipe Costa Pinto, existem no país mais de 14 mil manifestações populares e religiosas, entre festas, romarias, procissões, círios e outras celebrações. Cerca de 6.900 acontecem durante o Verão e Agosto, sozinho, concentra cerca de 3.600 eventos.

É uma proeza estatística extraordinária. Portugal tem dificuldades em fazer educar pessoas, mas não tem qualquer dificuldade em fazer adorar santos.

A nossa capacidade logística é, aliás, admirável. Construímos aeroportos que às vezes parecem ter sido desenhados apenas para receber gaivotas, temos comboios que desenvolvem uma relação filosófica com a pontualidade, há aldeias onde a Internet continua a ser uma experiência de carácter experimental, mas quando chega Agosto aparece uma comissão de festas capaz de mobilizar uma banda filarmónica, vinte homens para carregar um andor, quarenta mulheres para organizar as flores, três carrinhas, um incontável número de caixas de cerveja, uma máquina de farturas, fogo-de-artifício suficiente para acordar os mortos e um homem chamado Quim que sabe exactamente onde está o cabo eléctrico que liga a iluminação toda para que o forróbodó continue de noite.

É este o Portugal que funciona.

O país pode passar quinze anos a discutir uma escola, vinte a prometer um centro de saúde e uma eternidade a tentar construir uma linha ferroviária. Mas diga-se que Nossa Senhora vai sair às cinco da tarde e, subitamente, tudo aparece.

Temos uma capacidade impressionante para organizar aquilo que não altera absolutamente nada.

Talvez seja esta a nossa grande especialização nacional. A mobilização social sem consequência social.

Enquanto outros países inventam coisas, nós inventamos ladaínhas. Enquanto outros discutem ciência, nós discutimos quem leva o andor. Enquanto outros desenvolvem pensamento crítico, nós perguntamos se São Sebastião deve sair pela rua de cima ou pela rua de baixo.

E depois há a dimensão marítima da coisa.

Porque há santas que até vão passear ao rio ou ao mar, porque nada melhor do que uma estátua de barro para acalmar os peixinhos, Poseidon ou qualquer outro deus ou crendice que ainda teime em viver nas cabecinhas medievais.

É uma espécie de serviço público sobrenatural. Os pescadores enfrentam ondas, correntes e tempestades, mas lá vai a santa, cuidadosamente instalada no seu andor ou embarcação, para negociar directamente com as forças da natureza. A meteorologia que espere. A oceanografia que aguarde. Temos barro.

E há sempre uma solução para os problemas nacionais. Uma comissão.

Não para a habitação, evidentemente. Para a festa.

Não para a pobreza infantil. Para a quermesse.

Não para a literacia científica. Para o sorteio do leitão.

Não para a desertificação do interior. Para contratar o artista pimba que cobra vinte mil euros para cantar durante uma hora e meia perante 700 pessoas e três cães.

É impossível não admirar a coerência.

Portugal continua a enfrentar problemas sociais que estão longe de estar resolvidos. Em 2024, 20% da população residente encontrava-se em risco de pobreza ou exclusão social, segundo dados do Eurostat divulgados pelo INE. No mesmo ano, a taxa de risco de pobreza monetária foi de 15,4%, correspondendo a cerca de 1,66 milhões de pessoas.

Mas não nos precipitemos com conclusões negativas.

Temos 3.600 acontecimentos em Agosto.

Portanto, está tudo óptimo.

Aliás, se desenvolvimento social fosse medido pelo número de vezes que uma população se junta para contemplar uma estátua de gesso, madeira ou barro, Portugal seria uma superpotência mundial. O FMI andaria a pedir conselhos à comissão de festas de Alguidares de Baixo. A OCDE mandaria uma delegação para estudar a logística das sardinhas. A União Europeia atribuiria fundos de coesão directamente ao homem do fogo-de-artifício.

E talvez seja injusto chamar-lhes simplesmente festas religiosas. Elas são muito mais do que isso. São um mecanismo secular de coesão comunitária, onde a prestação pública consiste em pôr uma imagem sacra a circular pelas ruas enquanto uma banda toca, alguém vende bifanas e outro alguém explica que antigamente é que era bom.

É bonito.

É profundamente humano.

É também uma excelente maneira de manter uma sociedade ocupada enquanto espera que alguma coisa mude.

Porque talvez o problema não seja Portugal gostar demasiado das festas.

O problema é Portugal ter aprendido a confundir participação com desenvolvimento.

Podemos juntar milhares de pessoas numa praça e continuar sem saber discutir colectivamente o futuro da comunidade. Podemos carregar um santo durante três quilómetros e continuar incapazes de carregar uma reivindicação cívica durante trezentos metros. Podemos organizar uma procissão com uma precisão militar e não conseguir organizar uma reunião de condomínio sem acabar tudo ao estalo.

A estátua sai.

A banda toca.

O foguete rebenta.

A cerveja corre.

E amanhã, se Deus quiser, continuamos exactamente no mesmo sítio.

O que é, aliás, uma das grandes vantagens de uma boa romaria.

Que ao contrário do desenvolvimento, regressa sempre ao ponto de partida.

Ali por volta do Séc. XII…

Beijinhos e até à próxima…

Foto © CVR – NSF

Referências consultadas

Festas e Romarias Populares em Portugal – levantamento de (2008)

Instituto Nacional de Estatística – Península Ibérica em Números 2025

Instituto Nacional de Estatística – INEWS 64. Pobreza em Portugal 2024

Europe Sustainable Development Report 2025 – Sustainable Development Solutions Network

Repositório Científico de Acesso Aberto – referência à Enciclopédia das Festas Populares e Religiosas de Portugal

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