O oportunismo
De que lado estiveste quando ainda não sabias quem iria vencer?

Ana Sampaio Monteiro
1 de setembro de 1939
Diz o adágio português:
“Se não podes vencer o teu inimigo, junta-te a ele.”
E outro, igualmente conhecido:
“Amigo de todos, amigo de ninguém.”
São provérbios populares. Mas, quando transformados em princípio de vida, podem esconder algo bem menos inocente do que prudência: o OPORTUNISMO.
Há quem esteja sempre do lado certo – não porque tenha princípios, mas porque escolhe cuidadosamente o lado que parece mais forte.
Muda de opinião conforme muda o poder.
Muda de convicções conforme mudam as circunstâncias.
E consegue fazê-lo sem sentir pejo ou fazer mossa.
É uma das formas mais evidentes de ausência de carácter e de deslealdade.
Contudo, o TEMPO acaba sempre por revelar quem cada um realmente é.
I – 1 DE SETEMBRO DE 1939
Hoje, 1 de Setembro de 2026, passam 87 anos sobre o acontecimento que iniciaria a Segunda Guerra Mundial.
Nesse dia, Adolf Hitler invadia a Polónia – país militarmente impreparado, de soberania relativamente recente, incapaz de resistir à esmagadora superioridade militar alemã.
Dois dias depois, a Grã-Bretanha e a França declaravam guerra à Alemanha.
A guerra começava.
Mas a sua preparação política vinha de trás.
Meses antes, Hitler celebrara com José Estaline o Pacto Germano-Soviético de Não Agressão.
Dois ditadores que nutriam um pelo outro uma profunda hostilidade ideológica encontravam, ainda assim, uma convergência suficiente para dividir territórios e satisfazer ambições imperialistas.
A Polónia seria dividida entre os dois.
Quando o poder e a ambição falam mais alto, até os inimigos podem tornar-se aliados temporários.
Um ano antes, em 29 de Setembro de 1938, o Acordo de Munique tinha mostrado até onde podia chegar a ingenuidade dos que acreditavam conseguir conter Hitler através de concessões.
Estavam presentes:
Neville Chamberlain, Primeiro-Ministro britânico, líder do Partido Conservador e chefe do Governo de Jorge VI;
Édouard Daladier, Presidente do Conselho de França, cujo antecessor havia sido Léon Blum;
Benito Mussolini, Primeiro-Ministro de Itália, apresentado como mediador e pacificador perante o expansionismo alemão, mas validador das intenções de Hitler,
e
Adolf Hitler, o Führer da Alemanha.
Chamberlain e Daladier haveriam de ficar na História também pela sua ingenuidade política.
Ao regressar a Londres, Chamberlain declarou eufórico,
“Creio que é a paz para o nosso tempo. Podemos dormir descansados.”
Seriam afastados logo a seguir.
Winston Churchill muito mais difícil de iludir quanto às intenções de Hitler, haveria de assumir a liderança britânica.
Em França, seria Paul Reynaud antes de ser preso pelos alemães após a ocupação de França.
Estaline, por sua vez, haveria de descobrir da pior maneira possível a traição de Hitler.
Em 22 de Junho de 1941, a URSS seria invadida.
II – SEIS ANOS DE BARBÁRIE
A guerra que começou em Setembro de 1939 tornar-se-ia a mais mortífera e cruel de toda a História da Humanidade:
- 60 milhões de mortos.
- O armamento mais bárbaro e sofisticado.
- A destruição de cidades inteiras.
- O Holocausto.
- O maior genocídio da História.
- Duas bombas atómicas.
Seis anos de uma violência que revelou aquilo que de mais hediondo o ser humano é capaz de esconder dentro de si.
E, no meio de tudo isto, houve também homens que escolheram colaborar.
Homens que escolheram o lado do mais forte.
Homens que aceitaram a ocupação, o autoritarismo, a perseguição e o crime porque acreditaram que, dessa forma, conseguiriam preservar o poder, a posição social ou a própria sobrevivência.
A História guardou os seus nomes.
E alguns tornaram-se, eles próprios, sinónimos da palavra traição contra a humanidade.
– BENITO MUSSOLINI- ITÁLIA
Aliado convicto de Hitler. O seu oportunismo estratégico acabaria, porém, por conduzir a Itália à catástrofe, à queda do regime.
Morreu executado, foi pendurado pelos pés, em 28 de Abril de 1945,
– PHILIPPE PÉTAIN – FRANÇA
Marechal, tornou-se chefe do regime de Vichy.
Fundou um governo autoritário e colaboracionista, alinhado com a Alemanha Nazi.
A França derrotada encontrou nele um homem disposto a colaborar com o ocupante.
O general Charles de Gaulle comutou-lhe a pena para prisão perpétua.
Morreu em 1951.
– VIDKUN QUISLING – NORUEGA
Ministro-Presidente da Noruega em 1942, tornou-se chefe de um governo fantoche pró-nazi. Colaborou no holocausto.
Foi fuzilado em 1945, em Oslo.
O seu nome tornou-se, em vários idiomas, sinónimo de “traidor” ou “colaboracionista”.
-ANTE PAVELIĆ – CROÁCIA
Chefe do Estado, promoveu um dos genocídios mais brutais da guerra, tendo como vítimas sérvios, judeus e ciganos.
Francisco Franco concedeu-lhe asilo.
Morreu em Madrid, em 1959.
– JOZEF TISO – ESLOVÁQUIA
Sacerdote católico, tornou-se o primeiro Estado aliado da Alemanha a deportar a sua própria população judaica para os campos de concentração.
No final da guerra foi condenado à morte, foi enforcado em Bratislava, em 1947.
– ION ANTONESCU – ROMÉNIA
Marechal e ditador, governou sob os auspícios do Terceiro Reich.
Enviou centenas de milhares de soldados romenos para a invasão da União Soviética e promoveu o Holocausto na Roménia.
Foi executado por fuzilamento, em 1946.
-MIKLÓS HORTHY E FERENC SZÁLASI – HUNGRIA
– FERENC SZÁLASI, líder do partido fascista.
Foi enforcado em Budapeste, em 1946.
MIKLÓS HORTHY obteve asilo de Salazar. Morreu, em 1957, no Estoril.
– ANTÓNIO DE OLIVEIRA SALAZAR
É aqui que a palavra ambiguidade ganha uma dimensão particularmente incómoda.
SALAZAR manteve oficialmente Portugal neutral durante a Segunda Guerra Mundial.
Mas neutralidade não significava necessariamente equidistância moral.
A sua política foi cuidadosamente construída entre interesses económicos, sobrevivência do regime, manutenção do império ultramarino, equilíbrio diplomático e muita hipocrisia e embuste.
Germanófilo convicto, soube, contudo, recorrer à histórica Aliança Luso-Britânica quando isso se revelou conveniente:
em 1943, permitiu o uso da Base Aérea das Lajes, nos Açores, primeiro pela Força Aérea Britânica e posteriormente pelos Estados Unidos.
Concedeu asilo a ditadores e colaboradores dos regimes derrotados.
E, após a morte de Adolf Hitler, decretou três dias de luto oficial.
No final da guerra, o nazi-fascismo fora derrotado em toda a Europa.
Mas não em Portugal.
Nem em Espanha.
Temendo que os ventos da democracia chegassem finalmente ao país, Salazar prometeu eleições legislativas “tão livres como na livre Inglaterra” – mera tergiversação inescrupulosa, esperava uma desmesurada gratidão por “ter livrado os portugueses da guerra”.
Quando milhares de portugueses opositores do regime se identificaram publicamente nas listas apresentadas para a constituição do MUD – Movimento de Unidade Democrática -, o regime reagiu e tremeu; não contava com assaz “falta de consideração” e “desfaçatez”.
Vingou-se.
Os ditadores retaliam sempre contra quem tem a coragem de os enfrentar, protegidos e aplaudidos pela legião de sequazes – de recrutamento acessível – que, por conveniência, vingança injustificável, medo, raiva ou inveja, lhes alimenta o poder.
Os nomes foram entregues à PIDE.
E esses homens e mulheres pagaram caro pela coragem de se identificarem como democratas.
Foram perseguidos.
Foram privados das suas condições de vida e de trabalho.
Foram silenciados.
A promessa de liberdade revelou-se, uma vez mais, apenas uma ferramenta de sobrevivência do poder.
Morreria em 1970.
– FRANCISCO FRANCO – ESPANHA
FRANCO manteve a Espanha numa posição de “não-beligerância” e posteriormente de neutralidade.
Que não impediram um forte apoio ideológico, militar e económico à Alemanha Nazi e à Itália Fascista.
Morreria em 1975.
III – A HISTÓRIA NÃO ESQUECE.
É por isso que o 1 de Setembro de 1939 não deve ser apenas uma data no calendário.
Deve ser uma advertência.
Porque uma guerra não é feita apenas por soldados.
É feita também por escolhas:
de quem resiste.
de quem denuncia.
de quem se cala.
de quem colabora.
de quem fecha os olhos.
O oportunismo pode ser uma estratégia de sobrevivência; raramente é uma estratégia de honra.
A História permanece.
E quando chega a hora do julgamento, há homens que ficam recordados pela coragem de defender os seus princípios quando fazê-lo tinha um preço.
E há outros que ficam recordados por uma única característica:
estiveram sempre do lado de quem parecia ganhar.
Até deixarem de ganhar.
E talvez seja essa a definição mais cruel de deslealdade.
E não esqueçamos nunca:
a História não pergunta apenas quem venceu.
Pergunta também:
DE QUE LADO ESTIVESTE QUANDO AINDA NÃO SABIAS QUEM IRIA VENCER?