2 de Setembro, 2026

De que lado estiveste quando ainda não sabias quem iria vencer?

Ana Sampaio Monteiro

1 de setembro de 1939

Diz o adágio português:

“Se não podes vencer o teu inimigo, junta-te a ele.”

E outro, igualmente conhecido:

“Amigo de todos, amigo de ninguém.”

São provérbios populares. Mas, quando transformados em princípio de vida, podem esconder algo bem menos inocente do que prudência: o OPORTUNISMO.

Há quem esteja sempre do lado certo – não porque tenha princípios, mas porque escolhe cuidadosamente o lado que parece mais forte.

Muda de opinião conforme muda o poder.

Muda de convicções conforme mudam as circunstâncias.

E consegue fazê-lo sem sentir pejo ou fazer mossa.

É uma das formas mais evidentes de ausência de carácter e de deslealdade.

Contudo, o TEMPO acaba sempre por revelar quem cada um realmente é.

I – 1 DE SETEMBRO DE 1939

Hoje, 1 de Setembro de 2026, passam 87 anos sobre o acontecimento que iniciaria a Segunda Guerra Mundial.

Nesse dia, Adolf Hitler invadia a Polónia – país militarmente impreparado, de soberania relativamente recente, incapaz de resistir à esmagadora superioridade militar alemã.

Dois dias depois, a Grã-Bretanha e a França declaravam guerra à Alemanha.

A guerra começava.

Mas a sua preparação política vinha de trás.

Meses antes, Hitler celebrara com José Estaline o Pacto Germano-Soviético de Não Agressão.

Dois ditadores que nutriam um pelo outro uma profunda hostilidade ideológica encontravam, ainda assim, uma convergência suficiente para dividir territórios e satisfazer ambições imperialistas.

A Polónia seria dividida entre os dois.

Quando o poder e a ambição falam mais alto, até os inimigos podem tornar-se aliados temporários.

Um ano antes, em 29 de Setembro de 1938, o Acordo de Munique tinha mostrado até onde podia chegar a ingenuidade dos que acreditavam conseguir conter Hitler através de concessões.

Estavam presentes:

Neville Chamberlain, Primeiro-Ministro britânico, líder do Partido Conservador e chefe do Governo de Jorge VI;

Édouard Daladier, Presidente do Conselho de França, cujo antecessor havia sido Léon Blum;

Benito Mussolini, Primeiro-Ministro de Itália, apresentado como mediador e pacificador perante o expansionismo alemão, mas validador das intenções de Hitler,

e

Adolf Hitler, o Führer da Alemanha.

Chamberlain e Daladier haveriam de ficar na História também pela sua ingenuidade política.

Ao regressar a Londres, Chamberlain declarou eufórico,

“Creio que é a paz para o nosso tempo. Podemos dormir descansados.”

Seriam afastados logo a seguir.

Winston Churchill muito mais difícil de iludir quanto às intenções de Hitler, haveria de assumir a liderança britânica.

Em França, seria Paul Reynaud antes de ser preso pelos alemães após a ocupação de França.

Estaline, por sua vez, haveria de descobrir da pior maneira possível a traição de Hitler.

Em 22 de Junho de 1941, a URSS seria invadida.

II – SEIS ANOS DE BARBÁRIE

A guerra que começou em Setembro de 1939 tornar-se-ia a mais mortífera e cruel de toda a História da Humanidade:

  • 60 milhões de mortos.
  • O armamento mais bárbaro e sofisticado.
  • A destruição de cidades inteiras.
  • O Holocausto.
  • O maior genocídio da História.
  • Duas bombas atómicas.

Seis anos de uma violência que revelou aquilo que de mais hediondo o ser humano é capaz de esconder dentro de si.

E, no meio de tudo isto, houve também homens que escolheram colaborar.

Homens que escolheram o lado do mais forte.

Homens que aceitaram a ocupação, o autoritarismo, a perseguição e o crime porque acreditaram que, dessa forma, conseguiriam preservar o poder, a posição social ou a própria sobrevivência.

A História guardou os seus nomes.

E alguns tornaram-se, eles próprios, sinónimos da palavra traição contra a humanidade.

– BENITO MUSSOLINI- ITÁLIA

Aliado convicto de Hitler. O seu oportunismo estratégico acabaria, porém, por conduzir a Itália à catástrofe, à queda do regime.

Morreu executado, foi pendurado pelos pés, em 28 de Abril de 1945,

– PHILIPPE PÉTAIN – FRANÇA

Marechal, tornou-se chefe do regime de Vichy.

Fundou um governo autoritário e colaboracionista, alinhado com a Alemanha Nazi.

A França derrotada encontrou nele um homem disposto a colaborar com o ocupante.

O general Charles de Gaulle comutou-lhe a pena para prisão perpétua.

Morreu em 1951.

– VIDKUN QUISLING – NORUEGA

Ministro-Presidente da Noruega em 1942, tornou-se chefe de um governo fantoche pró-nazi. Colaborou no holocausto.

Foi fuzilado em 1945, em Oslo.

O seu nome tornou-se, em vários idiomas, sinónimo de “traidor” ou “colaboracionista”.

-ANTE PAVELIĆ – CROÁCIA

Chefe do Estado, promoveu um dos genocídios mais brutais da guerra, tendo como vítimas sérvios, judeus e ciganos.

Francisco Franco concedeu-lhe asilo.

Morreu em Madrid, em 1959.

– JOZEF TISO – ESLOVÁQUIA

Sacerdote católico, tornou-se o primeiro Estado aliado da Alemanha a deportar a sua própria população judaica para os campos de concentração.

No final da guerra foi condenado à morte, foi enforcado em Bratislava, em 1947.

– ION ANTONESCU – ROMÉNIA

Marechal e ditador, governou sob os auspícios do Terceiro Reich.

Enviou centenas de milhares de soldados romenos para a invasão da União Soviética e promoveu o Holocausto na Roménia.

Foi executado por fuzilamento, em 1946.

-MIKLÓS HORTHY E FERENC SZÁLASI – HUNGRIA

– FERENC SZÁLASI, líder do partido fascista.

Foi enforcado em Budapeste, em 1946.

MIKLÓS HORTHY obteve asilo de Salazar. Morreu, em 1957, no Estoril.

– ANTÓNIO DE OLIVEIRA SALAZAR

É aqui que a palavra ambiguidade ganha uma dimensão particularmente incómoda.

SALAZAR manteve oficialmente Portugal neutral durante a Segunda Guerra Mundial.

Mas neutralidade não significava necessariamente equidistância moral.

A sua política foi cuidadosamente construída entre interesses económicos, sobrevivência do regime, manutenção do império ultramarino, equilíbrio diplomático e muita hipocrisia e embuste.

Germanófilo convicto, soube, contudo, recorrer à histórica Aliança Luso-Britânica quando isso se revelou conveniente:

em 1943, permitiu o uso da Base Aérea das Lajes, nos Açores, primeiro pela Força Aérea Britânica e posteriormente pelos Estados Unidos.

Concedeu asilo a ditadores e colaboradores dos regimes derrotados.

E, após a morte de Adolf Hitler, decretou três dias de luto oficial.

No final da guerra, o nazi-fascismo fora derrotado em toda a Europa.

Mas não em Portugal.

Nem em Espanha.

Temendo que os ventos da democracia chegassem finalmente ao país, Salazar prometeu eleições legislativas “tão livres como na livre Inglaterra” – mera tergiversação inescrupulosa, esperava uma desmesurada gratidão por “ter livrado os portugueses da guerra”.

Quando milhares de portugueses opositores do regime se identificaram publicamente nas listas apresentadas para a constituição do MUD – Movimento de Unidade Democrática -, o regime reagiu e tremeu; não contava com assaz “falta de consideração” e “desfaçatez”.

Vingou-se.

Os ditadores retaliam sempre contra quem tem a coragem de os enfrentar, protegidos e aplaudidos pela legião de sequazes – de recrutamento acessível – que, por conveniência, vingança injustificável, medo, raiva ou inveja, lhes alimenta o poder.

Os nomes foram entregues à PIDE.

E esses homens e mulheres pagaram caro pela coragem de se identificarem como democratas.

Foram perseguidos.

Foram privados das suas condições de vida e de trabalho.

Foram silenciados.

A promessa de liberdade revelou-se, uma vez mais, apenas uma ferramenta de sobrevivência do poder.

Morreria em 1970.

– FRANCISCO FRANCO – ESPANHA

FRANCO manteve a Espanha numa posição de “não-beligerância” e posteriormente de neutralidade.

Que não impediram um forte apoio ideológico, militar e económico à Alemanha Nazi e à Itália Fascista.

Morreria em 1975.

III – A HISTÓRIA NÃO ESQUECE.

É por isso que o 1 de Setembro de 1939 não deve ser apenas uma data no calendário.

Deve ser uma advertência.

Porque uma guerra não é feita apenas por soldados.

É feita também por escolhas:

de quem resiste.

de quem denuncia.

de quem se cala.

de quem colabora.

de quem fecha os olhos.

O oportunismo pode ser uma estratégia de sobrevivência; raramente é uma estratégia de honra.

A História permanece.

E quando chega a hora do julgamento, há homens que ficam recordados pela coragem de defender os seus princípios quando fazê-lo tinha um preço.

E há outros que ficam recordados por uma única característica:

estiveram sempre do lado de quem parecia ganhar.

Até deixarem de ganhar.

E talvez seja essa a definição mais cruel de deslealdade.

E não esqueçamos nunca:

a História não pergunta apenas quem venceu.

Pergunta também:

DE QUE LADO ESTIVESTE QUANDO AINDA NÃO SABIAS QUEM IRIA VENCER?

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