O fascismo nunca desaparece: muda de rosto
Susan Sontag, no seu ensaio “Fascinante Fascismo” (1975), diz que existe um fascínio peculiar e sombrio pelo fascismo

Ana Sampaio Monteiro
Susan Sontag, no seu ensaio “Fascinante Fascismo” (1975), diz que existe um fascínio peculiar e sombrio pelo fascismo.
E porquê?
“O fascismo estético baseia-se em orgias de submissão, na coreografia da servidão, na exaltação do domínio e da violência física”, continuando a permear a cultura moderna através do culto do corpo, da perfeição física, da disciplina rígida e da beleza monumental.
Nos anos 20 e 30 do século XX, perante a ascensão do nazismo e do fascismo na Alemanha e em grande parte da Europa, muitos intelectuais inquietaram-se com a adesão de amplos sectores da sociedade a ideologias que prometiam ordem, segurança e grandeza nacional.
A sociedade atravessava uma profunda crise económica, cultural e existencial.
O medo e a anomia social criaram terreno fértil para aceitar a suspensão das liberdades individuais e a substituição das democracias liberais por Estados autoritários e repressivos.
Na Alemanha, a promessa de “fazer o país outra vez grande” assentou numa política de divisão entre “nós” e “eles” baseada no medo, na raiva e na desumanização.
A retórica nazi-fascista identificou inimigos internos: judeus, ciganos, homossexuais, comunistas, sociais-democratas, intelectuais, cientistas, deficientes e doentes.
Todos apresentados como “parasitas”, traidores e responsáveis pelos problemas da Nação.
A ideia era simples: “nós somos diferentes deles”, “este país é nosso”, “não são bem-vindos”.
Um líder carismático, autoritário, nacionalista e expansionista ostentou-se, então, como o único capaz de salvar uma Nação supostamente ameaçada.
Quase um século depois, assistimos ao ressurgimento de discursos e comportamentos similares.
Recuperando antigos modus operandi, o medo, a insegurança, as frustrações, as invejas tornam-se motores políticos capazes de transformar cidadãos comuns em defensores de regimes autoritários.
O fascismo apresenta-se, uma vez mais, como a panaceia para a ordem.
O maniqueísmo volta a assentar na velha premissa:
“ORDEM” – nós, os superiores – e “CAOS”- eles, os inferiores.
O etnocentrismo – a tendência para julgar outras culturas utilizando os valores, hábitos e padrões da nossa própria cultura como único modelo correcto – expande-se.
Os “inferiores” são agora outros, embora alguns permaneçam os mesmos: continuam os ciganos, os homossexuais, os deficientes, os pobres,
a que se juntam os imigrantes, os negros, os que rejeitam veementemente esta ideologia, depreciativamente apelidados de “esquerdalha”, as mulheres em paridade, as pessoas LGBT – enfim, todos aqueles que não se deixam manipular e que rejeitam esta visão autoritária do Mundo.
Os líderes da extrema-direita exploram sobretudo quatro emoções (pensemos na “praxis” de André Ventura):
o medo,
o orgulho nacional,
o ressentimento,
a nostalgia.
Estas quatro emoções são amplificadas por uma propaganda eficaz e cuidadosamente estruturada.
A nostalgia – por exemplo, o “movimento das mulheres conservadoras”, os saudosistas de Salazar, os “retornados”, os combatentes da guerra colonial – idealiza um passado mítico, apresentado como moral e historicamente superior ao presente, sugerindo que a solução passa por um “regresso” a essa ordem perdida e por uma autoridade e uma subjugação imprescindíveis.
A propaganda transforma essas emoções em instrumentos políticos: repete ideias até as tornar familiares, cria bodes expiatórios, espalha teorias da conspiração e notícias sempre falsas, utiliza redes sociais – veja-se a linguagem violenta e impune -, cartazes de conteúdo impactante e perturbador colocados estrategicamente, boicote e sobreposição da voz aos interlocutores em debates, mensagens de entendimento básico, memes, vídeos e influenciadores para amplificar a indignação e o ódio.
E a comunicação social, em nome da pluralidade, oferece-lhes o palco, incapaz de lhes travar a verborreia e o ruído constante.
Assim, os autoritarismos chegam ao poder pela própria via democrática, através do voto daqueles a quem prometem a “ordem” contra o “caos”.
Depois, instalada a autoridade, exigem lealdade incondicional, atacam os pobres – que mais pauperizam -, as mulheres, a educação, a ciência, as instituições e destroem a democracia que lhes abriu a porta.
É aqui que a responsabilidade de cada cidadão se torna inadiável.
Nós – “os cidadãos de bem” – não temos outra opção:
ou esclarecemos ou somos coniventes.
Ou defendemos a liberdade, a dignidade humana, as mulheres, a ciência, a educação e a democracia ou assistimos, em silêncio, ao avanço da barbárie e da falta de empatia, da violência em massa e da ignorância.
A resistência começa em nós.
Porque resistir à manipulação e ao autoritarismo não é apenas um exercício intelectual.
É UMA RESPONSABILIDADE DEMOCRÁTICA.
(Texto de Ana Sampaio Monteiro; Imagem:Getty)
Fontes
https://otorgador.pt/…/as-raizes-psicologicas-do-fascismo/
https://doceru.com/doc/n0c0c08e

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