15 de Junho, 2024

Pobres Malalas afegãs… nossas irmãs

OPINIÃO | Afeganistão

por Manuela Almeida Ferreira

Hoje vou ser muito breve porque, se a raiva que sinto é desmedida, a impotência é ainda maior e por isso não me consente raciocínio especialmente lúcido sobre as tantas atrocidades de que o planeta está recheado.
Quando alguma coisa é demasiado má, cruel, bárbara, a minha amiga belga costuma dizer, cerrando os punhos: «Quand c’est comme ça, moi, j’ai envie de tuer!»


Em idêntico estado de espírito me encontro eu desde o auge dos desmandos em Cabo Delgado. Dizia, na altura: «Fosse eu nova e saudável, e podeis crer que estaria já lá, a limpar o sebo aos extremistas islâmicos.»
Eis senão quando, em quatro curtos dias, os talibãs de há vinte anos, ou seus seguidores e descendentes, ou ambos, nos surgem nos écrans a atingir, com golpes de cronha das espingardas, a população metida nos esgotos até aos joelhos que, nas imediações do aeroporto de Cabul, desesperadamente lutava por uma passagem para um país sem guerra.

Perante o estado do mundo, a esperança é nula

Se tenho vontade de matar? Tenho, sim; tenho, sim, e muita, porque não há lógica que seja inteligível àqueles bandos sanguinários que se fazem explodir matando crianças esfomeadas, mães sedentas, gente que de sombra sob o sol abrasador de Agosto só conhece a que é projectada por um mantel arrimado a um pau.
E perante o estado do mundo, a esperança é nula. As silhuetas femininas vão mesmo desvanecer-se a pouco e pouco até não restar senão uma ou outra burka fugidia e temerosa em uma qualquer rua; as mulheres vão mesmo ficar sequestradas em casa, quiçá ensinando às ocultas, à geração seguinte o que em vinte anos puderam aprender na escola doravante proibida às raparigas.

Por estas eu matava, sim, premia mil vezes o gatilho! E nem por isso me consideraria igual aos talibãs porque, de facto, não o sou. Não há nem credo nem livro que justifique o ódio que podemos ver nos olhos daqueles monstros de armas sempre aperreadas, determinados a quem quer que seja. Em Cabo Delgado como no Afeganistão, juro que selectivamente chacinaria os inqualificáveis.
Pobres Malalas afegãs… nossas irmãs.

Foto destaque © Afegãos que vivem na Grécia participam num protesto na praça Syntagma em Atenas EPA/YANNIS KOLESIDIS

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