15 de Junho, 2024

“Não à guerra colonial” foi um movimento para além da deserção

HISTÓRIA-H| Guerra colonial | Museu do Aljube Resistência e Liberdade | Reportagem SF | 24 maio 2022

Quatro oradores e uma mediadora de luxo promoveram de forma coletiva o que pode ser considerado um significativo salto em frente no debate sobre a guerra colonial. Pode ter sido por acaso, mas uma coisa é certa, a composição do painel que ontem concretizou mais uma conversa do ciclo que o Museu do Aljube Resistência e Liberdade tem vindo a dinamizar no âmbito da exposição ATO (DES)COLONIAL foi totalmente adequada, porque complementar, para aprofundar o tema central do encontro.

A conversa está boa! Assim foram reagindo os presentes na sala do 4º piso do Museu, que muitos já consideram como o museu de todos nós, à medida que as intervenções se intercalavam e acrescentavam novos elementos ao debate sobre as causas, os acontecimentos, as atitudes e comportamentos, os momentos críticos, as opções individuais e coletivas, os cenários politico-militares, da guerra colonial.

Miguel Cardina abriu uma nova porta para o aprofundamento do tema ao adiantar que a reflexão sobre a guerra colonial passa por enquadrá-lo no debate sobre o próprio colonialismo e necessariamente avançar para processos nos quais a empatia deve ser estabelecida com todos aqueles que foram envolvidos, desde os que nela participaram, aos que se recusaram a ir, às vítimas da violência da guerra, aos que do outro lado assumiram uma luta pela independência. O historiador foi categórico na ideia de alargar o âmbito da análise e de serem considerados todos os cenários de um tema marcado pela complexidade.

António Rosado da Luz, que partilhou vários episódios do seu percurso como estudante e como militar, revelou um sentido estratégico na avaliação daquela guerra em concreto ao reclamar que o debate se situe em primeiro lugar em torno da guerra propriamente dita. O militar de Abril, que aproveitou para informar do papel que teve na denúncia de um golpe dos generais conservadores e fascistas ainda antes da Revolução dos Cravos, recordou que no debate sobre as guerras justas ou injustas tem que se ter em conta o comportamento humano em situação de conflito armado. Rosado Luz relembrou que a atitude face à guerra vai mudando à medida que os militares vão participando nas suas peripécias. Por um lado vão tomando consciência que a guerra é sempre um ato indubitavelmente desumano mas, por outro, ao verificarem que os seus camaradas, os seus próximos vão sendo mortos ou ficando feridos em combate, assumem uma nova atitude que combina sobrevivência com vingança. Ou seja, a guerra tem uma lógica própria e não pode ser debatida recorrendo a argumentários descontextualizados. Nesse sentido a guerra colonial deve ser debatida tendo conta os que desertaram, os que se recusaram a ir, mas também com aqueles que foram e que a viveram.

José Zaluar fez a sala vaguear por Argel, por Paris, pelos cafés de Saint-Germains-des-Prés e da Praça da Sorbonne. Não faltou nem o bacalhau de natal na casa do José Mário Branco nem as aventuras diversas vividas num exílio marcado pela combatividade e pela romantismo da época.

Mas a guerra colonial e a forma como passou a ser combatida no seio do movimento estudantil a partir de 1962 ocuparam uma parte significativa da sua narrativa cuja ideia central foi a ligação entre os opositores à guerra e o apoio aos movimentos de luta pela independência e libertação nacional. De fato o destaque que foi dado aos objetivos mais amplos e mais políticos que orientavam os guerrilheiros daqueles movimentos introduziu uma dimensão reflexiva sobre os cenários complexos da situação e os diversos desafios que tinham por ponta do icebergue, o conflito armado.

Fernando Cardeira insistiu muito sobre o impacto que as deserções tiveram na evolução política e militar da época e reafirmou que todos os protagonistas daquele período histórico foram, de alguma forma, influenciados pelas deserções que foram ocorrendo ao longo dos anos, desde o início da guerra.

Numa análise mais fina dos efeitos registados da deserção do grupo de oficiais na qual participou, Cardeira relembrou que da parte do PAICG, do então Governo de Portugal, das instituições dos diversos países europeus que acolhiam desertores, da comunicação social de grande impacto como a BBC registou-se um abanão. Um impacto forte que não se limitou às entidades e personalidades mas que teve repercussões no seio das próprias forças armadas com forte incidência nos oficiais que permaneceram no país e que enfrentaram posteriormente a dúvida de também desertar.

A deserção como ato político, com impacto político e como contributo no combate à guerra colonial foi bem ilustrada pelo ex-exilado na Suécia que mostrou vários documentos originais aos participantes na sessão.

Rita Rato, diretora do museu e moderadora nesta conversa, encerrou a sessão adiantando que o debate deve prosseguir e que o museu irá acolher mais iniciativas nesse sentido muito brevemente com destaque para a apresentação do libro Exílios Sem Fronteiras-Exílios3 no dia 8 de junho.

Vídeo Sem Fronteiras | Excertos das intervenções

Fotos e vídeo © CR/ CaixaMedia

Editor

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