Não deixar ninguém para trás
Educação de adultos: o principal desafio educativo em Portugal

Luís Rothes*
Os adultos confrontam-se, nos nossos dias, com um ritmo avassalador de mudanças e movem-se num mundo infindável de informações nos diferentes espaços das suas vidas quotidianas. O domínio das competências essenciais é, pois, cada vez mais, uma condição imprescindível de cidadania e de afirmação no mercado de trabalho e na vida social. Não podemos, pois, adiar mais a resposta à seguinte questão: o que poderemos fazer, cidadãos e decisores políticos, para que os adultos disponham das competências essenciais para responder aos desafios que o mundo de hoje nos coloca?
Alguns resultados do PIAAC
Os resultados do Inquérito às Competências dos Adultos, realizado no âmbito do Programa Internacional para a Avaliação das Competências dos Adultos (PIAAC), promovido pela OCDE, são um bom contributo para pensarmos os desafios que enfrentamos. Este programa contempla diversas dimensões, mas foca-se na avaliação da capacidade dos adultos para ler e compreender textos, trabalhar com números e resolver problemas complexos, hoje reconhecidas como competências básicas necessárias para o desenvolvimento de competências mais avançadas.
O PIAAC fornece-nos, com efeito um mundo infindável de resultados. Aqui, sublinharemos apenas os seus dados mais gerais. Em Portugal, os adultos com idades entre os 16 e os 65 anos, para um máximo possível de 500 pontos, conseguiram, em média, 235 pontos na literacia, 238 pontos na numeracia e 233 pontos na resolução adaptativa de problemas. Nos três domínios de competências estudados, os resultados do nosso país ficaram abaixo da média da OCDE.

Na literacia, 42% dos adultos obtiveram pontuação no Nível 1 ou abaixo, quando a média da OCDE foi de 26%. O peso dos adultos com baixa proficiência em numeracia é igualmente elevado: 40% dos adultos obtiveram resultados iguais ou inferiores ao Nível 1 de proficiência, sendo a média da OCDE de 25%. Na resolução adaptativa de problemas, 42% dos adultos a viverem em Portugal alcançaram resultados iguais ou inferiores ao Nível 1 de proficiência, quando a média da OCDE foi de 29%. O peso dos adultos que, em Portugal, apresentam baixas proficiências reflete-se inevitavelmente nos dados relativos aos três domínios em conjunto:
30% dos adultos obtiveram pontuações nos dois níveis mais baixos das escalas de proficiência, quando a média da OCDE foi de 18%.
Não deixar ninguém para trás
Os dados deste 2.º ciclo do PIAAC, conhecidos em 2024, tornam absolutamente claro que a promoção das competências dos adultos é o principal desafio educativo com que se confronta a sociedade portuguesa. Para enfrentarmos este repto, temos, antes de mais, de conhecer melhor a realidade educativa da população adulta residente em Portugal. As bases de dados que a OCDE pôs ao dispor de todos os interessados constituem uma fonte quase inesgotável de informações que aguardam pelo interesse e labor analítico de investigadores, formadores e interventores políticos. A par deste conhecimento da realidade teremos de alargar a consciência social sobre este problema. Os impactos negativos dos baixos níveis de proficiência dos adultos são ainda pouco reconhecidos socialmente e o seu tratamento continua a ser pouco tratado nos meios de comunicação social. Enquanto esta desvalorização persistir, dificilmente avançaremos na consolidação do direito dos adultos à educação.
A inconsistência das políticas públicas de educação de adultos, com momentos de aposta política seguidos de recuos dificilmente entendidos, agrava o problema. A aposta política forte e consistente nesta área é crucial para que, neste campo, se sinta que o Estado, nos seus diferentes patamares, apoia, enquadra e orienta, mobilizando os diferentes atores educativos. Temos, com efeito, de conquistar o envolvimento dos mais diversos tipos de promotores para assegurarmos que, nos diferentes territórios, esteja disponível uma rede ampla de iniciativas educativas, capaz de responder aos anseios educativos de adultos com as mais diversas circunstâncias sociais. Há que pensar estratégias de promoção da participação educativa ao longo da vida, que contribuam para definir como prioridade a redução das desigualdades educativas e sociais. E não podemos esquecer que, estando atentos às necessidades educativas de todos os adultos, o centro das nossas preocupações e o foco das apostas políticas não poderão deixar de ser os adultos com níveis mais baixos de proficiência nos três domínios que o PIAAC analisou.
Não deixar ficar ninguém para trás continua a ser o principal desafio para a educação de adultos.
*Doutor em Ciências da Educação, é Professor Coordenador da Escola Superior de Educação do Politécnico do Porto e membro integrado do inED – Centro de Investigação e Inovação em Educação. É, desde 2019 e em regime de comissão de serviço, Coordenador Nacional do grupo português de projeto do Programme for the International Assessement of Adult Competences (PIAAC). Assumiu o cargo de Pró-Presidente do Politécnico do Porto, entre 2014 e 2018, e o de Presidente do Conselho Técnico-Científico da sua Escola Superior de Educação, entre 2011 e 2017.