15 de Junho, 2024

publicado 5/09/2022 | Colaboração

LIVROS | OPINIÃO

por Nelson Anjos

       A ciência é o conhecimento produzido pela mente humana em interação com a “realidade”, bem como os processos da sua aquisição e verificação, tendo como suporte de validação a experiência.

Será certamente porque a morte, um fenómeno que pela sua natureza não permite a utilização posterior da experiência, muito embora confrontando o homem com ela desde as suas origens, continua a ser espaço mais de dúvida, perplexidade e ignorância do que de saber. E, por consequência, organizando-se o pensamento na base da utilização das palavras, sejam estas escassas relativamente à questão da morte.

       Fui há dias confrontado com ela – a minha morte – ao ser atendido pela minha gestora de conta numa instituição bancária. Havia um novo produto ao qual eu era convidado a aderir: nem mais nem menos que um seguro destinado a cobrir as despesas do meu óbito, até ao montante de 5.000 €. Independentemente de outras considerações que adiante farei, não quero antes deixar de louvar e dar nota da minha surpresa, pela positiva, pela forma desembaraçada e – como direi? – limpa, como a eficiente funcionária deu conta do recado. Desde logo, pela ausência de rodeios supérfluos, na abordagem de um tema que a nossa cultura teima ainda em manter envolto em farrapos e teias de aranha, herdados pelo menos da idade média. As palavras foram apenas as suficientes para me lembrar que, aos setenta e sete anos – a minha idade – eu encontrava-me num momento da agenda da minha existência em que era maior a probabilidade de morrer a qualquer momento, do que viver mais uma ou duas dezenas de anos. Logo, e ao abrigo do velho princípio “não deixes para amanhã o que podes fazer hoje”, seria boa altura, até para salvaguardar a bolsa de familiares, de reservar um pecúlio para prover ao meu ato fúnebre, logo que a lei da vida o impusesse.

       Ora, nada disto casa com o conhecido folclore, prolífero em ruído, que normalmente se associa à morte do indivíduo, no quadro cultural onde nos foi dado viver. Familiares e amigos do defunto estafam-se em fórmulas gastas no uso de milhares de óbitos. “Os meus pêsames”, “os meus sentidos pêsames”, “os meus mais profundos pêsames”, “os meus sentimentos”, “as minhas condolências”, não passam, na generalidade dos casos, de expressões da gramática da hipocrisia social de que se faz acompanhar o evento. A que se juntam infindáveis elegias acerca da personalidade e feitos do “passado” – aquele que se passou – abundando referências ao melhor do seu caráter, bondade, honradez e demais virtudes. E como se a superficialidade das expressões “take away” não bastasse – o silêncio dá trabalho – as carpideiras informais acrescentam-lhe sempre mais algum grotesco condimento: “era tão boa pessoa!”, “a vida é assim mesmo!”, “é a ordem natural das coisas!”.

       O profundo desconhecimento que temos acerca da morte torna a palavra sempre próxima do obsceno. “A palavra é de prata mas o silêncio é de ouro” – ouvi muitas vezes à minha avó. E é também vulgar a expressão “não há palavras!” para sublinhar acontecimentos que, pela sua estranheza ou transcendência nos causam espanto.

       Em “As Palavras e as Coisas” Michel Foucault discute essa relação. Onde a morte é o fim da coisa, natural seria que fosse também o fim da palavra. O morto não fala e, até prova em contrário, não ouve o que dele dizem. Para o nosso conhecimento atual a morte funde-se com o silêncio.

     Na escrita musical existe um sinal gráfico para representar o silêncio: a pausa. Na linguagem escrita não existe sinal correspondente, que seria importante para salvaguardar e valorizar o silêncio. O ponto final (.) não o é. Na morte, a palavra ofende o silêncio do defunto e não passa de ruído. John Cage celebrou o silêncio musical com a sua conhecida peça 4’ e 33”. Trata-se de uma peça constituída por uma pausa com a duração de quatro minutos e trinta e três segundos. Os nossos cemitérios, para além de uma certa semelhança com aterros sanitários, ao contrário do que acontece por exemplo nos países nórdicos, onde se fundem com magníficos jardins integrados no espaço urbano, são também lugares ruidosos. E o “minuto de silêncio” é a exceção que ainda escapa à sociedade do ruído em que vivemos.

       Terá também a morte a mesma natureza histórica que Foucault encontra em tantos outros aspetos da “realidade”? – Por mim prefiro a cremação e cuidarei de deixar na minha conta bancária saldo suficiente para cobrir o défice deixado pelos tais 5.000 € do seguro.

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Nelson Anjos

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