17 de Junho, 2024

Dar voz aos inconformados

O “Saltar Fronteiras” é um livro sobre quatro jovens de Guimarães, com vinte e poucos anos, que fartos de um mundo cinzento e repressivo um dia decidiram pôr-se a trilhar um longo e árduo caminho à procura de liberdade.

por João Machado, autor

Saltar Fronteiras foi durante anos o único horizonte que se abriu à juventude portuguesa para escapar ao fatalismo da guerra. Fuga para o exílio, para o desconhecido. Decisão difícil, arriscada e arrojada. Com este livro procurei dar voz a alguns destes jovens inconformados com o destino que lhes estava destinado.

Na contracapa do livro

“As trombetas ensurdecedoras da guerra ecoavam em casa, na escola ou na igreja. Obedecer, marchar, cumprir o dever! Desde o prelúdio da adolescência que o refrão se repetia e ressoava nos seus tímpanos.

Quatro jovens de Guimarães, amigos e companheiros de juventude, dois dos quais desertores, fogem à tropa e recusam a guerra colonial. Uma só meta os norteia: Paris, a “cidade das luzes” e dos sonhos e das noites cálidas de Verão.

Tem vinte e poucos anos e…”

A recusa da guerra colonial é o grande tema deste livro publicado recentemente. A história inspirada em factos reais, ocorridos entre 1969 e 1975, tem como pano de fundo duas cidades: Guimarães e Paris.

Em Guimarães, o autor revisita a cidade dos seus vinte anos e procura descrever ambientes e meios sociais onde as quatro personagens principais do seu livro estão inseridas e se movem: a “maralha” do café Óscar, ponto de encontro de todos, as vivências da juventude, a ida à inspeção militar, o ambiente pesado com o aproximar da mobilização para África, a recusa de fazer esta guerra e os preparativos secretos da travessia clandestina da fronteira, “o salto”, nos arredores da cidade de Chaves. Descreve também a tomada de consciência de que a travessia da Espanha não era o perigo que pensavam ser e que serviria, uma vez chegados à Gare d’Austerlitz, para convencer outros jovens de Guimarães a recusar a guerra, a fugir e seguir o exemplo deles.

Paris, a cidade das luzes e dos múltiplos sonhos projetados pelos quatro insubmissos, tornou-se nos primeiros tempos num pesadelo nunca antes imaginado. Sentiram o racismo, o desamparo e o desespero. O frio e a neve. A exploração capitalista desenfreada na fábrica, mas também os amores ávidos, leves e joviais, e rapidamente tragados dos anos setenta, anos esses que foram também anos de intensa militância e de luta por um mundo novo e solidário. E depois o peso dos anos no exílio sempre com um olhar sôfrego no hipotético e tão desejado regresso a Portugal.

Foi Guimarães, cidade onde nasceu e cresceu, e em foco no livro desde as primeiras páginas desta narrativa, que o autor elegeu para o seu lançamento, realizado no passado dia 2 de Dezembro de 2022, na ASMAV, Associação Artística Vimaranense.

Onde e como surgiu a ideia de escrever este livro?

Já lá vão alguns anos. Estávamos nos finais de Agosto, e a noite amena convidava para uma conversa relaxada entre amigos à volta da mesa. Depois de se falar das férias que acabavam para uns e começavam para outros, falou-se de livros, de literatura. A recente atribuição do prémio Nobel a José Saramago dava ânimo à conversa e boa disposição. Entre os presentes havia um escritor e crítico literário.

Durante esta agradável cavaqueira a dada altura mostrei-me surpreendido pela pouca produção literária sobre o tema da emigração, ora que éramos um país de emigrantes por excelência. E dizia na altura que havia milhões de portugueses espalhados pelo mundo e que cada um tinha consigo uma mala repleta de histórias feitas de partidas e regressos, de vivências no estrangeiro, de confrontos linguísticos, de sonhos, de casas de sonhos e de saudades do solo pátrio. E eu perguntava porque é que todo este manancial de vidas, este arquivo vivo, não era bagagem para a escrita na nossa literatura? Porque é que o tema da emigração causava tanto incomodo e desagrado?

Aquelas minhas palavras tinham gerado um pequeno silêncio. Alguém timidamente evocou Ferreira de Castro e Olga Gonçalves…

Mas o silêncio, o verdadeiro silêncio foi quebrado bruscamente pelo repto que me foi lançado pelo escritor presente:

– Escrevam-nos vocês! Disse ele perentório.

A frase feriu-me. E o timbre da voz mais ainda. Ao fim de tantos anos aquela frase continua a tilintar na minha cabeça: escrevam-nos vocês! Escrevam-nos vocês!

Este livro, escrito por um dos tais «vocês», o mesmo que um tal «avec», é a minha resposta singela ao despropósito daquele escritor.

Eis em poucas palavras a origem longínqua deste livro. Nasceu de um desafio.

Homenagem

Depois quis prestar uma homenagem aos cerca de 9000 desertores, aos 10 a 20000 refratários e aos cerca de 200 000 jovens que não se apresentaram à inspeção militar.  

Quase 50 anos passados após o 25 de Abril a questão dos desertores e refratários do exército colonial, continua sendo como Miguel Cardina, um estudioso nestes assuntos, escreveu… “uma memória fraca, ainda observada, em múltiplas circunstâncias, como um gesto inadequado, e a sua recordação como uma espécie de desonroso desafio à memória da guerra e dos seus combatentes.”

No entanto eles, os desertores e refratários, cada um à sua maneira, também foram obreiros no eclodir do 25 de Abril de 1974.

Rememorar a vivência da maralha

Nestes números avultados de insubmissos militares, estão incluídas as quatro personagens principais do “Saltar Fronteiras” e que constituem a trama do livro. Felizmente os quatro rebeldes insubmissos não são ficção e fazem ainda hoje parte do comum dos mortais. Foi junto deles que recolhi dados sobre a tropa, a travessia da fronteira e a difícil inserção na sociedade francesa. Foi preciso rememorar a vivência da maralha da minha juventude, descrever alguns deles, observar o Jardim Velho dos namoricos, percorrer ruas e praças, no fundo falar da cidade dos meus vinte anos. Com tudo isso elaborei uma narrativa ficcional alicerçada em factos reais ocorridos entre 1969 e 1975.

O “Saltar Fronteiras” é um livro sobre quatro jovens de Guimarães, com vinte e poucos anos, que fartos de um mundo cinzento e repressivo um dia decidiram pôr-se a trilhar um longo e árduo caminho à procura de liberdade. Eles sabiam, com ou sem precisão de consciência, que as fronteiras são muralhas que enclausuram os povos e atrofiam os pensamentos e que só o sonho e a coragem são mensageiros de mudança.

Guimarães, Dezembro de 2022

João Machado

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