22 de Junho, 2024

AGENDA – Justiça, pão e liberdade

Sessão pública sobre a greve dos tecelões de 1903 no Porto

Há 120 anos a greve dos tecelões abalou o Porto e o país, gerou uma enorme solidariedade da população e também da imprensa. Para evocar esse momento tão significativo da luta dos trabalhadores por melhores salários e condições de vida, vai ter lugar na próxima 6ª feira, dia 30 de junho, pelas 21,30 horas no salão da junta de freguesia de S. Ildefonso/Centro Histórico, na rua de Gonçalo Cristovão nº 187 (próximo do Jornal de Notícias) uma Sessão pública promovida pelo BE-Porto em que participam Domingos Pinto (sindicalista do sector do vestuário), Gaspar Martins Pereira (historiador), Manuela Espírito Santo (escritora) e Isabel Pires (deputada).  

Junho de 1903: a greve dos tecelões que conquistou a cidade do Porto

Começou há 120 anos numa fábrica de tecidos da rua do Bonjardim. Os tecelões sentiam-se prejudicados com os baixos salários e as condições de trabalho. Escolheram uma comissão para falar com o patrão. O industrial despediu a comissão e os operários pararam o trabalho. O protesto propagou-se e ganhou a adesão de mais operários portuenses. Durante quase um mês, muitos milhares de operários fizeram greve, que ao ser proibida e reprimida ganhou uma enorme dimensão política. Foi a maior greve até então no país.

20.000 operários abandonaram as oficinas e vieram à rua clamar pacificamente: “Temos fome, pão para nós e para os nossos filhos”, “Justiça, pão e liberdade”. Apesar das cargas policiais e das prisões, ocorreram “marchas dos famintos” nos primeiros dias de junho de 1903. Multidões partiam da Batalha e juntavam-se na Praça de D. Pedro (hoje Praça da Liberdade), expunham a situação dramática dos grevistas, ocupavam o espaço público, neutralizavam as forças repressivas.

A greve geral alastrou a todas as classes trabalhadoras, chapeleiros, manipuladores do tabaco, metalúrgicos, sapateiros, serralheiros e outras. Ganhou o apoio generalizado da população e da imprensa da época, que até ajudou à recolha de fundos e outros bens destinados aos grevistas. A greve do Porto ganhou uma dimensão nacional e internacional. “Por humanidade, que ninguém deve morrer à fome. Por interesse, que a fome não tem lei, conjuramos a generosa população do Porto a que auxilie os operários em greve”, escrevia o “Jornal de Notícias” de 4 de junho de 1903, anunciando a entrega de 1.000 senhas para refeições na Cozinha Económica à Federação das Associações Operárias. Comerciantes, empregados, associações de classe, operários, industriais de panificação, gente anónima responderam com donativos ao apelo do Jornal de Notícias. A cidade inteira colocou-se ao lado dos famintos.

Em Lisboa e noutros locais do país causou assombro a resistência dos tecelões. E a solidariedade das outras classes despertou verdadeiro entusiasmo, lia-se no “JN” de 19 de junho de 1903. Ao mostrarem a sua miséria pelas ruas da cidade, com a solidariedade doutros operários e da população do Porto, os tecelões conseguiram a satisfação das suas principais reivindicações, aumento dos salários e redução da jornada de trabalho.

A greve dos tecelões do Porto em Junho de 1903 pela coragem e solidariedade que a caracterizou deve constituir motivo de inspiração nos dias de hoje, quando ainda há tanta gente trabalhadora a quem é negada vida digna e salários decentes.

As condições de vida e de trabalho no Porto de há 120 anos

Em 1903 a cidade do Porto tinha quase 170.000 habitantes, num país que tinha então menos de 6 milhões de pessoas. Quarenta anos antes, em 1864, a população do Porto não chegava a 100.000 habitantes. A expansão da indústria têxtil e o aumento da rede de transportes tinham atraído à cidade milhares de pessoas das áreas rurais em busca de trabalho. Não havia casas para os que chegavam. Governo e câmaras municipais alhearam-se da construção de habitações. Através duma subscrição pública lançada pelo jornal O Comércio do Porto em 1899 foram construídos os primeiros bairros sociais no Monte Pedral/Serpa Pinto, 26 casas. Na sessão das Cortes de 7 de março de 1901 tinha sido proposto que um terço dos terrenos pertencentes aos conventos de Lisboa e Porto fosse cedidos para a construção de casas económicas. Mas as entidades públicas continuaram insensíveis. As “ilhas”, filas de casas de um só piso com cerca de 16 m2, sem retrete nem condições de salubridade, construídas no interior de lotes de terreno com 5,5 metros de frente e 100 metros de fundo, foram a resposta habitacional para quase 40.000 pessoas que viviam nas 1.049 ilhas existentes em 1902.

A inexistência de saneamento e de abastecimento de água provocavam epidemias. A insalubridade fez com que em 1899 o Porto fosse a última cidade da Europa a ser atingida pela peste bubónica, que causou 112 mortos, como refere Ricardo Jorge, médico municipal e defensor da saúde pública, que em diversas publicações retratou a vida das classes populares e as suas condições de vida e habitação. Em 1900, outro médico, Álvaro Furtado Antas escreveu que “a tuberculose pulmonar é a maior praga da cidade, 13% dos óbitos”. A taxa de mortalidade infantil era altíssima. Em 1903 foi publicado o Regulamento de Salubridade das Edificações Urbanas e só em 1904 teve início a construção de canalizações de água e esgotos.

O operariado constituía 40% da população ativa. Era no sector têxtil, por ser o de menores salários, que ocorriam mais greves e paralisações. Em 1887 já tinha havido a greve dos operários manipuladores de tabaco. E em 1900 o então governador civil do Porto queixava-se ao chefe do governo que os operários de seis fábricas de curtumes tinham feito greve pela redução das horas de trabalho e por aumento de salários. Em 1903 existiam no Porto cerca de 40 sindicatos, 8 dos quais do sector têxtil. As condições laborais eram desumanas. Salários de miséria, longas jornadas de trabalho. Infantina Rosa, uma trabalhadora da fábrica de Salgueiros que foi presa num dos protestos de junho de 1903, contou ao “Jornal de Notícias” as injustiças que vivia na fábrica onde trabalhava: “14 horas por dia, tendo uma hora para jantar que, às vezes, é roubada”. Naqueles tempos, quem fazia greve corria grandes riscos, perda de salário, despedimento e repressão policial. Na greve de 1903 foram presos mais de 200 operários tecelões. Neste quadro tão difícil para os operários, as reuniões sindicais abertas a não-sócios, a realização de coletas de apoio aos grevistas e a solidariedade da população e da imprensa ajudaram ao êxito da greve de junho de 1903.

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