Pacheco Pereira não sabe fazer uma omelete
Ao pretender combater o discurso de André Ventura, o historiador promoveu o momento de fala do líder do Chega

Por Luís Cristóvão
[Original em SUBSTACK – clicar para aceder]
Talvez Pacheco Pereira nunca tenha estado, por cinco minutos que fosse, numa conversa onde tenha sido visto como um intelectual convencido. Talvez isso tenha acontecido e Pacheco Pereira tenha considerado que o problema, o errado, era o outro. No palco televisivo há décadas, a verdade é que o historiador nunca teve, de facto, que enfrentar alguém que desconsiderasse a sua posição, não por falta de educação ou ignorância, mas de uma forma construída na sua experiência de vida. Não foi isso que aconteceu na noite de ontem, com André Ventura.
Mas Ventura, uma vez mais, colocou-se na posição que lhe serve para surfar a onda e jogou o seu jogo, como faz sempre. As regras dos outros não são para ele. Utilizando o espaço que lhe oferecem para relativizar as informações e o conhecimento, aplanar toda e qualquer troca de argumentos pelo denominador mínimo da razão, jogando com as palavras tentando impor os seus significados ao que é dito por quem com ele se senta à mesa. Num exame escolar, André Ventura chumbaria rapidamente.
Em debate eleitoral, como já vimos antes, é possível puxá-lo junto às cordas para se definir nas propostas (ou falta delas) que tem.
Imaginar que se pode ter uma conversa intelectualmente honesta em formato de debate televisivo com as duas figuras que se sentaram à mesa da CNN, é ter perdido toda a noção do efeito que este tipo de conversa sem fundo ajuda a causar.
Por isso, não interessa tanto o que os “apoiantes” de cada um consideraram no final. O resultado é independente das sensações de vitória, porque apesar de se chamar “debate”, o momento televisivo que é representado aceita-se melhor perante a noção de evento.
O evento de ontem permitiu um sucesso de audiências, a única coisa que realmente interessava ali. E no espetáculo das audiências, o tempo oferecido a André Ventura para relativizar e descontextualizar os crimes do Estado Novo fazia dele um vencedor antecipado. Ao mesmo tempo que, tendo Pacheco Pereira e João Póvoa Marinheiro cumprido com aquilo para que são pagos pela CNN, acabaram por ser corpos presentes no fim do historiador na televisão e em mais uma escorregadela com queda abrupta para o jornalismo.
Não se corta um movimento pela cabeça
O erro de base nesta conversa toda é achar que André Ventura é o elemento que se deve combater. Que ele é causa e não consequência. É um erro que se começou a cometer quando o mesmo se começou a apresentar como representante político, ainda como militante do PSD, e do qual se parece estar a viver um momento de intensa desorientação perante o crescimento da bancada parlamentar do Chega. Mesmo que o seu partido seja uma força de um homem só e um projeto pessoal de poder, não é André Ventura que se combate se quisermos derrubar a ideia de que um movimento que se corporiza em abuso de linguagem, relativização histórica, desigualdade de raça e género, no fundo, um movimento que segue o caderno de encargos do velho fascismo para conquistar o palco pelo mundo inteiro. Não se corta um movimento pela cabeça. Porque, na base, o que Ventura faz, da mesma maneira que Trump nos Estados Unidos, Bolsonaro no Brasil e outros por aí fora, é o de se posicionar ao lado daqueles que alimentam ressentimentos perante a forma como as coisas foram até aqui com vista a poderem ocupar eles esse lugar. O que está no centro do combate é o acesso ao poder, não são as opções ideológicas, nem a maneira como se olha a organização da sociedade.
O mundo em que vivemos é radicalmente diferente daquele que os velhos políticos, como Pacheco Pereira, ainda querem habitar.
Respeitando a sua produção intelectual, considerando durante muitos anos estimulante a sua análise, a forma como se vem posicionando em tempos recentes perde o sentido, porque são cada vez mais, entre os seus textos no Público, os momentos em que se centra na sua falta de paciência e entendimento para com o mundo que o rodeia, em lugar de o tentar captar para o compreender. Por outro lado, a ausência de contra-argumentação capaz, desde que se faz acompanhar por Pedro Duarte e Alexandra Leitão, tornou a sua presença televisiva inócua. Não se pode fazer política desmerecendo os “seguidores” de quem enfrentamos. Não se pode construir um argumento desleixando o que ele vai significar nas redes sociais. Não se pode pensar que podemos corrigir um líder partidário num estúdio onde o jornalismo já não existe, onde a posição de poder foi completamente entregue aos atores que falam ao microfone em doses inacabáveis de diretos. Aquilo que Pacheco Pereira imaginou poder combater não se centra na imagem de André Ventura, mas na forma como se pode potenciar o nosso conteúdo num quadro de hiper-competitividade mediática, sem qualquer controlo editorial. Ao chamá-lo para “debater” consigo, partilhou parte do seu poder e acabou visto como um abdicante.
Se não fizermos uma omelete
A interessante conversa que tive com Miguel Carvalho no passado sábado, em Torres Vedras, num encontro organizado pelo Núcleo local da Associação José Afonso, permitiu acrescentar bastante à leitura do seu livro, “Por Dentro do Chega”, bem como acrescentar mais algumas ideias ao anterior “Quando Portugal Ardeu”.
Escutar Miguel Carvalho é perceber a importância de se criarem relações, de viver as queixas e as observações de quem queremos interpretar para podermos partir para o desenho do mundo em que vivemos.
É esse desenho, no fundo, um mapa, que será importante dominar se quisermos, em algum momento, combater os efeitos políticos que sobre ele são praticados. Em determinado momento, como provocação, perguntei ao Miguel Carvalho se ele considerava que o Pacheco Pereira deveria utilizar o seu livro sobre a rede bombista de extrema-direita para a “batalha de factos” que teria com André Ventura. Mas agora é-me bastante mais claro que o que lhe faltou foi ler, de forma profunda, o livro sobre o Chega. Focando-se essencialmente nas pessoas que fazem o partido, para lá dessa aura que tudo conecta que é o projeto pessoal de Ventura, o livro de Miguel Carvalho oferece-nos um retrato do país. Não se trata já de um país profundo, afastado do centro de decisão, mas exatamente um país onde esse centro é também chão contaminado.
A maneira como pessoas bem diferentes se posicionam perante a falta de acesso a cuidados básicos de saúde, aos problemas de habitação, ao custo de vida, à falta de conexão entre os esforços que fizeram, na escola, nos trabalhos que tiveram, nas suas comunidades, e a forma como se sentem tratados por quem assegura os poderes (desde o governo ao pequeno poder da repartição), criam o caldo perfeito para que o ressentimento seja explorado em força política.
Ao mesmo tempo, o oportunismo do seu líder é também o oportunismo de muitos os que a ele se juntam, criando uma situação de expetativas goradas numa linha de infinito que vão continuar a alimentar a existência de quem se arvorar como arauto da decência, fazendo-o através do grito e do ataque aos poderes instalados. No mundo onde vivemos com um smartphone na mão, quer o sofrimento da população, quer a confusão sobre quem será a solução, se acentuam de forma descontrolada. E volta a fazer sentido citar o poeta surrealista francês, Robert Desnos.
O Pelicano
- O Capitão Jonathan,
- de dezoito anos de idade,
- captura um dia um pelicano
- numa ilha do Extremo-Oriente.
- O pelicano de Jonathan,
- uma manhã, põe um ovo bem branco
- e dele sai um pelicano
- que em tudo lhe é semelhante.
- Este segundo pelicano
- põe, por sua vez, um ovo bem branco
- de onde sai, inevitavelmente
- um outro que lhe repete o feito.
- Isto pode prolongar-se por muito tempo
- se entretanto não fizermos uma omelete.

Robert Desnos, jornalista e poeta. Fundador do Partido Surrealista. O “Sonhador Acordado”.
Foto destaque – imagem Substack de Luís Cristóvão – FALA CRISTÓVÃO.
