Steve
Uma história contada por Peter Turchin que vale a pena ler [1]
BIBLIOTECA DAS IDEIAS – Livros
Ler com Filipe Carmo [Le chaos qui vient]
Agora que adquirimos uma melhor consciência de um contexto comparativo no respeitante à estrutura e à dinâmica dos nossos sistemas sociais, regressemos à nossa investigação sobre os Estados Unidos. Começaremos pelo maior grupo de interesses: a classe trabalhadora. É algo que pode parecer surpreendente num estudo elaborado com base na análise de vastas bases de dados visando o comportamento humano no seu conjunto, mas abrirei este capítulo – e vários dos que se seguem – com uma pequena história, um exemplo arquetípico, por assim dizer. Para além do receio de que seja fácil perder de vista os seres humanos reais quando se modelam forças sociais impessoais, a minha única justificação é que cada facto concreto presente nestas histórias tem abundantes precedentes no mundo real.
Steve, na fábrica
«Vais então votar no Trump em Novembro?», perguntei eu ao Steve no verão de 2016. «Mas ele é um bilionário. O que é que Trump sabe sobre pessoas comuns e em que medida é que se preocupa com elas? E não deixa de ser um palhaço.» O Steve tirou um cigarro de um maço de Marlboros e acendeu-o. «Não é no Trump que eu vou votar. O problema está nas elites liberais que têm andado a arruinar este grande país. A única preocupação daquela mulher é que os banqueiros mantenham a sua riqueza. Diz que os “deploráveis” como eu é que são o problema. Eu e o “privilégio branco”? Que piada de mau gosto. A verdadeira supremacia branca está nos presidentes das empresas da Fortune 500, noventa por cento dos quais são homens brancos. Mas, pelos vistos, os media corporativos não vêem esse elefante na sala. Não, eu não engulo o que os Democratas e os media liberais nos dizem. Pelo menos o Trump diz em voz alta o que todos nós pensamos.”
O Steve cresceu no norte do Estado de Nova Iorque, numa família de classe média-baixa. O pai trabalhava como maquinista numa fábrica que produzia materiais para infraestruturas rodoviárias. Esse emprego proporcionava um rendimento modesto, mas estável, que permitia à família do Steve manter o seu estatuto de classe média. A mãe do Steve não trabalhava, a família era proprietária da sua casa e tinha possibilidades de enviar a irmã mais velha do Steve para uma universidade local.
Steve no exército
O próprio Steve decidiu que não estava interessado em ir para a universidade. As suas notas no secundário também não eram particularmente brilhantes. Além disso, quando a irmã terminou o curso em ciências humanas, o diploma obtido não teve qualquer efeito visível no tipo de emprego que lhe foi oferecido nem no salário que recebeu. Dois anos depois de concluir o curso, ela e o marido mudaram-se para a Carolina do Norte, onde os impostos e o custo de vida eram mais baixos e as perspectivas de emprego do marido eram melhores.
Em vez de ir para a universidade, Steve alistou-se no exército, que o enviou para a Alemanha. Completou, no entanto, apenas uma missão. Nessa altura, os Estados Unidos estavam prestes a envolverem-se numa série de guerras no estrangeiro, em países como o Afeganistão e o Iraque. Steve não via nenhum sentido em arriscar a vida em guerras em que não tinha grande interesse. Num acontecimento triste, o pai morreu subitamente de ataque cardíaco, ainda relativamente novo, e o Steve quis apoiar a mãe nesse período difícil. Quando regressou a casa, percebeu que, ao contrário do que sucedia nos tempos do seu pai, não podia contar com um emprego estável. Durante algum tempo trabalhou na construção civil, mas acabou por adquirir experiência como mecânico de automóveis.
Steve, no desemprego
Embora sem perfil para cargos de chefia, o Steve é um bom trabalhador manual, e a sua competência a reparar automóveis é apreciada pelos patrões. Apesar disso, o nível real do seu salário é muito inferior ao que o pai auferia. Além disso, não tem qualquer segurança no emprego. Há sempre algum problema. A oficina fecha, ou tem de reduzir o pessoal por falta de procura, ou então o patrão exige mais horas de trabalho recusando pagar as horas extraordinárias.
Tudo isso tem como consequência que o Steve não consegue manter um emprego por mais de um ano ou dois e tem de recorrer periodicamente ao subsídio de desemprego. Candidatar-se a esse apoio é um processo humilhante e demorado, e o Steve passa muitas vezes semanas sem qualquer rendimento. Uma das desvantagens de receber o subsídio é a grande pressão para aceitar empregos mal pagos, mesmo quando são inadequados às suas competências. Ele sabe que é um bom trabalhador e, noutros empregos, chegou a ganhar vinte e cinco dólares à hora. Porque razão haveria de aceitar um trabalho pago com o salário mínimo? E, depois de descontar os impostos, iria na verdade receber menos do que o subsídio de desemprego que está a receber. O Steve quer trabalhar, gosta de arranjar automóveis e é bom nisso. Mas sente-se revoltado por ser chamado preguiçoso apenas porque se mostra relutante em aceitar empregos temporários e mal remunerados. Mesmo desconhecendo o termo, ele faz parte do “precariado”.1
Steve, na Veterans Health Administration
É uma ajuda o facto de a mãe do Steve ter arranjado trabalho no Walmart local. Lidar com clientes malcriados é desagradável, e o salário é baixo. Mas há uma compensação pelo facto de a deslocação ser curta. Além disso, o Steve e a mãe sentem-se felizes por serem proprietários da casa em que vivem. Os impostos sobre imóveis na sua cidade são elevados: mais de cinco mil dólares por ano. Ainda assim, viver numa casa própria é melhor do que arrendar um apartamento. Outro factor favorável é que, sendo antigo combatente, Steve tem direito a seguro de saúde gratuito através da Veterans Health Administration.
É conveniente admitir também que Steve se tem revelado incapaz de pôr de lado uma parte do seu rendimento para fazer face a tempos mais difíceis. Mesmo quando as coisas correm melhor, o dinheiro acaba por desaparecer antes do dia em que recebe o próximo salário.
Steve deseja formar família e ter crianças. Contudo, embora tenha já tido várias namoradas, nenhuma dessas relações durou um tempo significativo. Ele não percebe o que está por detrás de tal situação, mas, sendo já cinquentenário, começa a sentir que terá talvez que se resignar a não vir a ter filhos.
[continua]