A faca afiada e o cérebro
Uma metáfora sobre a mudança e as nossas formas de agir
Por Manuela Matos Monteiro

A faca já há muito cortava mal. Estava romba e tinha de fazer força para cortar a casca de uma simples batata ou maçã. Afiei-a com afinco e retomei o descasque da batata. Logo no primeiro segmento, grande corte no polegar direito!
Arreliei-me comigo própria porque achava que já devia saber que esta cena é um clássico. O sangue não parava e eu ia procurando razões para me desculpar de não ter integrado experiências anteriores igualmente sangrentas.
Convoquei os meus conhecimentos e constatei que o estado físico da faca mudou – de romba a afiada – mas a memória motora, a memória do gesto manteve o modelo da faca embotada. A faca mudou mas o modelo de previsão permaneceu.
Este incidente trivial pode ser uma boa metáfora para o que acontece quando não nos damos conta que o mundo mudou, que uma pessoa mudou e nós continuamos a agir como nada tenha mudado. Enganados pela falsa previsibilidade e confiança, saímos feridos.