30 de Abril, 2026
desporto

A essência do modelo desportivo português assenta na autonomia e dinamismo do movimento associativo

por Manuel Brito, in Facebook

Recentemente, tive oportunidade de ler um artigo da Ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, publicado no jornal O Jogo. Embora tenha o mérito de sublinhar o papel das autarquias locais no fomento desportivo, o texto levanta-me algumas reservas — em especial quanto à definição das verdadeiras responsabilidades de cada agente no sistema desportivo.

É inegável que as autarquias desempenham um papel relevante no apoio ao desporto, nomeadamente através da criação e manutenção de infraestruturas, da concessão de apoios financeiros e logísticos, e da colaboração com as associações e clubes locais.

Contudo, a dinamização desportiva propriamente dita — o ensino, a iniciação, a formação e a especialização dos jovens atletas — compete essencialmente aos clubes e às suas estruturas associativas, em articulação com o sistema educativo. Essa é a essência do modelo desportivo português, que assenta na autonomia e dinamismo do movimento associativo.

Nos últimos anos, têm surgido múltiplos exemplos de autarquias que avançam para a criação de programas, projetos e até empresas municipais de desporto. Respeitando as boas intenções que frequentemente os inspiram, considero, no entanto, que estas iniciativas geram sobreposições de competências, dispersão de recursos e confusão institucional entre a Administração Central, o poder local e o associativismo. O resultado é, muitas vezes, um sistema menos eficiente, mais burocrático e politicamente enviesado.

Para ilustrar essa distorção, refira-se um exemplo caricato: numa Junta de Freguesia de Lisboa, o presidente acumula o pelouro das “escolinhas de futebol”, enquanto o tesoureiro detém o do “desporto”. Sintomático de como se banaliza o conceito de política desportiva e de como a ignorância sobre o papel de cada entidade continua a prosperar. Declarações públicas, como as da referida Ministra, acabam por reforçar equívocos em vez de contribuir para uma clarificação estratégica do setor.

Durante o período em que exerci funções como vereador do Desporto na Câmara Municipal de Lisboa, repetia muitas vezes uma frase: a Câmara não faz desporto; quem faz desporto são os clubes. Cabe ao município apoiar, facilitar e criar condições, mas jamais substituir o papel insubstituível das entidades que vivem o desporto todos os dias.

Admito, naturalmente, que em contextos muito específicos as autarquias possam utilizar o desporto — tal como a dança ou a música — como instrumentos de inclusão social, promoção de saúde ou requalificação urbana. Foi com esse espírito que lancei o programa “O Desporto Mexe Comigo”, dirigido a bairros vulneráveis de Lisboa, e que provou como a prática desportiva pode ser uma poderosa ferramenta de coesão e transformação social.

Mas, no essencial, a minha tese mantém-se inalterável: quem faz desporto são os clubes. Sempre foram — e continuam a ser — o coração do desporto português.

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