ALA e o estranho mundo do quotidiano
Não é fácil vermos morrer quem nos deu vidas. Entre elas, a nossa também.

Por Manuel Matos Monteiro
A morte do António Lobo Antunes (ALA) não foi surpresa porque anunciada há muito tempo. Vi-o ir fenecendo porque a velhice é ingrata com a beleza e o ALA era um belo homem iluminado pelo azul fundo dos olhos, os primeiros a traí-lo. Eu tinha sentimentos contraditórios relativamente a ele, tantas vezes amargo, tantas vezes ressabiado com o passado e com os outros. Afetava-me, às vezes, perturbava-me bastante.
Recordo uma conversa intensa sobre ele numa situação muito particular: num beliche de um comboio, a fazer o transiberiano. A Teresa calhou na cama ao lado, tínhamo-nos conhecido 4 estações atrás. Era de Lisboa, jornalista, a viajar com uma amiga que estava no beliche de baixo. Não sei como, chegámos à fala sobre o escritor, uma conversa longa madrugada fora, com o mundo a passar depressa do lado de fora da janela. Ela era uma profunda conhecedora da obra do escritor, uma admiradora que ele teria gostado de conhecer. Não vejo a Teresa desde então, cruzamo-nos nas redes sociais (o lado bom da força!) mas sei que foi essa conversa que nos ligou. Foi essa conversa que tornou o ALA mais próximo e mais inquietante.
Lia as crónicas dele que me deixavam sempre com o sentimento de “eu já vivi isto, eu já senti isto, eu já pressenti isto”. Recortava-as para as reler. Juntei-as. A caixa onde as guardava perdeu-se numa muda de casa. As antologias não são a mesma coisa. O que me atraía na sua escrita era o modo como ele tomava o quotidiano que era, afinal, extraordinário. Reconheci nas suas personagens gente com quem já me tinha cruzado, antecipou-me encontros e situações futuras. Por considerar que o banal é tudo menos banal, que a rotina tem traços de excecionalidade, reconhecia-me no modo como lidava com o comum. Num outro género, também Ana Luísa Amaral (também ela ALA!) se deslumbrava com o dia-a-dia sem história. Nela, a palavra era poema. Nele, era a crónica a contar pedaços da vida vulgar. Da nossa vida.
Escolhi a crónica ”As pessoas crescidas” porque me lembro do modo como olhava os adultos à mesa em conversas cifradas para os miúdos não perceberem (o meu passatempo preferido era adivinhar de quem falavam; depois, o tema desinteressava-me). Reconheço-me, talvez, reconhecemo-nos quando diz: “Nunca percebi quando se deixa de ser pequeno para se passar a ser crescido”, esse salto para o lado mais inquietante da vida, que é o resto ….
Não é fácil crescer, não é fácil ser-se crescido.
Não é fácil vermos morrer quem nos deu vidas. Entre elas, a nossa também.
AS PESSOAS CRESCIDAS
As pessoas crescidas fui-as conhecendo de baixo para cima à medida que a minha idade ia subindo em centímetros, marcados na parede pelo lápis da mãe. Primeiro eram apenas sapatos, por vezes descobertos sob a cama, enormes, sem pé dentro, e logo calçados por mim para caminhar pela casa, erguendo as pernas como um escafandrista, num estrondo imenso de solas. Depois tomei conhecimento dos joelhos cobertos de fazenda ou de meias de vidro, formando ao redor da mesa debaixo da qual eu gatinhava uma paliçada que me impedia de fugir. A seguir vieram as barrigas de onde a voz, a tosse e a autoridade saíam apesar do esforço inútil de suspensórios e de cintos.
Ao chegar à altura da toalha aprendi a distinguir os adultos uns dos outros pelos remédios entre o guardanapo e o copo: as gotas da avó, os xaropes do avô, as várias cores dos comprimidos das tias, as caixinhas de prata das pastilhas dos primos, o vaporizador da asma do padrinho que ele recebia abrindo as mandíbulas numa ansiedade de cherne. Compreendi por essa época que tinham o riso desmontável: tiravam as piadas da boca e lavavam-nas, a seguir ao almoço, com uma escovinha especial. Aconteceu-me encontrá-las sob a forma de gargantilhas de dentes num estojo de gengivas cor-de-rosa escondidas por trás do despertador nas manhãs de domingo, a troçarem dos rostos que sem elas envelheciam mil anos de rugas murchas como flores de herbário devorando os lábios com as suas pregas concêntricas.
Já capaz pelo meu tamanho de lhes olhar a cara, o que mais me surpreendia neles era a sua estranha indiferença perante as duas únicas coisas verdadeiramente importantes do mundo: os bichos da seda e os guarda-chuvas de chocolate. Também não gostavam de coleccionar gafanhotos, de mastigar estearina nem de dar tesouradas no cabelo, mas em contrapartida possuíam a mania incompreensível dos banhos e das pastas dentífricas e quando se referiam diante de mim a uma parente loira, muito simpática, muito pintada, muito bem cheirosa e mais bonita que eles todos, desatavam a falar francês olhando-me de banda com desconfiança e apreensão.
Nunca percebi quando se deixa de ser pequeno para se passar a ser crescido. Provavelmente quando a parente loira passa a ser referida, em português, como a desavergonhada da Luísa. Provavelmente quando substituímos os guarda-chuvas de chocolate por bifes tártaros. Provavelmente quando começamos a gostar de tomar duche. Provavelmente quando cessamos de ter medo do escuro. Provavelmente quando nos tornamos tristes. Mas não tenho a certeza: não sei se sou crescido.
Claro que acabei o liceu, andei na faculdade, tratam-me por senhor doutor e há séculos que ninguém se lembra de me mandar lavar os dentes. Devo ter crescido, julgo eu, porque a parente loira deixou de me sentar ao colo e de me fazer festas no cabelo provocando em mim uma comichão no nariz que me tornava lânguido e que aprendi mais tarde ser o equivalente do que chamam prazer. O prazer deles, claro, muito menor que o de mastigar estearina ou aplicar tesouradas na franja. Ou rasgar papel pela linha picotada. Ou mostrar um sapo à cozinheira e vê-la tombar de costas, de olhos revirados, derrubando as latas que anunciam Feijão, Grão e Arroz e que na realidade contêm massa, açucar e café.
Devo ter crescido. Se calhar cresci. Mas o que de facto me apetece é convidar a parente loira para jantar comigo no Gambrinus. Peço ao criado que nos traga duas doses de guarda-chuvas de chocolate e enquanto chupamos a bengalinha de plástico mostro-lhe a minha colecção de gafanhotos numa caixa de cartão. Posso estar enganado mas pela maneira como me fazia festas no cabelo, com olhos tão jovens como os meus, quase que aposto que ela há-de gostar.
António Lobo Antunes