Contar uma história
N7037
O passeio do KAFKA

Por Manuela Matos Monteiro
Na Oficina de Escrita e Leitura que acontece no MIRA – orientada por Ana Rita Marreiros – os participantes foram desafiados a escolher uma fotografia da exposição da 20ª edição do concurso MIRA Mobile Prize | Street Photography B&W. Eu escolhi a imagem da Lúcia Montenegro Melo porque estava ali uma história e eu gosto de histórias. Aí vai o texto que escrevi.
Em comentários, podem ver o catálogo digital que produzimos com fotografias de autores de diferentes paragens e os textos escritos pelos participantes que param no MIRA para escrever, para ler, para estar 90 minutos num outro mundo. Espreitem e, se quiserem, apareçam na oficina que funciona às quartas de 15 em 15 dias! (a próxima sessão dia 18, 18h00 – 20h00)
O passeio do KAFKA
Saí de casa ao fim da tarde para levar o Kafka à rua. Este bicho não deixa de me surpreender porque parece ter um relógio que lhe dá sinal quando chega a hora de sair. Pus-lhe a trela e travei o quase galope de quem tem urgência de apanhar ar e rua.
A tarde da primavera em modo de chegada, estava morna e morna era a brisa a espalhar poeiras e pólenes. Fechei os olhos à espera da alegria que acompanhava o anúncio de uma estação esperançosa. Mas foi a melancolia sem legenda, anónima e intensa que literalmente me acossou. Este estado, vizinho da tristeza, levar-me-ia para o sofá, mas o relógio do Kafka daria o alarme e a noite seria vazia de sono.
Ouvia, a meia distância, a música no largo onde acontecem as aulas de dança quando está bom tempo. Sem saber como, alterei o percurso habitual e a música soou mais nítida. Kafka agitava-se cada vez mais e percebi porquê: no meio dos pares, estava a Júlia que tantas vezes nos acompanhou nos nossos passeios lentos e preguiçosos do fim do dia. Apertei mais a coleira e o Kafka percebeu que a situação obrigava a quietude. Fiquei a olhar a coreografia do par: dançavam a compasso, o rodar era seguro e leve, entendiam-se no espaço com música nos pés. Fiquei ali, parado a pensar nas danças que tínhamos tentado aprender juntos. Sabíamos a geometria dos passos mas não acertávamos: o swing era demasiado leve para mim, o tango demasiado grave para ela, o bolero demasiado íntimo para ambos. Kafka olhou para mim, olhou para o par e abandonou-se a olhar para fora, para longe daquele cenário que sentiu desamparado. Pus-me a divagar tentando perceber o que falhara entre mim e ela: aprendemos a coreografia, mas não dançávamos a mesma música, cada um ouvia uma música diferente, o ritmo era diverso e descompassado. Naquele momento percebi melhor quando o Rui Veloso canta. Contigo aprendi uma grande lição | Não se ama alguém que não ouve a mesma canção.
Afastei-me antes que ela me visse. O Kafka acompanhou o meu passo mais lento e arrastado. Ia pensando que certas coisas se compreendem tarde, quando a dança já acabou. Cada vez mais longe, ouvia a letra do bolero que contava que depois da separação se mantém o sabor a mim, o sabor a ti.
Publicação digital de textos da Oficina de Escrita e Leitura que acontece no MIRA, às 4ª feira, de 15 em 15 dias (A próxima está marcada para dia 18). Apareçam! Vale bem oferecermo-nos 1h30 em que paramos, ouvimos, escrevemos.
A ESCRITA COMO GESTO – Ver, ler publicação digital.