Mulher na democracia não é biombo de sala
Dia Internacional das Mulheres na AJA Norte
Texto lido por Judite Babo, em representação da AJA Norte, na sessão de comemoração do Dia Internacional da Mulher, sessão que decorreu na Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto.
A sessão contou com a participação Grupo AjaquemDiga (AJA Norte), a Associação Macaréu, o CACD Adriano Correia de Oliveira e Ana Ribeiro.
Falamos das mulheres num sentido universal e num sentido nosso.
Todos os dias, em qualquer canto do globo, há mulheres normais extraordinárias, afirmando-se em pleno na sua identidade, na sua diversidade, na sua ousadia, na sua rebeldia, na sua liberdade!
Nessa afirmação de identidade e de procura de justiça, há mulheres que, corajosamente, reclamam a Terra que as viu nascer e de aí permanecerem, que protegem, se for preciso com a vida, a vida dos seus filhos e filhas, que lutam todos os dias por sustento, por uma casa para viverem, pelo direito à diferença, pelo direito a serem felizes. Há mulheres ainda que dizem Não por outras mulheres.
Assim como são muitas as mulheres que contrariaram, determinadas, desigualdades na profissão, na família, no lazer, na amizade, no amor.
É dessa partilha e solidariedade que enfrentamos o futuro, olhos nos olhos!
Homenageamos, pois, todas as mulheres que no mundo se destacaram pela defesa intransigente da igualdade de direitos e as mulheres que em Portugal o fizeram corajosamente, nas mais diversas áreas.
Hoje, aplaudimos Kate Sheppard, neozelandesa, líder do movimento do final do século XIX pelos direitos das mulheres, movimento que deu origem em 1893 à nova lei eleitoral que reconheceu às mulheres o direito de votarem nas eleições parlamentares.
Hoje, trazemos o rosto de Waris Dirie, natural da Somália, mutilada genitalmente aos 5 anos de idade e actualmente uma das representantes da ONU de denúncia desse flagelo.
Hoje, relembramos Rosa Parks, nascida em Alabama, EUA. Símbolo do movimento dos direitos civis das pessoas de raça negra, tendo-se recusado em 1955 a ceder o seu lugar no autocarro a um branco.
Hoje, caminhamos com Ruba Odeh, representante do Médio Oriente e Norte da África (MENA) no Comitê Internacional da Marcha Mundial das Mulheres, e membro da União dos Comitês de Mulheres Palestinas (UPWC). Hoje, choramos com as mulheres cubanas, sobrevivendo numa guerra silenciosa e cobarde, e relembramos o papel da Federação das Mulheres Cubanas.
Hoje, enaltecemos o Movimento “Mulher, Vida, Liberdade“, no Irão, encabeçado por Narges Mohammadi Prémio Nobel da Paz, movimento que surgiu na sequência do assassinato de Mahsa (Jina) Amini.
Hoje, aplaudimos, a afegã Heela Najibullah, pela sua denúncia e trabalho de investigação e de intervenção na dramática condição de vida das mulheres no seu país.
Hoje, damos conta do papel de resistência de Rana Mohammed Osman e outras mulheres Sudanesas, que se alistaram no exército para melhor defesa e combate às muitas violações de que foram vítimas.
Aqui, hoje, falamos de Mariam Abu Daqqa, fotógrafa palestina assassinada em agosto de 2025 durante o bombardeio israelita ao Hospital Nasser, e de Leila Shahid, falecida no passado mês de fevereiro, aos 76 anos, uma das principais vozes da diplomacia palestina na Europa.
Hoje, agradecemos a Cláudia Sheinbaum, presidente do México, pelo seu humanismo, pela sua solidariedade, pela sua coragem! Hoje, e para sempre, não esqueceremos A Voz de Hind Rajab, criança palestina, de 6 anos pedindo socorro, que não chegou!
Também nesta hora evocamos a memória de algumas das mulheres portuguesas que ao longo da história e na atualidade deram o seu testemunho, a sua solidariedade, o seu empenho e coragem pela dignificação da Mulher.
Ana de Castro Osório, autora do primeiro manifesto feminista português, publicado em 1905.
Carolina Beatriz Ângelo, primeira mulher no nosso País que em 1911 exerceu o direito de voto.
Adelaide Cabete, precursora do apoio às mulheres grávidas e aos cuidados materno-infantis.
Maria Veleda, importante ativista feminista portuguesa.
Maria Lamas, jornalista e ativista portuguesa.
Lurdes Sá Teixeira, a 1ª mulher a pilotar um avião aos 21 anos.
Aurélia de Sousa, falecida em 1922, pintora e fotografa, estudante na Academia de Belas Artes do Porto e na Academie Julian, em Paris, e que contribuiu para uma imagem inovadora da mulher, de emancipação e de conquista.
As 3 Marias, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa, Isabel Barreno,
Sophia de Mello Breyner Andresen,
Natália Correia,
Maria de Lurdes Pintassilgo,
Lieve, como era conhecida, belga de berço, portuguesa de coração, “moradora da Cova da Moura”, falecida há menos de um mês, colaboradora activa na Cooperativa Operária do Serviço Doméstico e co-fundadora, em 1984, da Associação Moinho da Juventude, e que dedicou a sua vida a combater as desigualdades sociais, o racismo e a violência, promovendo a educação através da criação de bibliotecas e o apoio constante a jovens e famílias
E muitas, muitas, outras mulheres!
Para terminar, deixamos o testemunho de José Afonso, que na sua obra, destacou mulheres reais, e outras de cariz simbólico, e dessa forma as imortalizou.
“A mulher da erva“
Há quem viva sem dar por nada
Há quem morra sem tal saber
Velha ardida velha queimada
Vende a fruta se queres comer
A mulher do povo, “Maria“
Maria, nascida no monte
À beira da estrada
Maria, bebida na fonte
Nas ervas criada
As 7 mulheres do Minho, e a luta intemporal de Maria da Fonte!
“armadas de fuso e roca, correram com o regedor”.
Teresa Torga, seu nome artístico, actriz e cantora, que em 1975, no cruzamento da Av. Miguel Bombarda com a Av. 5 de Outubro, em Lisboa, se despiu, ficando nua, sozinha, vítima de depressão, e António Capela a tentar fotografá-la:
“mulher na democracia não é biombo de sala”.
Catarina Efigénia Sabino Eufémia, nascida em 13 de Fevereiro de 1928, em Baleizão, Beja, trabalhadora agrícola, assassinada a 19 de Maio de 1954, no Monte do Olival, pelo Tenente da GNR João Tomaz Carrajola, durante uma greve de assalariadas rurais.
“Quem viu morrer Catarina Não perdoa a quem matou”.
6 de Março de 2026
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