Carta Aberta sobre a Futurália
Contra a normalização do discurso racista e xenófobo
Enquanto académicas e académicos, manifestamos profunda preocupação com as mensagens apresentadas no stand da juventude partidária do partido Chega na Futurália, um evento dedicado à educação e orientação de jovens estudantes. Os materiais aí expostos recorrem a estratégias de desinformação que associam a migração a ameaça e insegurança, alimentando pânicos morais e narrativas securitárias que simplificam problemas sociais complexos que têm, na realidade, origens estruturais muito mais amplas.
A Futurália é uma feira de educação e formação dirigida a milhares de jovens que procuram informação sobre o seu futuro académico e profissional. A presença de um stand partidário que mobiliza narrativas racistas e xenófobas não pode, por isso, ser tratada como uma mera expressão de pluralismo político. A legitimação institucional de tais discursos num evento educativo transmite uma mensagem profundamente preocupante: a de que a estigmatização de pessoas migrantes pode coexistir sem contestação num espaço dedicado ao conhecimento, à aprendizagem e à construção de futuros.
Enquanto académicas e académicos comprometidos com os princípios fundamentais que regem a universidade – o rigor científico, o pensamento crítico, o respeito pela dignidade humana e a promoção de sociedades democráticas inclusivas – consideramos que a presença de discursos racistas e xenófobos num evento desta natureza é incompatível com os valores que devem orientar os espaços educativos. Por esta razão, consideramos que a organização da Futurália deve assumir uma posição clara e inequívoca quanto a esta situação.
Eventos dirigidos à educação e à formação de jovens não podem servir de plataforma para a disseminação de discursos que estigmatizam grupos sociais com base na sua origem ou condição migratória. A educação deve permanecer um espaço de conhecimento, inclusão e respeito pela diversidade e não deve ser instrumentalizada para a normalização do racismo, da xenofobia ou da desumanização de grupos sociais.
Inês Amaral, Professora da Universidade de Coimbra
Pedro Jerónimo, Investigador da Universidade da Beira Inteiror
Rosa Monteiro, Professora da Universidade de Coimbra
Ligía Ferro, Professora da Universidade do Porto
Pedro Abrantes, Professor da Universidade Aberta
Marisa Torres da Silva, Professora da Universidade Nova de Lisboa
Sílvia Portugal, Professora da Universidade de Coimbra
Carla Cerqueira, Professora da Universidade Lusófona
Teresa Carvalho, Professora da Universidade de Aveiro
Manuel Abrantes, Professor do ISCTE
Bruno Carriço Reis, Professor da Universidade Autónoma de Lisboa
Júlia Garraio, Investigadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra
Andréia Barbas, Professora da Universidade de Coimbra
Amit Singh, Investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra
Isabel Macedo, Professora da Universidade do Minho
Filipa Subtil, Professora do Instituto Politécnico de Lisboa
Cristiano Gianolla, Investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra
Maria José Brites, Professora da Universidade Lusófona
Gisela Gonçalves, Professora da Universidade da Beira Interior
Sofia José Santos, Professora da Universidade de Coimbra
Ana Marta M. Flores, Professora da Universidade Nova de Lisboa
Paula Rodrigues, Professora do Instituto Politécnico de Viseu
Lidia Marôpo, Professora do Instituto Politécnico de Setúbal
Giovanni Ramos, Professor do Instituto Politécnico de Coimbra
Cláudia Cavadas, Professora da Universidade de Coimbra
Gil Baptista Ferreira, Professor do Instituto Politécnico de Coimbra
Cristina Gomes da Silva, Professora do Instituto Politécnico de Setúbal
Aldina Sofia Silva, Professora do Instituto Europeu de Estudos Superiores
Ricardo Morais, Professor da Universidade do Porto
Tatiana Moura, Investigadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra