14 de Maio, 2026

Tensão entre a representação e a interpretação

NUNO5

“A Fotografia Fantasma” de Nuno Félix da Costa

Por Manuela Matos Monteiro

Nuno Félix da Costa desenvolve uma prática artística na pintura, no desenho, na fotografia, na poesia, no ensaio. A sua prática manifesta um conhecimento profundo do humano que não ilustra, antes insinua dando lugar a outras leituras, a outras interpretações. Convoca diferentes linguagens para poder exprimir a complexidade da existência humana que elabora na sua produção plástica e na palavra poética.

Na exposição, A Fotografia Fantasma, o artista apresenta obras que tiveram por base a fotografia intencionalmente captada na origem ou intervencionada por manipulação digital na edição das imagens ou pelo acrescentar de camadas de material que traduzem presenças. Estas presenças podem vir da literatura – Goethe, Pessoa, os seus heterónimos ou outras personas que nunca existiram ou estão em estado de ausência. O próprio artista também é frequentemente presença embora o olhar sobre si mesmo não seja o seu objetivo, mas antes o suscitar de uma reflexão.

Nos seus trabalhos, pode-se intuir a tensão entre a fotografia e a pintura, entre a representação e a interpretação. Ao intervir sobre retratos fotográficos, o artista altera, reconstrói, transforma, deforma, cria zonas de opacidade e incerteza. Podemos dizer que refletem emoções, memórias e zonas de fragilidade da vida psíquica suspendendo a evidência do visível. Subjacente está a questão da identidade que emerge instável, mutante, aberta, permeável, em trânsito.

Sendo o MIRA FORUM a componente das MIRA Galerias dedicada à fotografia, assumimos como privilégio a obra plástica do Nuno Félix da Costa porque “no princípio era a fotografia”, porque nos interessa pensar a fotografia em todas as suas manifestações, componentes e derivações. Não podíamos deixar de trazer um autor – que também é fotógrafo – que expande a fotografia para além dela própria assumindo-a na totalidade do arco criativo destas obras.

Curadoria | Manuela Matos Monteiro

NOTA BIOGRÁFICA

Nuno Félix da Costa nasceu em Lisboa em 1950, onde vive e trabalha. Psiquiatra. Foi professor da FML na área das Ciências Mentais.

Expôs pintura, fotografia e pintura sobre fotografia desde 1983. A sua obra explora a relação e a tensão entre a pintura e a fotografia, a representação e a interpretação, frequentemente incorporando manipulações químicas e digitais nas imagens fotográficas e/ou o acréscimo de matéria e pintura.

Publicou seis livros de fotografia: Retratos de hábito (Assírio &Alvim, 1983), Arte última, (Casa Fernando Pessoa, 1998), Portulíndia, (Córtex Frontal, 2009), Salão Lisboa, (Companhia das Ilhas, 2020), O mundo mesmo (2021, Cepe) e Portugal era assim, (Cortex Frontal, 2024).

Publicou, desde 1995, nove livros de poesia, os primeiros três na &etc: Noutro Sítio (1995), Panfletarium (1996), Cinematografias (1998). Depois, Arte última (Casa Fernando Pessoa, 1998), Catálogo de soluções (Córtex Frontal, 2010), Agora nós (Córtex Frontal, 2012), O desfazer das coisas e as coisas já desfeitas (Companhia das Ilhas, 2015), Epopeia mínima (Companhia das Ilhas, 2020), Manual para ser humano, (Cepe, 2021).

Publicou prosa: Pequena voz – anotações sobre poesia (Companhia das Ilhas, 2016), reeditado pela Cepe (Brasil) em 2018, e em Itália, Picola voce, (2023), Estar no sistema (Teodolito, 2019), A clínica e a patologia dos sistemas (Companhia das Ilhas, 2020) e O mim impossibilitado do acontecer (Cepe, 2021).

Exposição de 11 de abril a 6 de junho

de quarta a sábado, das 15h00 às 19h00

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