Le chaos qui vient
Peter Turchin – Prefácio
Ler com Filipe Carmo
Filipe Carmo apresenta-nos neste artigo uma síntese do prefácio do livro cuja leitura nos vem aconselhando. De forma resumida o autor da síntese adianta que no prefácio de Le Chaos qui Vient, Peter Turchin destaca que grandes avanços históricos não se devem a indivíduos geniais, mas a dinâmicas estruturais das sociedades. Através da cliodinâmica, campo que combina história, evolução e matemática, Turchin e colegas analisam padrões de instabilidade, prevendo já em 2010 um pico de crise social, económica e política nos EUA por volta de 2020. O autor identifica como causas fundamentais desses colapsos a sobreprodução de elites, o empobrecimento das massas e a falência da autoridade central, sugerindo que estes fatores estruturais preparam o terreno para o caos, especialmente quando surgem contra-elites em oposição ao poder estabelecido.
Sínteses em progressão [1] – págs. 7 a 11
No PREFÁCIO do livro, começou-se por dar relevo ao pensamento de Turchin quando expressa relutância em atribuir progressos científicos – em particular nas áreas política, social, económica – a génios, homens providenciais. Não se podendo ignorar que os ditos génios usam o seu cérebro exaustivamente para apreender a realidade na sua vasta e durável complexidade, será, por outro lado, necessário, ter consciência de que tal genialidade constitui um simples sintoma de movimentos claramente estruturais da espécie humana e das suas sociedades. Os génios poderão ter tido uma acção decisiva sobre a evolução das coisas, dos acontecimentos, mas não se terá tratado senão deuma gota de água que fez entornar um recipiente.
Turchin e colegas seus que optaram pelas ciências da complexidade criaram recentemente um novo campo de investigações – designado Cliodinâmica– o qual combina a História, as ciências da evolução e as matemáticas aplicadas. E daí passaram à concepção de um modelo que pudesse permitir compreender e fazer previsões relativas à trajectória do sistema indubitavelmente mais complexo que existe: uma sociedade humana.
Com os desenvolvimentos daí derivados, já em 2010, os cálculos efectuados apontavam para que a sociedade americana iria estar sujeita cerca de 2020 a um pico de instabilidade económica, social e política. Ora, em 2010, as pessoas que seguiam e estudavam as realidades deste nosso mundo, acreditavam que se vivia uma idade deouro: não só o progresso tecnológico era evidente como aspectos negativos das realidades políticas e sociais estariam em curso de desaparecer do quotidiano.
Se, em 2020, se vive na América um ano caótico com acontecimentos violentos (por exemplo, os derivados da oposição às vacinas e aos confinamentos) – ocorrências essas que são logo seguidas no início de 2021 pelos confrontos entre antifascistas e extremistas de direita partidários de Trump a invadir o Capitólio – não se poderáignorarquetudo isso teve características algo superficiais. Contudo, se se procurar avaliar os acontecimentos em termos de profundidade, concluiremos que as causas da crise não deixam de se parecer com todas aquelas com que se têm defrontado as sociedades humanas desde que é possível estudá-las. E tal estudo tem sido possível no respeitante ao longo período iniciado há cerca de 10 mil anos e, muito em particular, na segunda metade desse período no qual já existiam Estados (idade na qual se dá relevo particular aos colapsos ou meros abalos estatais).
O que se tem concluído é que todos esses colapsos ou abalos são precedidos de um mesmo cocktail de causas estruturais, as quais vão dos Conflitos entre poderosos oriundos de uma sobreprodução de elites, ao Descontentamento das massas provocado por um empobrecimento das classes popularese à Falência da autoridade central causada pela sua frágil saúde fiscal e por um sistema profundamente injusto de extracção de riqueza. E é em particular com a percepção dessa realidade – que inclui factores que tendem a provocar ocaosnum contexto em que surgem contra-elites que se opõem às elites que controlam o poder político– que Turchin parece ir trabalhar no livro Le Chaos qui Vient.