4 de Junho, 2026

A complexidade dos contextos e dos percursos individuais nos acontecimentos históricos aconselha alguma prudência e ponderação na sua avaliação

A conversa ocorrida no Museu do Aljube Resistência e Liberdade, ontem dia 2 de junho, quase que poderia ser classificada, com algum exagero, de “conversa em família”. O ambiente no pequeno auditório do 4º piso do MARL alimentou-se simultaneamente da abordagem formal da exploração de temas históricos e da informalidade das trocas de impressões e de comentários produzidos a quente por pequenos grupos constituídos por familiares do militar e político Mendes Cabeçadas, a quem a sessão foi dedicada.

Já na fase do debate na qual os presentes puderam emitir opiniões e reflexões sobre as várias abordagens desenvolvidas pelos convidados António Ventura, Fernanda Paraíso e Helena Cabeçadas, o historiador Luis Farinha, intervindo a partir do público, relembrou um objetivo do encontro, “procurar a verdade” sobre o percurso e as ideias de Mendes Cabeçadas, tendo aproveitado para mobilizar diversas referências mais ou menos inéditas que revelavam uma fidelidade plena do oficial da Armada Portuguesa, maçon e político republicano à República.

Algumas situações específicas de acontecimentos históricos recentes acabaram por surpreender os presentes, foi o caso da greve dos ferroviários no apoio aos golpistas do 28 de maio de 2026, foi ainda o surpreendente percurso do general Jaime Batista, referido por António Ventura como o Jaime das Metralhadoras, que esteve num curto ciclo histórico de três anos, do lado da repressão e, no seu oposto, no apoio aos revolucionários anti-regime por razões relacionadas com “o faltar à palavra” por parte de um ministro.

Helena Cabeçadas, com a sua habitual espontaneidade, marcou a sessão com o seu percurso como militante antifascista. Carregou consigo ao longo dos anos o nome de Cabeçadas, o que lhe valeu uma série de atropelos à sua liberdade individual, com um conjunto de dúvidas e incertezas sobre o papel do seu tio-avô. A conversa no museu, a par de outras iniciativas, serviu para uma consolidação num processo de reconciliação com o protagonista das ideias que ela foi ouvindo na pastelaria Mexicana, nos anos sessenta do século passado, quando tinha pouco mais de 12 anos.

“Não lhe dês a bola” terá afirmado, há muitos, muitos anos atrás, a mãe de um rapazote que brincava a jogar “aos pontapés no esférico” com outros e outras num largo de Lisboa. A visada, uma neta de Mendes Cabeçadas, estaria assim a pagar com aquele gesto de ostracização o preço pelo nome que carregava com ela desde sempre: Cabeçadas. Uma marginalização face ao grupo de miúdos que brincavam na rua, no caso praticada por uma família monárquica. Esta pequena história só confirma o largo espectro do “ódio social” que o nome suscitava nos diversos setores políticos e sociais da capital e do país.

Conversa no Museu do Aljube Resistência e Liberdade no passado dia 2 de junho © CVR-Nsf

Sessão | Conversa no MARL

Mendes Cabeçadas – Do 28 de Maio à resistência antifascista

2 de Junho de 2026 – 18h00
Auditório

Conversa sobre José Mendes Cabeçadas Com António Ventura, Fernanda Paraíso e Helena Cabeçadas e exibição do episódio “Antes de Mim” de Fernanda Paraíso sobre Mendes Cabeçadas.

Personagem

José Mendes Cabeçadas, protagonista do 5 de Outubro de 1910 e um dos líderes do 28 de Maio de 1926. Preconizando um projeto conservador de reforma da República, acabará afastado pelas direitas antiliberais e antidemocráticas. Torna-se num opositor da Ditadura Militar e do Estado Novo, participando em revoltas, movimentos como o MUNAF ou MUD ou na candidatura de Humberto Delgado.

Elementos do contexto histórico

28 de maio de 1926, o golpe militar iniciava um longo período de 48 anos de repressão e violência no país.

Pondo fim a uma República em crise, incapaz de se regenerar, acossada pelos ataques do campo da direita autoritária, antiparlamentar e antidemocrática, tinha início a Ditadura Militar (1926-1933) no seio da qual emergiriam Salazar e o Estado Novo (1933-1974).

Entre 1926 e o início da década de 30 dava-se o primeiro assalto das direitas conservadoras, tradicionalistas e fascistas às instituições do Estado Liberal, e o país vive anos sangrentos com centenas de mortos e milhares de presos políticos e de deportados. Numa espécie de “guerra civil larvar e intermitente” sucedem-se golpes e revoltas contra a Ditadura Militar e o advento do fascismo.

Aprimorando o aparato repressivo que vinha de trás e algumas das suas práticas arbitrárias, a Ditadura Militar intensifica a repressão, sobretudo nos anos de 1927 e de 1928, e monta a sua rede de prisões e campos de concentração. 

De facto, é no ano de 1928 que a Cadeia do Aljube passa a prisão política. Destinado a presos políticos e sociais, o Aljube servia, nesta fase inicial, de depósito de presos e de “placa giratória” para os elementos das oposições que seguiam para a deportação e para inóspitos e precários campos de concentração em Angola, Cabo Verde, Guiné ou Timor, onde a Ditadura prende em massa republicanos, reviralhistas, socialistas, anarcossindicalistas e comunistas.

A 48 anos de ditadura corresponderam 48 anos de resistência pela liberdade e democracia. A todas as mulheres e homens que heroicamente lutaram, o Museu do Aljube Resistência e Liberdade presta homenagem.

[texto e foto – Museu do Aljube Resistência e Liberdade | foto Parlamento fechado após Golpe de 28 de Maio de 1926 | Piso 2 Sala 2 da Exposição de longa duração]

Foto de destaque © CVR – Nsf – Luis Farinha no Museu do Aljube Resistência e Liberdade, durante o debate.

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