18 de Junho, 2024

Será preciso fazermos estudos complexos para identificarmos de que lado está a razão?

OPINIÃO | Guerra Rússia – Ucrânia

Por Francisco Melro

  • A Rússia informou ontem que morreram cerca de 500 militares russos na invasão, desculpem, nos exercícios militares, da Ucrânia. Até ontem, eram zero. A experiência diz-nos que deveremos multiplicar esses 500, pelo menos, por 10. A Ucrânia diz que as mortes de soldados russos rondam os 9 mil.
  • A Rússia tinha anunciado que iria iniciar operações militares numa missão de paz na Ucrânia. Extraordinária missão de paz que destrói cidades, lança o pânico nas populações, que ao fim de uma semana já fez sair do país 1 milhão de habitantes e já contabiliza, pelo menos, 500 soldados de paz mortos.
  • A Rússia anunciou que os seus exercícios se destinavam a proteger os habitantes russos da zona Leste da Ucrânia, ora as operações abrangem todo o território ucraniano e as zonas onde os russos mais concentram as suas forças é nas grandes cidades, sobretudo nas duas maiores, e na zona sul, junto ao Mar Negro e ao Mar de Azov.
  • São operações de defesa activa, esclarecem-nos os estrategas militares. Estranhas operações de defesa, desencadeadas por uma potência nuclear contra um país com fraco arsenal bélico que não invadiu, não preparava qualquer invasão, nem declarou qualquer guerra à potência nuclear.
  • A Rússia anunciou que as suas operações visavam proteger os cidadãos russos da Ucrânia que estariam a ser alvo de um genocídio étnico. Passada uma semana de invasão e ocupação, não conseguiram mostrar sinais desse genocídio, nem sequer manifestações de regozijo das populações pela chegada destes salvadores. Mais relevante ainda, os invasores russos, esqueceram-se completamente deste assunto e nem se preocupam em identificar e exibir as respectivas evidências.
  • Também não estão a conseguir comprovar a tese de que os actuais governantes ucranianos são militaristas nazis que roubaram, a golpe, o poder do governo legítimo amigo dos russos. A população ucraniana, depois deter eleito por votação esmagadora o actual presidente, une-se em tornos dos seus governantes e combate com o que pode as forças desnazificantes russas. Consta até que os russos já têm na Bielorrússia a bela prenda do antigo presidente deposto ucraniano , à espera da sua entronização pelas forças de paz russas. Estranhos combatentes desnazificadores, que, durante a invasão, negam a liberdade e reprimem os seus opositores dentro da sua casa e que têm andado a incentivar, a apoiar e a financiar grupos de extrema-direita pela Europa fora. Estranhos anti-militaristas que nos têm habituado às suas intervenções armadas para proteger ditadores amigos e conquistar territórios, neste caso, em nome da defesa das comunidades russas, é claro. Deus nos livre de ser criada uma comunidade russa em Cascais!
  • A Ucrânia está a ser destruída pela missão de paz dos seus salvadores. Estradas, pontes, aeroportos, infra-estruturas de comunicações, de energia e de abastecimento de água e fornecimento de alimentos, populações em fuga e escondidas em subterrâneos para não ser mortas, habitações destruídas, militares e civis mortos, centrais nucleares atacadas. Neste momento, a Rússia perspectiva ataques arrasadores às grandes cidades, que já concretizam nas maiores. São estas as consequências esperadas de uma intervenção de paz?
  •  Antes mesmo do final de uma semana de invasão, a Rússia já estava a ameaçar o Mundo com um conflito nuclear. Pelo caminho, ameaçou a Finlândia, a Noruega e todos os países europeus que fornecessem apoio militar à Ucrânia, passeou aviões de combate pelos céus da Suécia e até um helicóptero militar pelo o Japão.
  • Será preciso fazermos complexos e exigentes estudos de natureza estratégica ou de investigação das raízes históricas do conflito para identificarmos de que lado está a razão?
  • De um lado, está a Ucrânia e o seu povo que quer exercer o direito de definir o seu destino e viver em democracia. Do outro, um império, que os quer reconquistar e submeter, a ferro e fogo. Um centro imperial que, pela sua natureza despótica, odeia a liberdade, a democracia e o direito de cada povo a definir o seu destino, e não lhes permite existência no seu interior e nos seus limites. Era o que faltava o zé povinho ter liberdade para se informar, debater, escrutinar livremente os seus governantes e contestá-los!! Era o que faltava um país querer libertar-se do território czarista e soviético e definir livremente o seu destino, fora do dos horizontes dos muros historicamente adquiridos, pela força e por direito Divino, pelos Czares de todas as rússias e posteriormente consolidados e alargados pelo poder soviético. Onde é que isto já se viu? Onde é que isto iria parar! Putin explicou-nos como isto tinha que ser, na sua recente intervenção pública muito criativa da História e dos direitos do centro de poder russo.
  • Poderíamos esperar outra coisa de um centro de poder político-militar, forjado no KGB, de cuja cabeça transitou directamente?
  • Os senhores do PCP e outros que se dizem de esquerda deveriam corar de vergonha quando invocam o seu passado de luta anti-fascista para legitimarem ou desculparem ou relativizarem ou compreenderem estas cristalinas agressões de tipo imperialista e fascista.
  • Mudem o nome do Partido e deixem de cantar a Internacional. Marx agradeceria. “Olhai a Comuna (de Paris). Era a ditadura do proletariado”. O que é que o antigo Estado Soviético, os seus herdeiros de Putin e o PCP têm a ver com os fundadores da Internacional Comunista, com a Comuna de Paris, com os seus combatentes e com os ideais que os inspiraram e com a sociedade que queriam? Utópicos, sem dúvida, mas gente digna, livre e rebelde, em luta contra os poderosos por uma sociedade justa de paz, “pão e rosas”. Defender o jugo histórico czarista sobre os povos em seu nome?!

Opinião, Francisco Melro | 4 de março 2022

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