22 de Junho, 2024

A farmácia caldense da democracia e liberdade

DOSSIÊ | CALDAS TRL-Território de Resistência e Luta

Rebenta uma revolução. Estamos em 1915. O ditador Pimenta de Castro é deposto. João Chagas à cabeça da Junta Revolucionária entrega o poder a Teófilo Braga. Manuel de Arriaga, então chefe do governo, sai de cena. Uma vintena de marinheiros que se encontravam na Rotunda avança para as Caldas da Rainha. Quem os lidera sabe ao que vem. Custódio Maldonado Freitas devolve a cidade termal ao republicanismo. Os adeptos de Pimenta de Castro nunca lhe irão perdoar e farão tudo para o eliminar.

O farmacêutico caldense, instalado na terra desde 1905, acompanha e participa nas movimentações que levam à implantação da República em 1910. Assume responsabilidades na Câmara Municipal e na direção do Hospital Termal e atua em favor da separação da Igreja e do Estado, de forma clara e radical.

Com a colaboração de António João Freitas

Os petardos e a procissão

Custódio Maldonado Freitas, numa terra conservadora e dominada por defensores do antigo regime, será perseguido e atacado em todas as frentes pelos seus opositores. As acusações que o levaram à prisão, por pretensamente ter atacado uma procissão religiosa com petardos por si artesanalmente fabricados, terão sido a forma encontrada para tentar neutralizar a sua atividade de republicano e democrata convicto. Em contraste com estas intenções, as imputações de culpa farão dele, naquela época, a grande figura da oposição das Caldas da Rainha.

Em prisão, o também maçónico e adepto convicto da Carbonária, escreveu cartas a Salazar a exigir a reabertura do seu processo e a colocar o seu direito a defender-se das acusações que aliás nunca foram provadas, sem sequer inquiridas. O ditador de Santa Comba Dão nunca lhe respondeu. Era demasiado pequeno, na sua cultura provinciana e autocrática, para responder a homem tão grande e com uma visão do mundo marcada pela justiça, pelas relações democráticas e até pela tolerância, não tivesse Custódio Maldonado Freitas sido amigo e trocado correspondência com o Padre Abel Varzim e com o bispo do Porto D.António Ferreira Gomes, também opositores ao regime.

Obviamente demito-o!

A conferência de Imprensa no Café Chave d´Ouro em Lisboa, a 10 de maio de 1958, na qual Humberto Delgado afirmou categoricamente o destino que daria ao ditador Salazar, caso viesse a ganhar as eleições presidenciais, teve impacto na imprensa estrangeira e em todo o país. A população que passou a apoiar a candidatura do “General sem medo” acorria em massa aos diversos locais da sua chegada ou passagem em campanha eleitoral. No Porto, o povo do norte, no dia 14 de maio, fez-se multidão. No dia 16, em Lisboa – Santa Apolónia, repetiu-se a enchente das ruas e praças e a estação de comboios foi pequena para tanta gente.

No carro, ao lado de Humberto Delgado, à sua esquerda, segue Artur. Na verdade não é um Artur qualquer. Trata-se de Artur Maldonado Freitas, filho do republicano injustiçado que viria a falecer alguns anos mais tarde, em 1964. A passagem de testemunho, de pai para filho, de uma forte tradição de luta e resistência contra o regime do Estado Novo, iria ampliar-se noutros membros da família, para além de Artur mandatário nacional da campanha eleitoral de Humberto Delgado, Custódio Maldonado Freitas, também farmacêutico nas Caldas da Rainha e figura central da Oposição democrática na cidade e no país.

Um poema à bout de souffle

Poema de Custódio Maldonado Freitas, 1 de setembro de 1991. Escrito num papel de receita médica do próprio.

Poema. A vida, Custódio Maldonado Freitas, 1991

A Vida

É fruto de actos concretos

Reais

Mas também

De Ilusões e nadas

A ilusão

Essa

Não tem fronteiras

É um vazio

Imaginado

Um todo em dor e alegria

Que vivemos

E não existe

O medo

Às vezes

É um espaço

Que criámos

E em nós habita

Às vezes

É tudo

É infinito

É um mundo

De coisas que sentimos

E criámos

Que em nós

Germina

Na busca

E fuga

Duma vida

Inventada

Em tudo isto

O homem

Está.

Não em grandeza

De sonhos

Que projecta

Sim

Na medida real

Do acto

E transparência

E generosidade

Do seu passo.

Custódio Maldonado Freitas e o 25 de Abril

Intervenção numa sessão sobre o 25 de Abril na Casa da Cultura das Caldas da Rainha

CUSTÓDIO MALDONADO DE FREITAS ( 1917 – 1994)
Biografia da autoria de Helena Pato

Médico e autarca, um nobre exemplo de cidadania. Destacou-se na Resistência, quer pela coragem e audácia com que se empenhava em todos os combates, quer pela generosidade do apoio, com que respondia a quem precisava da sua solidariedade, conterrâneos, companheiros e famílias de presos políticos. Preso, por três vezes, sofreu violenta tortura na polícia política.

Custódio Pereira Maldonado de Freitas nasceu em Vila Nova da Rainha, Caldas da Rainha, a 28 de Março de 1917 e faleceu na mesma cidade a 6 de Outubro de 1994. Era filho de Margarida Pereira de Sousa Freitas e de Custódio Maldonado de Freitas, farmacêutico, que foi deputado do círculo de Alcobaça pelo Partido Democrático (1919) e pelo Partido Reconstituinte (1922). Tinha 4 irmãos, entre os quais António Maldonado Freitas, nascido em 1910, que foi dirigente do Partido Socialista. Casou com Alice de Carvalho, com quem teve dois filhos Pedro (n. 1951), e António (n.1954).
Custódo Maldonado de Freitas frequentou as Faculdades de Medicina do Porto, de Lisboa e de Coimbra, licenciando-se nesta última faculdade, em 1962. Após a Licenciatura em Medicina complementou a sua formação profissional trabalhando durante alguns anos nos Hospitais Civis de Lisboa – Hospital de São José e Hospital de Santa Marta; e no sanatório D. Carlos. Depois, fixou-se nas Caldas da Rainha, abrindo consultório.

Cedo se iniciou na Resistência contra a Ditadura. Quando estudante, foi delegado eleito pelos estudantes da Universidade do Porto, no protesto apresentado ao ministro da Educação Nacional contra o aumento das propinas. Em Lisboa, foi membro da direcção da Associação dos Estudantes da Faculdade de Medicina e participou, em 1947, no protesto estudantil contra o afastamento de vários professores daquela Faculdade, o que o levou a ser preso pela PIDE em 6 de Maio de 1947. Nessa prisão ficou dois meses em Caxias e saiu em liberdade condicional. Na Universidade de Coimbra manteve uma intensa actividade política e associativa, tendo sido eleito Presidente do CITAC (Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra).
Era já médico quando, em 1963, voltou a ser detido e mantido preso, pela PIDE, no Aljube, por um período de mais dois meses.
Em 1966, é novamente preso pela PIDE (pela 3ª vez) e, acusado de “actividades contrárias à segurança do Estado”, é enviado para Caxias, onde fica até ir a julgamento e ser absolvido. Foi então sujeito a tortura do sono nos interrogatórios, o que motivou a intervenção da Ordem dos Médicos (Bastonário Professor Lobato de Guimarães).
Participou na campanha de candidatura à Presidência da República do General Norton de Matos (1949) e, activamente, na organização da campanha eleitoral do General Humberto Delgado (1958).
Participou em todos os congressos da Oposição realizados em Aveiro. Integrou a Comissão Nacional do 3º Congresso da Oposição Democrática, realizado naquela cidade, em 4 Abril 1973, e foi membro da comissão coordenadora da secção de Segurança Social e Saúde.
Integrou a Lista vencedora nas eleições para a Direcção da Ordem dos Médicos em 1972 (impedida de assumir funções). Apoiava a Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos (CNSPP). No Verão de 1972 e de 1973, cedeu propriedades suas, tornando assim possível à CNSPP organizar uma colónia de férias para filhos de presos políticos. Após o encerramento da colónia, Custódio Maldonado foi chamado à PIDE/DGS (1).
Membro fundador do MDP/CDE, em 1969, teve relevante papel naquele Movimento até ao 25 de Abril de 1974. Foi candidato eleito pelas listas da CDU à Assembleia Municipal de Caldas da Rainha nos triénios de 1982-1984 e 1984-1987.

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Em 2010, foi-lhe atribuída, a título póstumo, a Medalha de Mérito Municipal.
O seu nome faz parte da Toponímia de Caldas da Rainha (Freguesias de Caldas da Rainha e Foz do Arelho).
Manteve sempre uma relação próxima com Mário Soares, com quem partilhou a infância e a família (2).

Notas:
(1) Durante duas semanas, de 23 de Julho a 6 de Agosto, numa casa cedida pelo casal Custódio Maldonado e Alice Maldonado de Freitas, reuniram-se algumas crianças e puderam beneficiar de férias na praia da Foz do Arelho e no campo. Logo após o encerramento da colónia, Custódio Maldonado foi chamado à Pide e foi interrogado em Leiria. A PIDE/DGS pretendia obter os nomes dos colaboradores de tal iniciativa. No entanto, a perseguição intimidatória não impediu que a colónia de férias voltasse a ter lugar durante três semanas, em Setembro de 1973, desta vez na Praia do Baleal, Peniche.

( 2) Nos primeiros anos da década de 30 do século XX, o pai de Mário Soares, o Professor João Soares, foi deportado para os Açores pelo regime. Pediu, então, ao amigo Custódio Maldonado Freitas (pai), personagem de vulto na luta revolucionária, que lhe acolhesse o filho e este acedeu, recebendo-o em sua casa, nas Caldas da Rainha. Durante a estada nas Caldas da Rainha, Mário Soares completa a instrução primária e faz o exame da quarta classe. Mas a sua formação vai muito além da escola. (…) O professor João Soares mandava os amigos – Álvaro Lapa, Jacobetty Rosa e outros – para o ensinar… Aparecem, entre muitos outros, Agostinho da Silva, Álvaro Cunhal… Aquele torna-se um sítio em que ele percebe que tem uma segunda família. (…). Até ao final dos anos 60, manteve uma relação contínua com a família Custódio. Mário Soares nunca esqueceria a casa que o acolheu, nem durante a Revolução dos Cravos, nem enquanto primeiro-ministro, nem depois, enquanto Presidente da República. [testemunho de Margarida Maldonado, neta de CMF]
Fontes:

https://ruascomhistoria.wordpress.com/…/maldonado…/
– Candidatos da Oposição à Assembleia Nacional do Estado Novo (1945-1973), Um Dicionário” (Mário Matos e Lemos, Coordenação de Luís Reis Torgal).
– https://gazetadascaldas.pt/…/01/Mario-Soares-1924-2017.pdf
– Manuel Machado Sá Marques, Gazeta das Caldas, 4/10/95
– https://www.revistasauda.pt/noti…/Pages/O-menino-Gigi.aspx
Biografia da autoria de Helena Pato

Ilustrações e fotografias cedidas por António João Freitas

Editor

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