Educação de adultos, sobreviver ou liderar o futuro?
Propõe-se a transformação dos atuais Centros Qualifica em verdadeiros Centros de Aprendizagem ao Longo da Vida

Olivia Santos Silva e Zara Sousa
“Grande Debate NSF: construir as utopias possíveis – Portugal 2026″ – EDUCAÇÃO [1] – Educação de adultos.
A educação de adultos em Portugal continua a viver entre avanços episódicos e fragilidades estruturais. Apesar da sua importância para o desenvolvimento económico, para a coesão social, para a democracia e para a qualificação da população, permanece excessivamente dependente de ciclos políticos e de financiamentos comunitários, produzindo instabilidade, fragmentação e perda de continuidade.
Mais do que um sistema sólido, a educação de adultos tornou-se um campo fluido, atravessado por mudanças permanentes de políticas, metodologias e prioridades. As respostas surgem muitas vezes condicionadas pelos programas de financiamento disponíveis e não pelas reais necessidades das pessoas e dos territórios.
O problema não está apenas nos fundos europeus, mas na dependência quase exclusiva desses mecanismos e na forma padronizada como são aplicados num campo que exige flexibilidade, proximidade e contextualização.
Um campo de afirmação imperativo
A educação de adultos não pode ser reduzida a metas estatísticas, certificações rápidas ou empregabilidade imediata. Tem de voltar a afirmar-se como instrumento de emancipação, cidadania, desenvolvimento humano e participação democrática.
Os adultos aprendem a partir das suas experiências de vida. Por isso, modelos escolarizantes, rígidos e excessivamente burocráticos tendem a falhar. Muitos adultos carregam percursos marcados pelo insucesso escolar, precariedade social e baixa autoestima educativa. Sem mediação próxima, acompanhamento e confiança relacional, a desistência torna-se inevitável.
Hoje, observa-se frequentemente um “quase-mercado” da formação: entidades a competir por candidaturas, ofertas desenhadas para encaixar em regulamentos financeiros e projetos organizados em função de tipologias administrativas. Em muitos casos, procura-se pessoas para cursos, em vez de se construir cursos para pessoas e grupos. É a força dos fundos europeus, contingentes e incertos.
Estabilidade é estruturante
A permanente lógica da candidatura, ciclo a ciclo, impede estabilidade, dissolve equipas, desperdiça experiência acumulada e destrói relações comunitárias construídas ao longo do tempo. A educação de adultos não pode continuar a funcionar “projeto a projeto”.
É necessário recentrar as políticas nos territórios, envolvendo autarquias, empresas, associações, centros de formação e comunidades locais em redes colaborativas e permanentes de aprendizagem. Cada território possui necessidades, recursos e dinâmicas próprias. Não existem soluções uniformes para públicos e realidades diversos.
Importa reforçar a articulação entre RVCC, Cursos EFA, Formações Modulares, conjugadas com iniciativas ou lógicas não formais, construindo percursos integrados e coerentes ao longo da vida. O foco deve deixar de estar apenas na certificação rápida e passar para trajetórias sustentadas de aprendizagem, desenvolvimento pessoal e inclusão social.
Estruturas permanentes
Torna-se essencial apostar em estruturas permanentes, leves mas competentes, de mediação e acompanhamento. Técnicos de orientação e reconhecimento devem assumir um papel central enquanto mediadores de percursos humanos e profissionais, antes, durante e após a formação.
A educação de adultos precisa também de estabilidade política e financeira. Exige financiamento próprio, continuidade institucional e uma visão estratégica nacional que ultrapasse tempos governativos e agendas conjunturais.
Uma nova visão para os Centros Qualifica
Propõe-se, neste contexto, a transformação dos atuais Centros Qualifica em verdadeiros Centros de Aprendizagem ao Longo da Vida: estruturas territoriais permanentes de educação, qualificação, cultura, cidadania e inclusão com a missão de
- ser uma marca da EFA e da ALV nos territórios;
- acompanhar adultos ao longo do tempo;
- articular formação, inclusão digital, cultura e desenvolvimento comunitário;
- validar competências adquiridas na experiência de vida;
- promover percursos flexíveis, híbridos e personalizados;
- apoiar transições profissionais e pessoais;
- funcionar como lugares de projeto, espaços de aprendizagem permanente e não apenas como lugares de certificação.
É igualmente urgente flexibilizar horários, modular ofertas, aproximar a formação dos contextos reais de vida e de trabalho.
Construir relações de confiança
A participação dos adultos depende menos da existência formal da oferta e mais da construção de confiança, proximidade e sentido. A melhor política pública neste campo será sempre aquela que consegue transformar a aprendizagem numa possibilidade concreta de vida melhor.
A educação de adultos não pode continuar a ser tratada como um apêndice residual das políticas públicas. Países que apostaram seriamente na aprendizagem ao longo da vida demonstram impactos claros na economia, na participação cívica e na coesão social. E perceberam algo essencial: investir nos adultos não é corrigir falhas do passado — é aumentar inteligência coletiva, fortalecer comunidades e preparar sociedades mais justas e resilientes.
Portugal não pode continuar a tratar esta área como periférica. Investir na educação de adultos não é reparar o passado. É construir futuro.
Editado NSF – subtítulos . Título de origem ” A educação de adultos em Portugal: sobreviver ou liderar o futuro?” Foto de destaque – © CVR -NSF .