22 de Junho, 2024

“Nós viemos” ou a memória da imigração

AGENDA | 20 de abril no Museu da Imigração em Paris

por Artur Monteiro


Como olhar para as imagens dos refugiados de hoje quando se viveu, há mais de cinquenta anos, a mesma “aventura”, a mesma violência, a mesma errância?

O que guardamos na nossa memória, que memória, que despertar? Esta é a “lição de vida” que José Vieira partilha connosco no seu filme Nós viemos, apresentado terça-feira no Forum des Images nas suas terças de 100% doc.

“2015: Os comboios são invadidos por refugiados. Eu integro essas imagens de pessoas em fuga na minha história: eu tinha sete anos quando cruzei a fronteira em 23 de janeiro de 1965 em Hendaye. Na minha memória, nenhum vestígio da minha chegada à França. Como contar um acontecimento do qual não temos memória, senão procurando a nossa história na dos outros?

Imagens que são alertas

É assim que José Vieira nos apresenta a sua abordagem como cineasta e cidadão observador do mundo, das convulsões humanas e o seu empenho porque as suas imagens são alertas sobre o que se passa à nossa volta.

É como uma carta filmada para a filha, com um texto lindo e poético sobre a memória da imigração. E ele pergunta ”para que serve a nossa memória da imigração?” Não para reclamar, é inútil, mas sim para nos dizer ”não olhe para o que somos, mas para o que nos tornaremos, o que queremos vir a ser”.

E é todo o interesse deste documentário nos convidar, nos permitir acompanhar nestas imagens de hoje e noutras de ontem, como esta história se faz presente e nos persegue com a mesma força e nitidez da história que nos precedeu. É um documento de transmissão do que dá continuidade às nossas vidas mesmo que seja a história de uma ruptura!

Hendaye

O seu filme fala-nos de ontem, dos milhares de portugueses que atravessaram ilegalmente a fronteira, sobretudo em Hendaye, nos anos 1960 e início dos anos 1970, e fala-nos também dos refugiados de África de hoje, que têm as mesmas palavras, os mesmos olhares, as mesmas expectativas.

Somos levados pelas imagens do comboio, que José Vieira conhece e gosta de filmar, das estações e a de Hendaye, local de chegada e trânsito, que deixou uma marca duradoura em gerações de imigrantes ilegais. Migrantes da década de 1930, refugiados espanhóis fugindo de Franco, portugueses, migrantes econômicos e políticos fugindo de Salazar e recusando-se a participar da guerra colonial…

As notícias sobre refugiados deste mês de março de 2022 relançam o tema, noutras estações, e o assunto sempre presente, neste “horizonte de vida e destino” humano.

Descriminação dos refugiados

Presente durante a apresentação do seu filme, José Vieira especifica ainda que se a imagem da imigração está tão presente para ele, é “também pelo que se passa hoje em França” da forma como os refugiados são tratados, discriminados. E ele está certo, entre os jovens migrantes-refugiados em La Chapelle ou Calais, fugindo de guerras, e o afluxo maciço de refugiados ucranianos fugindo de outra guerra, há tantas diferenças e tantas semelhanças.

“Nós viemos”, outros irão chegar, saberemos estar presentes para acolher esses Outros que não somos nós…?

E já que José Vieira nos mostrou Hendaye, abaixo está uma imagem de uma manifestação em dezembro de 2019.

Em Hendaye, 150 pessoas manifestaram-se para exigir a abertura de uma comissão parlamentar de inquérito sobre as “violações dos direitos” dos migrantes. “Queremos sair do diálogo estéril, a dois, entre as associações e o Ministério do Interior”, explicou Véronique Fayet, da Secours Catholique. La Cimade denuncia as condições de detenção no centro de Hendaye. • obrigado pela foto © GAIZKA IROZ / AFP.

  • No primeiro comentário, a filmografia de José Vieira e trecho de um breve texto que escreveu sobre o fotógrafo Gérald Bloncourt:
  • * * * No segundo comentário, referência ao filme de Robert Bozzi, “Les Gens des Baraques”, também apresentado esta terça-feira no Forum des Images como primeira parte do 100% doc.

Crónica inicialmente publicada no Clube de Mediapart | Arthur Porto, 3 de abril de 2022. Colaboração do autor com o Sem Fronteiras.

Hugo dos Santos

Memórias portuguesas | Museu Nacional da História da Imigração
20 de abril

No âmbito do Résidence Frontières 2021, em parceria com o GREC
Sobre este evento
Hugo Dos Santos, laureado da Résidence Frontières 2021 pelo seu projeto Transit e José Vieira, realizador de cerca de trinta documentários entre os quais A foto rasgada, crónica da emigração clandestina (2001), regressam à história da imigração portuguesa em França.

Nós viemos, um filme de José Vieira

França, 2021, documentário, 1h16 min

Foto © publicada pelo Musée Nacional de l´Histoire de l´Immigration

Editor

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