15 de Junho, 2024

OPINIÃO | 30 de maio 2022

por Nelson Anjos

              Quando interpelado acerca do que era o tempo, Santo Agostinho respondeu que sabia o que era, mas não o sabia explicar por palavras. Depois de ter lido Como Travar o Fascismo, de Paul Mason, as tentativas do autor para explicar o que era o fascismo, e o recurso a diversas definições de outros tantos autores, trouxe-me à memória a perplexidade do Bispo de Hipona face a algo também esquivo à lógica da palavra.

       Os tempos que correm, com a ascensão das novas (?) direitas e o simultâneo declínio das democracias liberais, a darem mostras de incapacidade para ultrapassar o estado em que há décadas cristalizaram, com o caráter definitivo do “fim da história”, trazem actualidade e caráter de urgência ao tema estudado por Mason, independentemente das concordâncias e discordâncias que as ideias expostas pelo autor suscitem.

       Desde logo e antes de mais são imperiosas duas perguntas e respetivas respostas. A primeira, conhecer o que se pretende travar: o que é o fascismo? A segunda, saber se aquilo que se pretende travar de facto existe: o fascismo existe?

       Entre as muitas definições de fascismo e ideias de fascismo, que se sucedem ao longo do livro, assim como autores convocados – Gramsci, Foucault, Arendt, entre outros, – escolhi, para esta primeira abordagem à obra, a que outras se seguirão, as seguintes:

       “Em 1940, Globocnik deu ordens para que “um grande número de judeus” fosse espancado até à morte num largo do mercado de Tarnow, no Sul da Polónia. Concluído o massacre, fez marchar os sobreviventes até um cemitério, onde seriam fuzilados para recreação dos nazis civis de Berlim que estavam de visita. O seu motorista recordou: “Os visitantes empalideceram; dois tinham sido acometidos de náuseas no largo e quase não conseguiram caminhar.” Eis o que acontece quando não se foi suficientemente desumanizado.” (p. 354)

       A demonstração de Odilo Globocnik, comandante regional da SS, que viria a suicidar-se em 1945 ao engolir uma cápsula de cianeto, quando detido pelas forças inglesas, não é uma definição de fascismo. Mas é isso: uma demonstração de fascismo. E, no âmbito do pensamento de Mason, talvez não seja possível mais. É que

“(…) o fascismo não foi somente um programa de governo; foi um projeto colaborativo em que participaram milhões de pessoas para subjugar os seus semelhantes humanos e lhes negar o seu próprio potencial para serem livres. Foi, como escreveu o marxista francês negro Aimé Césaire, “colonialismo aplicado à Europa”. (p. 353)

       E, pergunto eu, quantos cidadãos impolutos, pais extremosos e autarcas imbuídos dos mais nobres princípios socialistas, não haveria nesses milhões? – Afinal, “Mussolini tinha sido uma figura destacada na ala revolucionária do Partido Socialista Italiano (PSI) e editor do seu maior jornal.” (p. 145)

       Façam favor de ler, e refletir, Como Travar o Fascismo. Até já.

NELSON ANJOS

Editor

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