22 de Junho, 2024

MUNDO | DOSSIÊ Albânia Hoje – 3 de julho 2022 | REPORTAGEM SF ©carlosribeiro

Quando pousámos os pés no aeroporto de Tirana, no passado dia 20 de junho ao fim da tarde, não deixámos de sentir as sensações paradoxais do prazer e da incerteza. Não sabíamos o que nos esperava. Uma coisa era certa, o novo aeroporto da capital albanesa nada tinha a ver com a pobre infraestrutura aeroportuária que reivindicava esse estatuto há 50 anos atrás. A Albânia mudou e luta desesperadamente para mudar ainda mais. Ser membro da União Europeia tornou-se uma causa nacional.

A viatura que nos conduziu ao centro da cidade, um confortável taxi amarelo de marca alemã, constituiu aos nossos olhos, desde logo, um primeiro sinal das mudanças profundas que iríamos observar no centro cosmopolita de Tirana. O velho Fiat 125 dos anos 70, como referência do carro de luxo, estava bem ultrapassada.

A nossa missão, do Joaquim Nunes, diretor da AEP61-74-Associação de Exilados Políticos Portugueses, e minha, como coordenador do projeto europeu PEOPLE, iria levar-nos a Escodra (Shkoder), no norte do país, junto à fronteira com Montenegro. Mas antes de nos lançarmos à estrada, numa viagem através do país das águias, descemos ao coração da nova Tirana.

O multibanco

No hotel foi-nos negado o pagamento com cartão bancário e a procura de um multibanco tornou-se a nossa primeira meta na área central da cidade. Quando saímos da rua estreita e cruzámos a primeira avenida uma estrutura urbana, com edificações modernas, com cafés, restaurantes, esplanadas, centros comerciais e com todos as restantes componentes da urbe cosmopolita, invadiu o nosso olhar de forma surpreendente. A nova Tirana estava aí.

No centro comercial, com os seus néons e luzes intermináveis, pedimos apoio a um profissional da restauração e bebidas para localizar o equipamento para operações bancárias rápidas e autogeridas. Este incontornável símbolo do sistema bancário sem rosto humano, que oferece um serviço de elevada qualidade mas que representa ao mesmo tempo o capital financeiro que decide em muitas circunstâncias o rumo das nossas vidas, estava ali, com indicações em todas as línguas e com a possibilidade de serem retirados leques e euros. Joaquim sorriu. Sem dizer palavras pensámos “nunca poderíamos ter imaginado!”. Eh oui.

Praça Skanderberg

Quando demos os primeiros passos nas lajes da imponente praça não nos apercebemos de imediato que pequenos fluxos de águas rebeldes corriam aqui e acolá e tornavam involuntariamente, em zonas laterais, a praça seca no seu inverso. O nosso ponto de mira era a estátua de Skanderberg e a nossa varredura visual alinhava-se pelos edifícios pós-modernos, construídos ou em construção, que rivalizavam com as áreas mais audazes das Torres de Lisboa ou das Amoreiras.

Skanderberg, impassível no alto do seu enorme pedestral, mantinha a sua postura guerreira de chefe militar e de unificador de todas as Albânias. O único herói consensual dos albaneses, os anti turco-otomanos, os anti-nazis, os anti-gregos, os anti-capitalistas, os anti-pta/enver hoxja, todos se revêem nesta figura lendária que domina a praça e que polariza o orgulho deste povo das montanhas que habita principalmente a faixa litoral do país.

Kadaré

Ainda na praça fomos puxados pelo íman dos livros e entrámos na livraria Adrion. Aqui manda Ismail Kadaré. A sua presença é dominante e a aposta da sua editora de tornar o escritor albanês que se exilou em França em 1990 no principal e quase único autor albanês global surge como evidente, pelo menos em termos comerciais. A par de Kadaré notam-se novas publicações no romance e na análise histórico-política, mas ainda com presenças muito tímidas nos escaparates.

Um contacto mais prolongado com as profissionais da loja no momento da embalagem das chávenas de café vermelhas com a águia preta com duas cabeças revelou-nos o que se seguiria em termos de simpatia e de bom acolhimento por parte dos albaneses e das albanesas com os quais nos iríamos cruzar nos dias seguintes.

Por mais que nos custasse, e porque o tempo não estica, Tirana ficava para trás. Escodra já estava à nossa espera.

Fotos © CR/Caixamedia

Carlos Ribeiro

Editor

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