22 de Junho, 2024

A integração pelo torresmo

LIVROS & MÚSICA | Crítica literária | 12 de julho 2022

José Pires Brazão escreve sobre o mais recente livro de Acácio Gomes Contadores de histórias e saudades que foi recentemente apresentado ao público através de sessões de divulgação e de presenças do autor em diversos órgãos de comunicação social.

O tema dos contadores de histórias surge com particular relevância nas iniciativas de estudo e disseminação de memórias sociais nomeadamente as que remetem para os exílio político e as ações de oposição ao regime salazarista e à guerra colonial. José Pires Brazão é ele próprio co-autor do livro Exílios Sem Fronteiras no qual participa com as suas memórias de opositor ao regime e de exilado.

No IIº Encontro de Autores e Narradores realizado no Museu do Aljube Resistência e Liberdade, no passado dia 8 de junho, foram abordados novos formatos e outros textos narrativos para desenvolver os temas do exílio e da guerra colonial. Acácio Gomes abre aqui uma porta de inspiração que José Pires Brazão, muito justamente, valoriza. CR| SF

Apresentação do livro “Contadores de histórias e saudades”

Pelo embaixador José Pires Brazão

“Contadores de histórias e saudades”, do meu amigo Acácio Gomes, escrito nas tradições modernas da Antropologia Urbana.

O meu grande professor de Sociologia, Norbert Elias, que iniciou este processo com o livro “Estabelecidos e Marginados”, que foi publicado pela primeira vez em 1965, e nas suas origens é um estudo de uma comunidade no centro da Inglaterra na década de 1950 e início de 1950 por John Scotson, um professor local com interesse na delinquência juvenil.

Mas nas mãos de Norbert Elias, um dos principais sociólogos do século 20, este estudo local foi retrabalhado para iluminar os processos sociais de significado, analisando os efeitos da marginalização e as experiências das pessoas dentro e fora dos limites da sociedade tradicional. Examina como um grupo de pessoas pode monopolizar as possibilidades de poder e usá-las para excluir e estigmatizar os membros de outro grupo muito semelhante (pelos meios efetivos da fofoca, por exemplo) e como isso é vivenciado pelas imagens coletivas de ambos os grupos.

O Dr. Bernardino

Penso que o Acácio foi mais longe do que este famoso estudo sociológico, característico dos problemas de integração na Inglaterra de gente de fora dentro da comunidade local. O Acácio transcende esta dicotomia entre portugueses e estrangeiros, e integra os diversos grupos de diferentes nacionalidades num processo social, vivo e cheio de humor, através das histórias e saudades dos contadores de histórias dentro de um processo harmonioso. Ele monta o seu livro à volta de uma personagem, o doutor Bernardino Araújo, que se integra com portugueses oriundos de diferentes partes do país, brasileiros, angolanos, cabo-verdianos, senegaleses, guineenses, venezuelanos, ucranianos, moldavos e búlgaros.

O humor

O Acácio descreve todo o network de relações com piadas e anedotas e, por exemplo, é interessante ver como os torresmos do Pêu podem ter um papel tão importante na elaboração dos diálogos. As histórias não são somente muito bem elaboradas, mas descritas com muito humor que, por exemplo, não se encontram no Livro do Norbert Elias, que ainda representa a maneira de descrever as diferentes posições dos grupos étnicos muitas vezes descritas num típico conceito de confrontação como o era descrito nos anos 50 na Inglaterra.

O Bar da Esquina

O livro faz referências ao futebol, às mulheres que visitam o Bar da Esquina em frente à Estação de São Joao do Estoril, que tive o prazer de visitar. A elaboração do processo com referências à vaporosa Amélia Rodrigues, a história do Indio  Kashinawá, as histórias do Paulo Falcão e do PREC, e do Verão Quente que tive a oportunidade de estar presente numa das minhas visitas à terra onde nasci, para preparar a tese de mestrado de sociologia. O Verão Quente marcou os processos políticos não só no Bombarral, Lourinhã, Rio Maior, mas em todo o país! O livro está cheio de referências aos processos políticos com uma clara relevância jornalística, sem tentar falsificar ou alterar os processos políticos debaixo de algum desejo de rever o que se passou. Até as referências ao Covid seguem o mesmo desejo de mostrar como foi a realidade e como ela foi sentida por um microcosmo de pessoas que rodeiam à volta do Bar da Esquina.

Churrasco e srdinhada

A tarde do churrasco, a sardinhada, as referências antropológicas vistas dentro do processo das relações entre nacionais dos diversos países africanos de expressão portuguesa ou francesa, foram extremamente reportadas com uma grande preocupação de relatar como essas relações entre pessoas são integradas dentro das perspectivas individuais e de grupos nacionais.

O capítulo sobre a Amélia e a Márcia, e a referência aos tempos do salazarismo dentro da perspectiva das limitações de banhistas nas praias durante o Covid é pura poesia!  A visita a Tróia, do Bernardino e de Amélia e Márcia e como a visita é descrita, é para mim uma das melhores partes de um livro que faz referência a tantos processos sociais, sobretudo nas relações sexuais e sentimentais de 3 pessoas envolvidas num processo de amizade e amor.

Cerveja, whiskies e torresmos

Um excelente livro para ler, e que nos dá as perspectivas para ver como grupos sociais de diferentes nacionalidades se podem integrar dentro de um processo de amizade, à volta de umas cervejas, de uns whiskies e dos famosos torresmos.

José Pires Brazão

Editor

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