15 de Junho, 2024

OPINIÃO – A geopolítica no nosso século XXI: o recente conflito NATO-Rússia

Parte II

por Filipe do Carmo

Numa crónica recente, publicada no Le Monde1, o autor começava por afirmar que uma coisa era certa: a Rússia não havia sofrido, algumas horas após a invasão da Ucrânia, o colapso que havia sido previsto pelo ministro francês da economia. E isso após a imposição das sanções ocidentais que foram sendo aplicadas em nove vagas sucessivas a partir de Março de 2022. Bezat prosseguia, referindo a surpresa que o World Economic Outlook Update do FMI de Janeiro do presente ano havia causado ao produzir um diagnóstico da guerra tão decepcionante para os Ocidentais como encorajador para Putin. Entre os factores que possam explicar a solidez do sistema russo figurariam os de natureza financeira (a estabilização do rublo e as reservas monetárias originadas pelas vendas de petróleo), económica (desenvolvimento de produções, nomeadamente nos domínios do têxtil e do agroalimentar, a seguir à anexação da Crimeia; uma colheita de trigo excepcional no decurso do ano de 2022; o aumento significativo das receitas relativas às vendas de gás e de petróleo) e política (a abertura de vias de entrada para produtos importados através de antigas repúblicas soviéticas, da Turquia e da Índia, assim como a disponibilidade da China para fornecimentos de produtos utilizados pela indústria da defesa). Evoluções contudo que, não obstante terem contribuído para a manutenção da capacidade militar do país, não terão impedido, por um lado, dificuldades em certos sectores da economia (por exemplo, o automóvel e o aeronáutico) e, por outro, em termos mais abrangentes, fortes penúrias de mão-de-obra derivadas do recrutamento militar ou da fuga ao alistamento.

Este comportamento da economia russa poderá causar espanto quando, como é referido por Emmanuel Todd2, se sabe que o PIB da Rússia, adicionado do da Bielorrússia, representa apenas 3,3% do PIB ocidental (incluindo Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Europa, Japão e Coreia do Sul). Todd começa por se interrogar como é que, com o seu PIB diminuto, a Rússia consegue suportar a guerra em curso, continuando a produzir mísseis. O que o leva a afirmar que o PIB é uma medida fictícia da produção, pois se se retira do PIB americano parcelas que ele inclui (“la moitié de ses dépenses de santé surfacturées, puis la «richesse produite» par l’activité de ses avocats, par les prisons les mieux remplies du monde, puis par toute une économie de services mal définis incluant la «production» de ses 15 à 20 000 économistes au salaire moyen de 120.000 dollars”) e o autor deprecia como sendo “vapor de água”, poder-se-á compreender que uma parte importante desse PIB não revela capacidade de produção para a guerra. E Todd acrescenta:

  • Após as primeiras sanções importantes aplicadas à Rússia (em 2014), a sua produção de trigo, então de 40 milhões de toneladas, passa para 90 milhões em 2020; enquanto a equivalente produção americana, tendo atingido 80 milhões em 1980, desce para 40 milhões em 2020.
  • Por outro lado, os Americanos afirmavam em 2007 que o seu adversário estratégico estava num tal estado de deliquescência nuclear que em breve os Estados Unidos teriam uma enorme capacidade ofensiva à qual a Rússia não poderia responder; mas, hoje em dia, esta última não só é o primeiro exportador de centrais nucleares como tem superioridade nuclear com os seus mísseis hipersónicos.

Debruçando-se sobre as aptidões das populações activas dos dois adversários estratégicos, Todd dá relevo aos números de universitários que frequentam cursos de engenharia (tida como uma especialidade que capacita mais para a produção industrial). E conclui que, não obstante uma frequência universitária global que é 2,2 vezes superior nos EUA à da Rússia (reflectindo um total populacional superior em mais de duas vezes), este último país dá formação a mais 30% de engenheiros que a América. Situação que parece tender a ser compensada pela afluência de estudantes estrangeiros aos EUA – sobretudo Indianos e Chineses, estes últimos em maior número – sendo contudo tal recurso de substituição pouco seguro e já em diminuição. O autor considera que tal situação se torna um dilema para a economia americana, na medida em que ela não pode fazer face à concorrência chinesa sem importar mão-de-obra chinesa qualificada. E observa que, face à progressiva aceitação pela economia russa das regras de funcionamento do mercado (com Putin a revelar uma real obsessão pela sua preservação), mantendo no entanto um grande papel do Estado, essa economia vai buscar a sua flexibilidade a uma disponibilidade de engenheiros que permite adaptações nos domínios industrial e militar.

A evolução da economia russa tal como Todd a transmite tende a contrariar avaliações que têm curso nos meios de comunicação social ocidentais no sentido de ver o ponto mais forte de tal economia na disponibilidade e venda de matérias primas. Todd reforça a sua avaliação dando relevo à incerteza que marca a guerra em curso e considerando que a sua evolução dependerá (como em todas as guerras modernas) do equilíbrio entre tecnologias avançadas e produção em massa. Ora o domínio que os EUA têm de certas tecnologias militares mais avançadas tem contribuído e sido decisivo para os sucessos militares ucranianos que têm ocorrido. Contudo, numa guerra de atrito, que tende a ser duradoura3, não só também os recursos humanos são importantes como, no que concerne os recursos materiais, a capacidade para se manter na luta depende da indústria de produção de armas menos sofisticadas. Daí a necessidade de dar atenção à questão da globalização, a qual poderá revelar-se como o problema fundamental dos Ocidentais. Dada a deslocalização a que estes deram grande curso (envolvendo muitas actividades industriais), não se pode estar certo de que a produção necessária à guerra do lado ocidental4 poderá ter lugar de modo satisfatório. O mesmo, aliás, se poderá dizer do lado russo. É que o resultado da guerra, segundo o autor, dependerá da capacidade dos dois sistemas para produzir armamentos.

Conforme já referido acima (Parte I), a organização de parentesco, em 75% do planeta, é patrilinear, o que tenderá a conduzir a que neste nosso mundo haja uma forte compreensão das atitudes russas, entendidas como um conservantismo favorável aos costumes tradicionais. E, sublinha Todd, se o comunismo da União Soviética horrorizava todo o mundo muçulmano com o seu ateísmo e não inspirava nada em particular a um país como a Índia, já a actual Rússia, também entendida como anticolonialista, poderá seduzir bastante mais5. Considerando tal contexto, poder-se-á compreender que o Ocidente é de facto menos extenso, menos poderoso e algo periférico face a esses 75% do planeta, com os seus sistemas de parentesco bilateral e a sua filiação masculina ou feminina a revelarem-se equivalentes para o estatuto social da criança (a que acresce que os valores que defende são repetidamente afirmados como de natureza democrática). Enquanto os países em que predominam os regimes autoritários, que vão de África até à China, atravessando o mundo árabe e a Rússia6, revelam-se de facto como um centro concorrido por organizações familiares comunitárias e patrilineares. É este conjunto de realidades que, para o autor, demonstra que o conflito actual, descrito pelos meios de comunicação social como um conflito de valores políticos é, a um nível mais profundo, um conflito de valores antropológicos. Sendo essa inconsciência e essa profundidade que tornam o confronto perigoso.

Emmanuel Todd já, por outro lado, evoca desde 2002 (no seu livro Après l’empire) não só a retoma do poderio russo mas também o relativo declínio de longo período dos EUA (o autor particularizando, na entrevista, relativamente ao período pós 2002, os insucessos sofridos no Iraque e no Afeganistão). É neste contexto de refluxo americano, que é referido que os Russos tomaram a decisão de importunar a Ucrânia, porque haviam contraído o sentimento de ter por fim os meios técnicos para o fazer. Tal fraqueza americana terá levado um responsável político indiano a publicar um livro em que afirmava que o afrontamento entre a China e os EUA não viria a produzir vencedor e que isso deixaria espaço não só para a Índia como para vários outros países. Todd, contudo, acrescentou: “Mas não para os Europeus”. É que o enfraquecimento dos EUA é visível em todo o lado excepto no Japão e na Europa. E isso porque um dos efeitos da retracção do sistema imperial é que os EUA reforçam o seu domínio sobre os seus primeiros protectorados. Como reforço ao que afirma, Todd cita Zbigniew Brzezinski7, autor que, reconhecendo que o império americano havia sido criado no final da segunda guerra mundial com a conquista da Alemanha e do Japão, afirmou que estes dois países continuaram a ser protectorados. E, à medida que o sistema americano perde força, ele acaba por se afirmar cada vez mais pesadamente sobre as elites locais dos protectorados (os quais agora se estendem ao conjunto da Europa). Os primeiros a perder toda a autonomia nacional, continua Todd, serão (ou já o são) os Ingleses e os Autralianos. A internet levou, nos países anglófanos, a uma interacção tal com os Estados Unidos que se poderá dizer que as suas elites universitárias, mediáticas e artísticas estão “anexadas”. No próprio continente europeu, Todd acha que estamos de algum modo protegidos pelas nossas línguas nacionais, mas a perda da nossa autonomia já é considerável e avança rapidamente.

Lisboa, 21 de Fevereiro de 2023

Filipe do Carmo

1 Jean-Michel Bezat, “La Russie, un grand corps malade”, 14 de Fevereiro de 2023, p. 29.

2 Tenham-se presentes as referências já feitas à entrevista feita a esse autor que é objecto de atenção (ver Emmanuel Todd: «La Troisième Guerre mondiale a commencé» (lefigaro.fr)) na primeira parte do presente trabalho.

3 Considerando a conferência sobre a segurança que teve lugar em Munique há alguns dias (17 de Fevereiro), uma notícia publicada no Le Monde de 2023-02-20, página 4, com o título “À Munich, l’unité des Occidentaux face à la Russie”, refere em subtítulo, claramente em acordo com a análise de Todd, que “les alliés de Kiev ont réaffirmé la nécessité de se préparer à un guerre longue”.

4 Para além das preocupações amplamente manifestadas pelos Ocidentais pelos fornecimentos de armamento à Ucrânia (a que em particular é dado grande relevo pelos presidentes francês e alemão, conforme exposto na notícia referida na nota de pé de página precedente), um artigo assinado por Cédric Pietralunga, também na página 4 do Le Monde de 2023-02-20, transmite as preocupações actuais relativas ao armamento sentidas em França logo pelo seu título: “Les stocks de munitions français insuffisants pour un conflit intense”. E, mais em particular, e referindo-se também às munições, os “stocks seraient au plus bas et ne permettraient pas de tenir au-delà de quelques semaines em cas de conflit «dur»”. E, além de transmitir as grandes dificuldades existentes em França para aumentar as capacidades de produção correspondentes (que se foram acumulando desde o final da guerra fria), o artigo dá relevo à ausência em França de terrenos adequados a testes de tiro de longo alcance, os quais devem ser efectuados na África do Sul e na Suécia, o que requer uma logística complexa e custosa. Caso, como é de esperar, estas dificuldades se estendam a outros países europeus… O que parece ser confirmado com a declaração de Josep Borrell (alto representante da União Europeia para a política Externa e de Segurança) na acima referida conferência de Munique (ver Público de 2023-02-20, pág. 7): “a Ucrânia recebe armas suficientes, mas poucas munições”. E com maior confirmação ainda por outros artigos recentes no Le Monde, em que se dá relevo aos grandes desequilíbrios entre os actuais efectivos humanos e em armamento dos Ocidentais e dos Russos assim como às baixas capacidades de produção de armas e munições dos países europeus. O que começa por ser relevado, embora de modo insuficiente, por alguns títulos: “L’UE veut mutualiser ses achats de munitions pour l’Ukraine” (2023-02-14, pg. 4); “L’Europe à court de munitions” (2023-02-16, pg. 32); “Ukraine: Onde de choc sur les armées alliées” (2023-02-20, pgs.18-19).

5 Todd refere em particular que “Les Américains se sentent aujourd’hui trahis par l’Arabie saoudite qui refuse d’augmenter sa production de pétrole, malgré la crise énergétique due à la guerre, et prend de fait le parti des Russes: pour une part, bien sûr, par intérêt pétrolier. Mais il est évident que la Russie de Poutine, devenu moralement conservatrice, est devenue sympathique aux Saoudiens dont je suis sûr qu’ils ont un peu de mal avec les débats américains sur l’accès des femmes transgenres (définies comme mâles à la conception) aux toilettes pour dames.”

6 As preocupações europeias com, em particular, uma parte considerável deste conjunto de países, foram expressas pelo presidente Macron na já referida conferência de Munique: “Je suis frappé de voir combien nous avons perdu la confiance du «Sud global» (ver a notícia referida acima na nota 3).

7 Estratega, antigo conselheiro da Casa Branca, e autor do livro The Grand Chessboard, onde evidencia a situação paradoxal dos Estado Unidos, país que, para manter a sua liderança, necessita antes de mais de dominar o grande tabuleiro de xadrez que representa a Eurásia (Europa e Ásia Oriental), onde se joga o futuro do nosso mundo.

Filipe do Carmo

Editor

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