21 de Abril, 2026
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O meu – por Manuela Matos Monteiro

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O meu “dia seguinte” aconteceu em 2017 quando o Trump ganhou as eleições. Percebi que ele poderia não ser um epifenómeno mas o princípio de um perigoso processo de degradação e derrapagem para uma direita extremada. A forma como falava, a rudeza com que exprimia a negação dos valores mais elementares, o dizer e o desdizer a seguir com um encolher de ombros normalizando a volubilidade da opinião e decisão, o machismo grosseiro, as asserções anti científicas … um verdadeiro retrocesso civilizacional.


A psicologia explica muitas coisas que escapam à análise política estrita. O Trump não plantou aquelas ideias nas pessoas: elas estavam lá, controladas pelos filtros sociais pelo assumir de valores socialmente desejáveis. Trump abre a caixa de Pandora que depois de aberta nunca se sabe quando se fecha. O mesmo com o Ventura em modo caseiro.


O que se seguiu foi o que se viu: o retomar dos discursos e políticas despudorados como o de Bolsonaro a que se seguiram tantos outros pela Europa fora. E assistimos à aproximação perigosa dos sociais democratas às teses da extrema direita (gelei com o último discurso do Montenegro nas anteriores eleições).
Previa uma situação como a de ontem (talvez não com tanta gravidade) e há meses escandalizava um amigo quando disse que me estava a custar mais a vivência destes tempos do que os da ditadura: então, o regime estava a contraciclo e sabíamos que não podia durar muito. E não durou! O mundo de hoje está numa deriva tremenda em que há liberdades que estão em risco e a estrutura, o osso do sistema está muito afetado. Há um torpor face a ataques inimagináveis : proibição de livros nos EUA, controle ideológico nas universidades, proibição do uso de determinadas palavras obrigaria a um levantamento generalizado. Há manifestações grandes mas não há um clamor massivo de rejeição. Estes avanços estão a começar a grassar na Europa.


As guerras- as colunáveis e as outras mais silenciosas e silenciadas – a tragédia de Gaza e a tragédia do silêncio cúmplice adensam tudo. Os tempos são densos e turvos e é difícil visualizarmos uma saída.
Tem-me vindo à memória um filme que me impressionou imenso: “O ovo da serpente “ do Ingmar Bergman que de um modo bruto e discreto conta como o fascismo larvar roía o sistema na Alemanha a pré-anunciar o nazismo. Que chegou. Se puderem, vejam. Não alenta mas conta.

Original AQUI

Ilustrações NSF

VÍDEO | O Ovo da serpente

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