16 de Dezembro, 2025

A actual crise da esquerda portuguesa não passa apenas pela sua crise de identidade, passa também por uma perda de coragem política [in Pacheco Pereira no Público]

Temos de nos reorganizar sem deixarmos por um dia de ser quem somos [in Isabel Moreira no Expresso]

O DEBATE NA ESQUERDA – Encontrar caminhos

Sobre os temas fundamentais que estão no centro do debate na esquerda Irene Pimentel recomenda uma reflexão a partir de dois textos publicados no Expresso e no Público, o primeiro da autoria de Isabel Moreira e o segundo de José Pacheco Pereira.

Irene Pimentel

Leiam a Isabel Moreira. É isto que se está a passar e eu não me conformo, na minha grande angústia.

“No livro “como morrem as democracias”, de Steven Levisky e Daniel Ziblatt, explica-se que há uma forma menos dramática do que a usual, mas igualmente destrutiva, de destruir as democracias: às mãos dos líderes políticos eleitos. As democracias vão sendo erodidas aos poucos, em passos pouco visíveis.

Vem isto a propósito do que já se instalou em Portugal e que se refletiu nas eleições autárquicas. Desde a vitória de Luís Montenegro, com o país traumatizado pelo ignóbil parágrafo que levou Marcelo a destruir uma maioria absoluta, passou a vingar esta tese: a eleição legitima a ação e até sana eventuais ilicitudes. A este desvio democrático juntou-se a opção claríssima da direita democrática de se travestir noutra coisa, numa cedência aos ares nacionais e internacionais favoráveis à extrema-direita. A cedência é em si mesma uma erosão da democracia. A palavra “ideologia” foi demonizada e a estratégia de deitar no lixo a social-democracia e a democracia-cristã, somada à força endinheirada e de efeito “desastre na estrada” para a comunicação social, mudou a racionalidade coletiva.

A vitória assustadora desta direita cola-nos o desafio de não ceder. De perceber que vitórias inspiradas na receita do Chega não são escola. Temos de pensar e de agir, porque estamos a perder eleitorado. As contas estão feitas. Temos de pensar e agir com olhos no longo prazo. Não podemos cair nos discursos fáceis e póstumos. As coligações à esquerda são más? Quem disse? Fomos coligados em oito municípios em 308. Talvez pensar mais e fazer menos favores à direita que se entretém a dar cabo da habitação e do mundo laboral, enquanto enche as tardes parlamentares com os temas do Chega.

(…)

Temos de nos reorganizar sem deixarmos por um dia de ser quem somos. Mesmo que por um dia fiquemos mais fracos. A nossa diluição será a nossa morte.

Uma coisa tenho por certa. Não é caminho a seguir o que aqui e ali obteve vitória. Porque a vitória do Leviatã, isto é, a vitória da “eterna luta de todos contra todos” tem um fim, e esse fim não é certamente a democracia como a conhecemos.

A nossa hora decisiva já começou”. Isabel Moreira

Leiam Pacheco Pereira e o seu apelo à esquerda para resistir, resistir, e não interiorizar o que a direita quer que interiorize sobre a crise dos socialistas. Que a esquerda se preocupe de novo com os excluídos, com a luta social.

Alguns excertos:

“A identidade perdida do PS

Há hoje vitórias eleitorais do PSD sobre o PS, a mais importante é a que traduz a ocupação do voto urbano pelo PSD. Mas há igualmente vitórias políticas e ideológicas. A vitória táctica mais relevante foi a de interiorizar no PS os argumentos da direita sobre a crise dos socialistas. A ideia de que o PS tem perdido por causa de uma sua putativa radicalização e esquerdização entrou no lugar-comum, mas está longe de ser verdadeira. O PS não se radicalizou, bem pelo contrário, e mesmo o anterior secretário-geral foi o que inverteu o sentido útil da política de imigração, o que não é de somenos.

(…)

A actual crise da esquerda portuguesa não passa apenas pela sua crise de identidade, passa também por uma perda de coragem política, pela sua moleza numa ecologia política muito agressiva à direita. Como os democratas americanos face a Trump, que só agora começam a perceber que o medo e a voz baixa só fortalecem uma política que assume hoje a forma dominante de bullying.

Por tudo isto, ideias, políticas e métodos, a direita domina a governação e a política, o Chega controla a agenda e a “narrativa”, o PS voa tão baixinho que dizer que voa é um exagero, e hoje o consumo da política, fundamental, em democracia mudou-se para locais mal frequentados como as redes sociais. Uma geração está a crescer nesta ecologia e não vai ser grande coisa.

Resistir é o único verbo com dignidade, vai ser duro, leva tempo e faz estragos, mas é a única maneira de travar a ascensão da brutalidade, da ignorância e de uma sociedade de pobres e excluídos, perdidos na sua invisibilidade.” José Pacheco Pereira.

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