18 de Janeiro, 2026

As presidenciais na data da Marinha Grande 

DEBATE DAS PRESIDENCIAIS – O que está em causa e as consequências do ato eleitoral [1]


por Carlos Valentim Ribeiro

Teremos de admitir que o próximo 18 de janeiro não terá por centro das atenções a revolta da Marinha Grande protagonizada, em 1934, pela população local que se mobilizou contra os sindicatos corporativos impostos aos trabalhadores de todo o país pelo regime salazarista. 

Vamos ter outro 18 de janeiro, uma jornada de votação dos cidadãos portugueses no final da qual serão identificados os candidatos que irão disputar a segunda volta para a eleição do próximo Presidente da República.  

A um mês do ato eleitoral permanece uma situação de grande indefinição sobre quem os eleitores irão escolher e para os setores de esquerda mantém-se uma grande ambiguidade nas opções que se encontram em cima da mesa.

As perguntas do momento

Esta situação, para os eleitores de esquerda, pode ser explorada a partir de algumas perguntas essenciais tais como: 

1º Como foi possível termos chegado a este ponto do processo eleitoral sem uma opção clara e sem existir uma perspetiva segura de uma eventual vitória à esquerda? 

2º Afinal de contas o que é que está em disputa, como questão central, nestas eleições presidenciais? 

3º Como podem ser avaliados os candidatos que se apresentam tendo em conta o que surge como fundamental nesta disputa eleitoral? 

4º Qual será o cenário previsível no dia 17 de janeiro de 2026? 

Estas interrogações pedem respostas que sirvam para construir um posicionamento adequado nesta caminhada que terá o Natal, a Passagem de Ano e a festas dos Reis de permeio. Pensar de forma amadurecida neste período festivo vai tornar-se um exercício ao qual poucos se dedicarão, mas vale a pena lançar algumas pistas especulativas e ainda sem grande consolidação. 

Para responder à primeira pergunta [recordemos que estas matérias colocam-se no campo da esquerda] importa recordar que:  

  • No PS foram decapitados pelo lawfare dois Secretários-Gerais [António Costa e Pedro Nuno Santos] em pouco mais de um ano, o partido saiu fragilizado das eleições legislativas e com grandes limitações para uma escolha de candidato consensual e com o perfil necessário; José Luís Carneiro derrotado de forma muito expressiva no processo eleitoral interno contra Pedro Nuno Santos que obteve 62% dos 40.000 votos contra 36% do ex-autarca de Baião, decidiu, depois da rejeição a que foi sujeito no partido, aproveitar o vazio provocado pela demissão de PNS e acabou por assumir a função para a qual tinha sido derrotado, angariando 16.342 votos numa votação pouco expressiva. O preenchimento do lugar naquelas circunstâncias indicava que JLC seria um líder de transição, sem condições para unir o PS e arrastando o partido para uma deriva direitista e conciliadora com a governação à direita. Indicar um candidato que pudesse lutar pelo “candidato único sa esquerda” nestas condições seria uma utopia pura.
  • Os partidos situados à esquerda do PS, no sentido de estes assumirem principalmente uma postura de protesto permanente, depois dos desaires eleitorais [que o PS também teve] definiram estratégias de sobrevivência e dificilmente optariam por uma convergência em torno de uma candidata ou de um candidato a menos que fossem confrontados com uma candidatura inquestionável e consensual, independente de qualquer um dos partidos de esquerda; 
  • O PS, na sua nova dinâmica conciliadora, recusou quaisquer apoios a Sampaio da Nóvoa que só avançaria na condição de contar com o apoio formal do Partido Socialista. 

A segunda pergunta, sobre a questão central nesta disputa eleitoral, precisa de ter uma resposta clara: já não se trata principalmente de uma confrontação entre esquerda e direita, essa matéria está arrumada há muito tempo. Trata-se de um combate entre democracia e autoritarismo, entre regime plural baseado no Estado de Direito e democracia musculada. 

Os candidatos e o voto

Já a avaliação dos candidatos face à questão central mencionada suscita os seguintes apontamentos: 

  • O candidato da extrema-direita surge como um candidato a derrotar sem apelo nem agravo. 
  • O candidato apoiado pelo PSD, face às inclinações parlamentares e de governação que o partido laranja tem demonstrado nesta legislatura realizando alianças com a extrema-direita, procurando consolidar uma linha de “poder institucional absoluto” [parlamento, governo, autarquias…Presidente da República…], poderá servir de instrumento para um endurecimento nas questões do funcionamento democrático e aprofundar a estratégia de “fazer como a extrema-direita para que ela não ganhe mais terreno e reduza a direita tradicional a uma pequena franja político-partidária”. 
  • Gouveia e Melo surge com muitas fragilidades políticas, o seu pensamento é militar, mas não preconiza medidas e soluções radicais associadas à ideia de pôr o país na ordem, vocação tradicional dos militares no poder. O seu alcance é de outro tipo. Um perfil de pessoa séria, respeitador das regras de jogo e carregando um histórico de serviço à nação. Não surge como ameaçador nas questões democráticas e de regime. Conquista a confiança de quem procura um porto seguro. Em questões fundamentais como as da defesa e da guerra não clarificou ainda a sua visão dos conflitos internacionais. A sua ligação à NATO e aos EUA de forma unilateral, sabendo-se que os EUA são agora mais um adversário da Europa do que um potencial aliado, pode suscitar algumas reservas [o que acontece aliás com todos os outros candidatos]. 
  • António José Seguro surge como um candidato que se posiciona inquestionavelmente do lado da democracia e da Constituição. O facto de ter avançado com a sua candidatura sem ter tentado qualquer compromisso com o próprio PS e com os restantes partidos da esquerda mais radical demonstra que a sua agenda consistiu antes mais impedir a candidatura de António Vitorino que só avançaria se fosse o candidato único da esquerda democrática. Seguro avançou porque sabia que o PS, que o tinha rejeitado e marginalizado pelas suas convicções centro-direita, não o apoiaria. Optou por dividir o PS e avançou com o apoio daqueles que consideram que a geringonça foi uma catástrofe para os socialistas e que um PS à esquerda não tem futuro porque o país virou à direita. A médio e longo prazo o papel de Seguro será o de aprofundar a divisão no PS e articular-se com a atual direção carneirista para ocupar o espaço social-democrata que o PSD está progressivamente a abandonar. A par desta forma de agir, contra qualquer candidatura de esquerda com a capacidade de derrotar candidatos da direita e da extrema-direita, no plano pessoal Seguro é vingativo. Continuará a agir para ajustar contas com todos aqueles que deram apoio a António Costa e o colocaram fora da liderança do PS. 
  • Uma nota sobre os restantes candidatos que se posicionam à esquerda. António Filipe recusou-se a defender a geringonça face aos ataques que foram realizados nos debates e sendo assim nunca poderia ser um candidato a ser colocado na esfera do embate “esquerda contra direita”.  Soit disant, o que terá existido de positivo naquele ciclo político terão sido as propostas e as ações do PCP. Miséria de sectarismo e estratégia de sobrevivência suicida. A tese da “coligação neoliberal” que incluiria para além do PS partidos como o Livre [tem dias …afirmou] transforma o que poderia ser uma candidatura de alguém respeitável, útil no combate à extrema-direita, num Quixote irrelevante. 

  • Catarina Martins navega na atual indefinição do Bloco de Esquerda e aparece no palco das eleições sem nada para dizer sobre as questões que se colocam para defender o Estado Social, combater as alterações climáticas, lutar contra a pobreza, promover o desenvolvimento sustentável e defender a democracia contra o avanço da extrema-direita sem ser com o discurso do protesto. Nem sequer a sua condição de única mulher até agora candidata a colocou noutro registo positivo e combativo. Terá sido a última oportunidade do Bloco se reerguer como partido criativo e irreverente, útil pela sua combatividade e símbolo da não-resignação. 

  • Já Jorge Pinto agravou claramente a imagem do Livre na cena política ao confirmar o que Rui Tavares já tinha anunciado anteriormente, um alinhamento cego com as políticas armamentistas e belicistas dos falcões europeus ao admitir como solução para as tensões geopolíticas atuais estratégias de defesa e rearmamento europeu, alinhando na escalada que os senhores da guerra andam a promover diariamente. A estratégia da esquerda é a luta pela paz e não por uma Europa armada até aos dentes para combater inimigos que os falcões da guerra andam a publicitar. A luta da esquerda europeia é de defesa do Estado Social e de combate à direita e extrema-direita que governam a União Europeia há mais de 20 anos.  

As eleições presidenciais de 18 de janeiro estão envolvidas num manto de ambiguidades e até de armadilhas. Ainda faltam alguns dias para que algumas sombras possam desaparecer ou atenuarem a sua espessura. Vamos acompanhar e estar de olho vivo. 

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