Um punk agora sexagenário
No dia de Natal na loja de conveniência

Por Manuela Matos Monteiro
Na Travessa de Miraflor, 3 portas depois da Rosa da Viela, abriu uma loja nova que veio substituir a saudosa frutaria da Cátia. É mais uma “loja de conveniência” do tipo das que vão abrindo um pouco por todo o lado. No dia da abertura, há 3 meses, fiz questão de comprar uns frescos em modo de boas vindas. A pessoa que está à frente do novo “Supermercado de Campanhã” é do Bengladesh, muito simpática com um olhar e sorriso doce e vai arranhando umas palavras em português por simpatia porque não são funcionais.



©MMM Manuela Matos Monteiro
A loja tem uma mistura de produtos, desde o sabonete Patti da Ach Brito, a pacotes de sopas e noodles de outras paragens. Vinhos e cervejas ocupam muitas prateleiras a fazer adivinhar que uma estação de chegadas e partidas atrai vontade de afogar em álcool dores, tédios, amores e outras declinações emocionais.
Estava a tentar perceber o que era a Gram Flour quando entra o que teria sido um punk agora sexagenário ou mais. Vinha comprar umas cervejas tendo aberto logo uma “para abater”.
O que se seguiu foram momentos de humanidade: o “punk” começou a dizer que era de Pedras Salgadas, “não sei se sabe onde é, mas fica a mais de 170 km do Porto, na zona de Vila Real. Dizem que é uma terra bonita mas estou tão habituado que já nem sei”. E continuou a contar a terra, a vinda ao Porto em dia de Natal a ver se encontrava um primo que não via há muito. O interlocutor olhava-o atento sem perceber nada do que o outro dizia, mantendo um sorriso que era mais do que neutro: acolhia um discurso que não entendia mas percebia a importância de acolher quem precisava de se contar em dia de Natal.
Trouxe a Gram Flour que não sei bem o que é, lentilhas e laranjas. O emigrante- 11 meses em Portugal- continuava atento a ouvir contar o que não percebia mas percebia que a sua atenção valia para alguém que não teria quem o ouvisse. Em dia de Natal.