Fugir à guerra colonial e à pobreza
A emigração portuguesa em “O Salto” de Christian de Chalonge (1967)
DOSSIER O SALTO – EMIGRAÇÃO PORTUGUESA CLANDESTINA
Filme emblemático sobre a emigração portuguesa clandestina, “O Salto” está imbuído de uma forte carga política e ideológica, fruto do ambiente efervescente vivido em França na época. O crescente fluxo migratório, as condições em que partiam os emigrantes – a pé e em camionetas de carga – e a forma como eram recebidos em França são questões retratadas de forma crua e realista. Com esta primeira obra o francês Christian de Chalonge viria a arrecadar, em 1968, o prestigiado Prémio Jean Vigo.

“O Salto” é um filme francês estreado em 1968, sob direcção de Christian Chalonge, com a participação, entre outros, de Marco Pico (António Ferreira), Ludmila Mikaël (Dominique), António Passalia (Carlos), Américo Trindade (Américo), António Assunção e Henrique de Souza (Alberto).
Carlos Saboga, hoje famoso argumentista do cinema português, era um jovem imigrante em Paris nessa altura, alguém que vivendo noutra realidade, a dos exilados políticos, viu de perto os bidonvilles por razões profissionais (participou na pesquisa para o filme “O Salto”, de Christian de Chalonge, sobre a emigração clandestina portuguesa).”Paris estava cercada de bidonvilles onde estavam os tipos que estavam a fazer a França. Estes tipos estavam escondidos, não se viam nas ruas. Trabalhavam na Renault, na Citroën, na construção civil, nas auto-estradas. Eu conhecia os bairros de lata lisboetas – Casal Ventoso, Vale Escuro -, porque enquanto militantes [comunistas] íamos lá falar com as pessoas, mas nunca tinha visto nada assim. As condições de vida eram pavorosas. Quando os franceses falam dos 30 anos de prosperidade a seguir à guerra, esquecem-se dessa outra face da moeda.”
Sinopse
António é um marceneiro português que, para fugir à guerra colonial e à pobreza, decide emigrar para França, respondendo ao desafio de um amigo. À dureza da travessia da fronteira, somam-se as dificuldades em Paris. Sem documentos, sem trabalho e sem falar francês, António deambula pela cidade em busca de Carlos, o amigo que lhe prometera ajuda. Neste seu percurso solitário, a esperança e o optimismo vão dando lugar à desilusão, sentimento partilhado por muitos portugueses com quem se vai cruzando.
Por não encontrar Carlos, e sem saber o que fazer, António pede ajuda a Dominique, uma jovem enfermeira francesa, que conhecera em Portugal, contudo a jovem não poderá ser de grande utilidade para um imigrante ilegal (que, ainda por cima, não fala francês), mas ainda lhe consegue arranjar um pequeno “biscate”, ajudando à mudança de casa de um médico.
Quando António encontra Carlos, sente-se traído, ao saber que o compatriota exige uma elevada quantia em dinheiro para lhe arranjar os documentos de trabalho e o pagamento de uma percentagem do seu salário durante cinco anos, acabando por ir parar a uma cidade com piores condições do que a vila portuguesa donde era originário.
Música de Luís Cília
Luís Cília foi para França forçado. Nos primeiros tempos tocava nas festas das associações de emigrantes. Apenas quando fez a música para o filme “O Salto” é que se dedicou só à música. Em 1966 foi entrevistado pela televisão francesa no âmbito de um programa sobre a juventude que emigrou para França





Prémios
Prémio OCIC do Festival de Veneza (1967)
Prémio Jean Vigo (1968)
Fonte: Blogue Portugal através do Mundo. Fontes/Mais informações: RTP / Films de France / Museu Emigrante / Textos da internet / Itacaproject / Memória Viva / Scoop.it (cinema e emigração)