18 de Janeiro, 2026

Devo quase tudo ao Christian

Luis Cília, autor da banda sonora do filme O Salto, concedeu ao NSF uma entrevista na qual recorda o realizador e amigo Christian de Chalonge.

DOSSIER O SALTO – EMIGRAÇÃO PORTUGUESA CLANDESTINA

ENTREVISTA

Luis Cília, Christian de Chalonge e Henrique Espírito Santo | 2015 em Melgaço/Portugal


NSF – Como e aonde é que o Christian e o Luís se cruzaram e que razões houve para que tivessem mantido esse relacionamento inicial? 

LUIS CÍLIA [LC] – O meu “irmão” Paco Ibañez era amigo do Roberto Bodegas que trabalhava com o Christian e estavam a preparar o Salto. Portanto foi aí que conheci os dois. Depois foi tudo natural. 

NSF – Como foram as jornadas de contacto com os imigrantes portugueses no início do processo de investigação para a realização do filme, tendo o Luis desempenhado o papel de tradutor? 

LC – Como cantor eu ia muitas vezes aos bairros da lata cantar, em festas organizadas por Associações de portugueses (como os Originários de Portugal). Portanto eu já estava em contacto com os meus compatriotas que buscavam melhores dias. 

NSF – Das filmagens e das atividades vividas em coletivo criativo naqueles tempos quais foram as que ficaram na memória como inesquecíveis? 

Eu pude acompanhar o Christian nas sus buscas. Inclusive ,com a ajuda dum amigo meu, o Fernando Morgado, também exilado e que tinha colaborado em Portugal nos cineclubes. O Christian veio a Portugal e encontrou-se com vários cineastas, entre os quais o José Fonseca e Costa e o produtor Henrique Espírito Santo. Eles ajudaram-no. 

O Christian procurava, também um actor para o papel principal. Não encontrou e foi o Marco Pico o escolhido. Nas dobagens o Marco Pico foi dobrado pelo Manuel Areias. Para outros intérpretes fui eu, o Carlos Vaz, O Jorge Reis (escritor) e outros. Acompanhei as filmagens para os contactos com os figurantes e devo dizer que houve momentos muito duros (chuva, lama…).

Foi tudo inesquecível! 



NSF – Na banda sonora, nas opções que foram sendo assumidas, foi também vivida a progressão que o Christian menciona da passagem de um filme sobre um homem solitário na cidade para a dramática “epopeia” dos imigrantes portugueses em França naquela época?  

LC – Fiquei muito comovido com o convite do Christian, para a banda sonora. Eu era um principiante e foi a primeira vez que compus para o cinema. Devo tudo ao Christian. Para a gravação devo realçar o meu amigo Paco Ibañez, excelente guitarrista, que é o intérprete principal da banda sonora (ator no assobio final). 

NSF – A indiferença, a desolação e a angústia da não-esperança, situações vividas no filme, justificariam um tom “melancólico” submisso e de rendição ao destino. Mas não é o caso nesta banda sonora na qual parece haver um convite subliminar para se olhar para a frente e um movimento em oposição à paragem à estagnação. Já estaria presente uma forte carga política e até ideológica no trabalho do Luis? 

LC – Quando gravei a música de O Salto, já tinha gravado dois discos, como cantor : “Portugal-Angola-Cantos de Lutte” – Chant du Monde e La poésie portugaise….. Nº1- Moshé Naim. Claro que com o que tinha vivido em Lisboa, na Casa dos Estudantes do Império, entre 1961 e 1964,, e com o contacto com a realidade em França, penso que já tinha uma certa preparação ideológica. 

NSF – O que representou para o Luis a participação neste projeto do Christian e como que que avalia hoje a importância do “O Salto” para as memórias coletivas e identitárias do povo português? 

LC – O Salto é o único filme que, de uma forma faccionada, trata do problema dos emigrantes portugueses em França. Depois disso há vários documentários bastante bons mas na ficção não se fez outro. Portanto creio que, para além da qualidade do filme é um documento muito importante. 

NSF – Umas palavras finais sobre o Christian, sobre as suas diversas facetas. 

LC – Como já disse devo quase tudo ao Christian. E fomos sempre mantendo contacto ao longo dos anos. Um grande realizador, um grande senhor!!! 


Vídeo | com banda sonora de Luis Cília

Imagem de destaque Fonte © Programa Inesquecível RTP

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