Christian de Chalonge
O cineasta Christian de Chalonge morreu em Saint-Denis no dia 6 de dezembro, aos 88 anos
Realizador do filme O Salto [1967] e vencedor do Prémio César de Melhor Realizador em 1979, Christian de Chalonge surge para os portugueses como um protagonista fundamental do cinema contemporâneo ao retratar a imigração dos anos 60, uma faceta particularmente relevante da história mais recente de Portugal.
DOSSIER O SALTO – EMIGRAÇÃO PORTUGUESA CLANDESTINA

Christian de Chalonge nasceu em 21 de janeiro de 1937 em Douai, no norte de França e formou-se em Cinema pelo IDHEC (Institut des Hautes Études Cinématographiques) após o que inicialmente trabalhou como assistente de vários realizadores importantes: René Clemént, Serge Bourguignon, Alain Jessua, Tony Richardson, Roberto Bodegas, Costa-Gavras, Valerio Zurlini. Em alguns documentos é referido também como tendo sido director de 2a unidade de filmagem na superprodução de Tony Richardson “The Charge of the Light Brigade” de 1968.
Dirigiu a sua primeira longa metragem, “Le Saut” em 1967, muito bem acolhida pela crítica, logo seguido em 1971 por “L’Alliance”, em 1978 “L’Argent des autres”, (considerado o seu trabalho mais bem sucedido) depois em 1980 “Malevil”, 1982 “Les Quarantièmes rugissants”, 1990 “Docteur Petiot”, 1991 “Le Voleur d’enfants”, 1996 “Le Bel Été” 1914, 1997 “Le Comédien”
Foi ainda realizador de várias produções televisivas.
Como ja se referiu, em 1966 Chalonge foi assistente do realizador Tony Richardson no seu filme “The Sailor from Gibraltar” e foi este inglês que, admirado com as suas capacidades, o incentivou a “dar o salto” de assistente para realizador, desenvolvendo um projecto próprio com base numa ideia original, para um primeiro filme de longa metragem que o ajudaria a encontrar financiamento para o fazer.
“Je voulais juste montrer les choses comme elles se dérouleraient en pareille circonstance selon moi. On est là et il faut montrer ce qui se passe précisément.” Christian de Chalonge
Inicialmente surgiu-lhe a ideia de fazer algo sobre um jovem perdido numa grande cidade, (com o título “A viagem do Silêncio”) que corresponde a uma parte da história contada n’O Salto, mas em 1966/67 em Paris (e por toda a França) estava já em “fermentação” a revolução que eclodiria em Maio de 68 fervilhando de ideias marxistas partilhadas entre estudantes e operários das grandes fábricas francesas, onde trabalhavam também bastantes emigrantes dos quais muitos portugueses, que tinham saído clandestinamente do seu país para fugir à ditadura, à miséria das aldeias ou à guerra colonial. É então que com o argumentista espanhol Roberto Bodegas, exilado em Paris para fugir à ditadura franquista escreve(m) “a 4 mãos” o argumento de “O Salto”, mais abrangente do que a ideia inicial e que (inspirado nos acontecimentos que eram notícia na altura) aborda a odisseia dos portugueses, que por essa altura chegavam a França aos milhares para tentar encontraruma vida melhor, tendo para tal contado com a colaboração (como consultores) de Carlos Saboga (argumentista de vários filmes portugueses entre os quais “O Lugar do Morto” de António Pedro de Vasconcelos e mais tarde realizador) e também de Henrique Espirito Santo com um passado de intensa actividade cineclubistica e experiência em produção de filmes publicitários (e que mais tarde vira a ser um dos mais importantes produtores de cinema em Portugal tendo começado com “O Recado” o primeiro longa-metragem de José Fonseca e Costa em 1972). A eles junta-se o músico e cantor de intervenção Luís Cília (também ele um exilado em Paris) para compor a banda sonora (contando com a participação de “Paco” Ibáñez), mas com outras funções para além da música. Para conseguir financiamento Chalonge recorreu a Philippe de Broca que nos anos anteriores tinha dirigido alguns dos maiores exitos do cinema francês: “Cartouche”, “L’Homme de Rio”, “Les Tribulations d’un Chinois en Chine”… convidando-o para produtor deste seu primeiro filme. E para director de fotografia é escolhido o talentoso Alain Derobe que fez um belo trabalho segundo a opinião de alguns críticos.


Algumas fotos do filme.
O Salto tem um cunho neorrealista bastante inusitado no cinema francês, tal como admite o realizador, não só pela opção pelo preto e branco mas também pelo recurso a actores não profissionais e a figurantes que na realidade eram mesmo gente dos bidonvilles (bairros clandestinos que foram crescendo na periferia de Paris formados por grandes aglomerados de barracas ou construções precárias sem qualquer planeamento ou fornecimento de água e esgotos cujo o nome virá do facto de por lá haver muitos bidões para guardar a água que transportavam dos fontanários para uso doméstico) onde por falta de recursos financeiros viviam os emigrantes portugueses, espanhóis, italianos. Chalonge foi mesmo rodar nesses bairros e conseguiu a colaboração dos moradores como figurantes com algum trabalho de encenação não muito complicado e pagando o mesmo a todos, fossem franceses, portugueses ou espanhóis. Era gente humilde, pouco culta ou mesmo analfabeta mas ordeiros e suficientemente espertos para perceberem o que deles se pretendia.
Fonte dos textos: DVDMania | FOTO DE DESTAQUE ©Joel Robine
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ficha técnica do filme completa (em francês) em
https://fr.wikipedia.org/wiki/Le_Saut_(film,_1968)