Abril não é memória, é combate e futuro
A extrema-direita cresce onde o Estado falha, onde o transporte não chega, onde o centro de saúde encerra, onde a escola perde professores e onde o salário não paga a renda

Por Luis Vidigal
Há vitórias que valem mais pelo que anunciam do que pelo que encerram. A vitória de Seguro nas presidenciais, mais do que a ascensão de um nome, significa que uma parte significativa do país quer respirar estabilidade democrática sem abdicar de ambição social. Mas nenhuma vitória, por mais simbólica que seja, derrota sozinha a extrema-direita.
A extrema-direita cresce onde o Estado falha, onde o transporte não chega, onde o centro de saúde encerra, onde a escola perde professores e onde o salário não paga a renda. Cresce onde a política se ausenta.
A esquerda só poderá fazê-la recuar se voltar a ocupar esses territórios invisíveis, se transformar o quotidiano em debate político e se provar, com medidas concretas, que a segurança não é sinónimo de exclusão e que a justiça social não é um luxo ideológico, mas um requisito democrático.
Ao mesmo tempo, a batalha não é apenas interna. Há uma ofensiva cultural que atravessa o Atlântico e procura moldar o debate europeu, normalizando o radicalismo identitário e a desconfiança nas instituições. Quando lideranças como Donald Trump acenam a forças como o Rassemblement National ou a Alternative für Deutschland, não estão apenas a comentar a política europeia, estão a incentivar uma redefinição do aceitável.
A resposta não pode ser apenas indignação moral. A Europa terá de investir na sua soberania cultural, fortalecer os media públicos, regular democraticamente as plataformas digitais e construir uma narrativa comum que vá além do mercado. Se a União for apenas uma união económica, será frágil e se for também um projeto civilizacional, terá raízes mais profundas.
Neste contexto, a paz torna-se novamente uma causa política central.
A memória da Segunda Guerra Mundial não pode ser evocada apenas em cerimónias. A normalização do discurso belicista é um sinal preocupante de um continente que esquece demasiado depressa. A luta pela paz não pertence apenas aos governos, pertence aos sindicatos, às associações juvenis, às universidades, às igrejas, aos partidos e aos movimentos ambientais.
Exigir diplomacia, escrutínio democrático sobre decisões militares e uma economia que não dependa apenas da indústria da guerra é afirmar que segurança e escalada não são sinónimos. A paz também se constrói com justiça social e cooperação internacional.
Hoje, perante fenómenos climáticos extremos, precariedade habitacional e dificuldades crescentes, o país enfrenta uma escolha entre deixar que o desespero alimente o ressentimento ou transformar a adversidade em solidariedade organizada.
Se houver transparência na ação pública, envolvimento comunitário e um Estado presente, cada reconstrução pode reforçar a ideia de um Portugal solidário, imune à tentação da divisão.
É também tempo de olhar para a Constituição da República Portuguesa com respeito e ambição. A Constituição é filha da Revolução dos Cravos, mas não é uma peça de museu. Poder-se-ia consagrar explicitamente o direito a um clima estável e à proteção das gerações futuras, reforçar mecanismos de participação cidadã na era digital, atualizar o enquadramento da economia social e clarificar os deveres do Estado na transição energética justa. Atualizar não é trair, é cumprir o espírito transformador de Abril.