Vão para a vossa terra!
Gil Vicente dedicou-lhes o “Auto das Ciganas”, representado na Corte de D. João III, em 1521

Por Paulo Marques
Originários do Norte da Índia, a partir do século XI, através do vale do Danúbio, os ciganos espalharam-se pela Europa. A diáspora do povo iniciou-se em obediência à impiedosa ordem de deportação do sultão Mahmud de Ghazni (971 – 1030).
Entraram em Portugal na viragem do século XV para o século XVI: Gil Vicente dedicou-lhes o “Auto das Ciganas”, representado na Corte de D. João III, em 1521.
Passados poucos anos, logo em 1526, saiu a primeira lei repressiva: «Que os ciganos não entrem no reino e que saiam os que nele estiverem.» A ordem seria apenas a primeira de muitas. E o princípio subjacente à ordem, continua, triste e vergonhosamente, presente.
Dentro das minorias em Portugal – estima-se que existam atualmente cerca de 40 mil ciganos portugueses – os ciganos constituem a mais grave e escandalosa de todas as situações de racismo e xenofobia.
Já cá estão há mais de 500 anos e há mais de 500 anos que continuam a ouvir: «Vão para a vossa terra!»
Acusam-nos de “não se integrarem”: só que não entendem que a sua resistência à integração é uma questão de sobrevivência. Se tivessem abandonado a sua cultura, tradição, língua e costumes, a sua necessidade visceral de liberdade e independência, há muito que tinham desaparecido.
Paulo Marques
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Apontamentos sobre o Auto das Ciganas de Noémia Ramos
“Nesta sequência surge a peça Ciganas que, pelo seu mythos, figura a reunião de 14 de Janeiro de 1526 em Madrid, da qual saiu o Tratado de alianças, com os necessários casamentos políticos.
A cantiga das ciganas é claramente uma descrição da situação política: aqui nos versos da cantiga, o asno tanto serve à figuração do Estado Pontifício (burro), cujo chefe é o Papa, ainda aliado de Francisco I (o Liberto), como serve para lembrar a situação deste, a quem cozinham o casamento.
(cantiga)
En la cozina eztava el aznu (50)
bailando
y dixéronme: don azno
qué voz traen cazamiento
y oz davan en axuar
una manta y un paramiento(55)
hilando.
Depois de um prólogo como primeiro episódio, até à entrada dos homens, segue-se o segundo episódio que contém, a par da cantiga, a parte essencial do mythos da peça: o Tratado de Madrid de 14 de Janeiro de 1526.
Em Ciganas torna-se relativamente simples identificar nas personagens dos ciganos as figurações dos homens políticos intervenientes directa ou indirectamente nas decisões de Madrid. Como deve ter sido hábito dos ciganos são os homens que vendem ou trocam algo, aqui cavalos, potros e burros… São quatro personagens masculinas: Liberto, entra em cena mas não tem voz no processo, só pode tratar-se de Francisco I, acabado de ser libertado, sob condições adversas, não tem voz na matéria; Cláudio figura sem dúvida o imperador Carlos V, pois além de um rocín (Borgonha) tem ainda dois bons cavalos (Milão e Génova); Carmélio figura o irmão do imperador, Fernando de Habsburgo, tem dois burricos pretos (Flandres e Artois); por último Aurício figura o Papa Clamente VII que tem um potro (Estado Pontifício) e uma burra velha (Igreja Roma) para comerciar.
Identificar as figuras nas personagens femininas das ciganas torna-se mais difícil, contudo pela importância de cada uma delas na acção e pela pergunta de Cláudio (Carlos V), Pues qué queréis Martina que hagamoz? esta Martina será a figuração de sua tia Margarida de Habsburgo, com quem o imperador se aconselha para saber o que há de fazer e, na peça, ela é a cigana mais activa”.
O texto desta página, de Noémio Ramos, encontra-se no livro.
Gil Vicente, O Clérigo da Beira – o povo espoliado – em pelota.
Pub. Março de 2012 – isbn – 978-972-990009-9