Salazar
Mitos, factos, propaganda e ignorância

Ana Sampaio Monteiro
Há uma guerra essencialmente “cultural”, feita de propaganda, que avança em todas as frentes
Em Portugal, por acção de um partido de extrema-direita, cujo líder não teve qualquer pejo em afirmar publicamente que o país precisava “não de um, mas de três Salazares”,
cresce a ideia de que o ditador português, que liderou o país com mão de ferro entre 1932 (ou antes) e 1968, era incorrupto, viveu e morreu pobre, era um homem bom, incapaz de fazer mal a quem quer que fosse, porque nada sabia do que se passava de perverso, um ser quase beatificado.
Nada disto corresponde, evidentemente, à verdade.
Sabemos hoje que tinha o equivalente a 113 mil euros no banco quando morreu, além de prata, ouro, casas e terrenos que, aos valores actuais, valeriam milhões.
Sabemos também que o salário do Presidente do Conselho de Ministros – cargo equivalente ao de Primeiro-Ministro e que exerceu durante 36 anos – correspondia, em valores actualizados, a cerca de 8.450 euros mensais, exactamente o mesmo montante que hoje aufere o Primeiro-Ministro português.
Salazar viveu gratuitamente durante 31 anos em residências oficiais:
no Palácio de São Bento e no Forte de Santo António da Barra, no Estoril, onde passava férias.
Na sequência do atentado à bomba de que foi alvo em 1937 – o primeiro de várias tentativas contra a sua vida -, foi criada uma residência oficial para o chefe do Governo: o Palácio de São Bento, que fez reabilitar, mobilar e decorar de forma luxuosa.
Foi o primeiro governante da República a usufruir de uma residência oficial.
Mudou-se para São Bento em 1939.
Tinha sete criadas, para além da governanta, D. Maria.
Usou e abusou de favores de funcionários públicos para tratar de assuntos pessoais.
Quando, em 1968, “caiu da cadeira” e foi hospitalizado, o Estado gastou cerca de 1,9 milhões de euros, em valores actualizados, com a sua doença e atribuiu-lhe uma pensão vitalícia.
Substituído por Marcello Caetano em Setembro de 1968, nunca ninguém teve a coragem de lhe dizer que já não era Presidente do Conselho.
Por isso, permaneceu até à sua morte, em 1970, no Palácio de São Bento, residência oficial à qual já não tinha naturalmente direito, enquanto Marcello Caetano continuava a viver na sua residência particular.
Deixou quintas em Santa Comba Dão, pratas avaliadas em cerca de 467 mil euros e uma pequena participação na Coimbra Editora.
Após cessar funções governativas, foi-lhe atribuída uma elevada pensão vitalícia.
Era também a primeira vez que um governante da República beneficiava de uma subvenção vitalícia.
Como afirma o historiador António Costa Pinto:
“O ditador pode não ser corrupto, mas tolerar a corrupção.” (Revista Sábado)
As narrativas hegemónicas são fomentadas em Portugal pelas elites descendentes do regime salazarista – elites que mantiveram o seu estatuto na democracia restaurada, em todas as esferas: política, económica, académica e cultural.
Para higienizar o seu presente, essas elites precisaram de suavizar a visão do seu passado.
Associa-se ao fenómeno, a capacidade de um partido, cujo nome não gosto de escrever, para angariar simpatizantes e eleitores recrutados sobretudo entre os mais jovens – em especial do sexo masculino -, que têm em comum um elevado grau de iliteracia.
Com efeito, o aumento da escolaridade e a quase erradicação do analfabetismo em Portugal não se traduziram num aumento do conhecimento, da elevação cultural ou do prazer pela leitura ou pela escrita – a maioria não consegue produzir um texto escrito sem recurso à IA.
Bastam dois exemplos, de há dias:
a média do exame nacional de Português foi de 11,4 valores;
a de História A ficou pelos 10,7.
Do 12º ano!
Os textos longos provocam enfado, tornam-se difíceis de interpretar, sintetizar e analisar criticamente.
Estamos perante o fenómeno “sociológico” da “fachosfera” – a esfera da extrema-direita nas plataformas como o YouTube e o TikTok, assente em conteúdos aparentemente espontâneos, curtos e simples.
Trata-se de “assuntos” cuidadosamente elaborados e disseminados por grupos de extrema-direita, bem preparados nas técnicas da manipulação rápida e altamente activos nas redes sociais.
Os objectivos são claros: “higienizar” o passado, branquear a imagem de Salazar e dos seus acólitos e responsabilizar a democracia por todos os males que afectam os cidadãos.
É uma guerra essencialmente “cultural”, feita de propaganda, que avança em todas as frentes.
A ideia de que Salazar e o regime fascista eram, afinal, democráticos – ainda ontem ouvi André Ventura, em entrevista na televisão, apresentar-se como um genuíno democrata -, de que não eram sanguinários, violentos, corruptos ou ditatoriais, vai-se expandindo.
As ditaduras não regressam, regra geral, com tanques nas ruas.
Regressam primeiro pela linguagem, pela banalização do mal, pelo esquecimento e pela reabilitação dos seus protagonistas.
Quando um ditador deixa de ser visto como ditador para passar a ser apresentado como um governante exemplar, a erosão da memória democrática já começou.
É por isso que recordar os factos não é viver preso ao passado, é proteger o futuro.
Se não existir contraditório permanente, chegará o momento em que passaremos a ter medo de criticar Salazar.
Nota
Salazar não constituiu família nem teve filhos. À data do seu falecimento, os seus únicos herdeiros eram dois sobrinhos-netos, que também não têm descendentes, o que dita o fim definitivo da linhagem familiar.
(Texto de Ana Sampaio Monteiro; imagem: Salazar, in Instagram)
(Dados quantitativos retirados do artigo “Salazar, dinheiro, gastos e benesses”, Revista Sábado.)