29 de Agosto, 2026

LIVROS – O primeiro fascista [1]

Carlos Valentim Ribeiro

Levei o livro comigo para os primeiros dias de descanso, mas à cautela juntei outros dois que estavam apenas a meio caminho, não fosse a obra de Sérgio Luzzatto ser daquelas com título sedutor, mas com a velha classificação final de “muita parra e pouca uva”. Acontece que regressei a casa com o “Como poeira ao vento”, do Padura e o “La Meditarranée traversée” coordenado pelo sociólogo amigo Said Belguidoum com os marcadores na mesma posição da ida e com “a vida extraordinária e o tenebroso legado do marquês de Morès” já muito adiantada. 

Quem leu o “Homem que gostava de cães” de Leonardo Padura sabe que é possível escrever um romance recorrendo a dados históricos verificáveis e a ideias fundamentais do contexto histórico revisitado, problematizando, criando a angústia da incerteza, mas também projetando visões controversas e desafiadoras sobre os grandes temas em causa. 

Não foi o caso da publicação magistralmente orientada pelo historiador italiano Sérgio Luzzatto que longe da linguagem romanesca assumiu um papel de narrador crítico e entusiástico da história de vida do “primeiro fascista”, Antoine de Vallombrosa, ao mesmo tempo que forneceu grandes ligações dos relatos adiantados com as questões complexas do movimento fascista do século XX e até com as dos nossos tempos mais recentes. 

“ O Marquês de Morès foi o primeiro líder no Ocidente a emergir na cena política – de uma só vez – como populista, anti-semita e squadrista. A sua existência breve e aventureira desencadeou dinâmicas ideológicas e práticas que dominariam o século XX, dentro e fora da era dos fascismos” adianta o autor do livro na introdução, antecipando as demonstrações necessárias a uma afirmação tão categórica que a obra com 509 páginas acabaria por incorporar. 

São 78 páginas de notas finais que fundamentam e ampliam as referências utilizadas ao longo de 429 páginas, todas elas forçando a outras pesquisas para favorecer uma plena compreensão dos acontecimentos e das ideias. 

O que descobrimos com a leitura do livro: 

1º Uma personagem da História recente com um perfil eventualmente mais comum no final do século XIX mas que não encontra figuras atuais que possam servir de equiparação. Talvez a componente mais marcante daquele tempo histórico tenha sido a combinação das ideias, da visão de futuro com a ação constante e em inúmeros domínios da vida em sociedade. Para Morès valerá bem a a indicação ”homem com ideias, um visionário mas também um homem de ação” ou então “Um homem de ação, com ideias e uma visão para o futuro”.  

2º Um carisma construído em torno das bases de uma educação de nível apenas acessível às elites, de uma cultura militar, de uma valorização de atributos físicos extremamente favoráveis, de ações em terrenos nunca antes testados pelos seus pares ou seguidores, de competências de escrita e de produção de conteúdos invulgares para a sua época, de atos interpretados como de coragem com a participação em vários duelos, com espada ou pistola, com a utilização de elementos simbólicos transformados em marca pessoal como o seu chapéu Morès com abas largas, com a capacidade de se ligar aos setores populares [por lumpens e marginais] da população, nomeadamente os trabalhadores das carnes dos matadouros de La Villette. 

3 – Um fascista, antes dos fascistas institucionais. Morès experimentou, na ação, sem exceção, todos os ingredientes da ideologia fascista. A sua grande sistematização programática alicerçava-se em torno de três ideias-força: o nacionalismo, o corporativismo e o anti-semitismo. Com referências ao socialismo, contra o capitalismo soit-disant criado e desenvolvido pelos judeus para ampliarem os seus negócios e dominarem o mundo, Morès será a favor da dissolução do proletariado, escravizado pelos judeus, e apostará numa sociedade organizada na base de um modelo corporativo com as profissões tradicionais, os artesãos, os pequenos comerciantes não-judeus e uma clara defesa do fim dos intermediários parasitas e a existência de crédito direto às famílias sem terem que recorrer aos bancos das redes hebraicas. Morès não organizou o corpo teórico do fascismo que Mussolini formalizará em Itália no início dos anos vinte do século XX, mas desbravou todo o terreno necessário para o seu surgimento a partir de experiências concretas. 

Em próximas abordagens tentaremos recuperar alguns tópicos centrais desta aventura que nos permitirão também compreender aspetos bem específicos do surgimento e crescimento do fascismo na Europa. 

LIVROS ZIGURATE

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