17 de Junho, 2024

A informação em Portugal é monolítica

OPINIÃO |

Por Carlos Pereira Martins

Não sei quem manda na informação em Portugal.

Não sei porque não ouso colocar um nome quando não tenho a possibilidade de o comprovar, formal e objectivamente, sob pena de me acusarem de falso testemunho e por aí fora. Dir-me-ão que em cada orgão de informação manda o respectivo director editorial, o dono do capital ou outro alguém, o de calças pardas. Mas, nos tempos que correm, não me acredito nessa resposta. Porquê? porque em todo o sítio, em todos os jornais, rádios, televisões e revistas do coração, a linha editorial é, na prática, a mesma, alinham por um mesmo diapasão, monolítico e universal.

O BEM foi já por todos muito claramente definido, não comento se bem ou mal definido. E, por vezes, também me parece que estou em Cracóvia, que todo o país é crente, apostólico e romano, com uma devoção especial para os Pastorinhos e os segredos de Fátima, o que, em verdade, e não quero dizer se isso é certo ou errado, é o crer, acreditar ou não do mais íntimo de cada um, mas não é assim, não é legitima a conclusão.

A informação em Portugal, se faço zapping pelos vários canais ou gasto dinheiro na compra de vários jornais e revistas, é monolitica. O que quero dizer com isto? Que, em todos eles, se resume a futebol, sobretudo ao futebol dos chamados três grandes e sempre muito mais cada vez que há “broncas” em qualquer deles. O desporto resume-se quase em exclusivo à Selecção Nacional de Futebol , que apoio mas não é única, no panorama alargado dos excelentes resultados que outras modalidades alcançaram no passado recente e no muito recente.

Em minha casa, a maioria do tempo que me ocupa a obter informação e estar actualizado, gasto-o a ver e ouvir outros canais internacionais. E gosto. Se caiu um avião na China ou no Japão, a noticia está lá. Se houve um sismo ou milhares nos Açores, a informação está lá, se houve bombardeamentos e progressos no cenário de guerra actual, a informação também lá está. É generalista não monolítica como cá. Refiro-me à Sky, à CNN internacional, canais franceses, etc.

Cá, só temos guerra, futebol, manifestações pela Ucrânia, carros, carrinhas e camiões a partir, a rodar ou a chegar da Ucrânia. Ah, e quantas criancinhas foram mortas , morreram em cada ataque. E velhos com mais de oitenta anos. Jogar (e utilizar) com sentimentos das pessoas, dá muito mais dinheiro, vende muito mais.Tudo excelente, o apoio aos desprotegidos, desesperados e desalojados.Mas, interrogo-me porquê este alinhar tão absoluto por toda parte de todos os orgãos de informação. tirando um, um só que intercala com qualquer incidente desde que tenha sangue e mortos, dentro das nossas fronteiras. O verdadeiro negócio dos horrores, dos mortos e dos crimes.Importante, ainda dizê-lo: esta é a primeira guerra em que a imprensa quebrou já o compromisso tácito, cumprido em todas as outras que temos visto, de não mostrar, ostentar, cadáveres, pessoas mortas, em grandes planos. Agora, é o chamado pão nosso de cada dia, para quem ainda tem pão e para quem ainda “acorda vivo”, mais um dia!

Acho muito estranho que tudo esteja a acontecer desta forma, com esta unanimidade. E, sendo interessado no bem estar das pessoas que conheço, ainda esta manhã, como em tantos dias, telefonei para Kiev, e fui atendido.As pessoas, em Portugal, não têm acesso a uma informação geral e plural. São formatadas, ficam “especializadas” num só tipo de visão do mundo e do que as rodeia. E, agora que entramos nas comemorações de meio século da liberdade e da democracia, na abertura dos cérebros e no deitar fora das grilhetas que nos amarravam os cérebros e as línguas, tenho que fazer uma pergunta.

Quem manda que tudo se passe assim? Quem nos quer a ver só por um olho? Se eu não fosse bem educado, chamar-lhes-ia uns grandes filhos não se sabe de quem. Como fui bem educado, fico-me por aqui. Com um desejo de bom fim semana, aos meus amigos e aos que até pelo contrário!

Sou assim, sou de massa Beirã, e já não me restauram os alicerces.

Carlos Pereira Martins

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