22 de Junho, 2024

A arte da camuflagem, para resistir e lutar

No Porto, no Mira Fórum, foram recordadas as diversas modalidades de clandestinidade

REPORTAGEM NSF | no Porto

Não poderia haver lugar mais indicado para trazer à conversa o tema da clandestinidade que a rua de Miraflor. As instalações do Mira Fórum estão situadas numa daquelas ruelas de Campanhã, estreitas ao ponto de ser difícil gerir a coabitação entre os carros que estão estacionados e aqueles que circulam. Tudo ali é apertado e as vielas daquelas paragens, com perfil ainda mais estreito, terão sido o palco ideal para encontros e ações longe dos olhos da PIDE, no tempo do regime salazaro-marcelista. O Porto oriental tem a sua identidade e as suas tradições, algumas delas ligadas ao desporto à cultura operária daqueles territórios outrora industriais.

O Clube Desportivo de Portugal, fundado em 1925, é uma das coletividades desportivas de Campanhã com maior tradição. Dos onze armazéns da CP na rua Miraflor atualmente 3 são ocupados por duas galerias Mira Fórum e espaço Mira.

Viver outra vida

Pedro Bacelar de Vasconcelos sistematizou no início da sua intervenção-testemunho na sessão organizada pela AJA-Norte, numa tipologia sumária, as diversas formas e objetivos dos processos políticos e organizativos que implicam uma atividade clandestina. Nem todas as situações de clandestinidade se inscrevem no mesmo registo. Garantir na retaguarda o trabalho clandestino de toda uma organização, com regras monásticas que implicam sigilo total, mudança regular de identidade e residência e sobretudo exigem um jogo permanente de aparências nos contextos de vida nos quais a atividade de camuflagem ocorre surge de forma distinta das situações, que também sendo de natureza clandestina, foram atos voluntários de mergulho no mundo do proletariado, junto das massas. Esta opção, muito em voga sobretudo no início dos anos 70, traduziu-se para dezenas de jovens estudantes militantes maoistas-espontaneistas na ida para atividades profissionais em fábricas ou noutro tipo de empresas para sentir o pulso dos operários e das operárias, simulando ser um deles.

Os funcionários clandestinos

A narrativa de Domicília Costa constitui uma das referências mais representativas das citadas regras monásticas aplicadas em contexto de clandestinidade e, no seu percurso, podem ser encontradas as variáveis fundamentais deste quadro peculiar de vida inventada ou quotidianamente cocriada.

  • Os filhos e filhas de funcionários do partido que luta de forma clandestina que se tornam, por sua vez, funcionários ou que dão continuidade ao trabalho político de resistência numa relação de fidelidade e de adoção da cultura familiar;
  • A aprendizagem de uma vida secreta com as consequências hipoteticamente desmedidas em termos de responsabilidade numa idade adolescente;
  • As mudanças sistemáticas de casas e quartos, estes últimos nos períodos de transição entre as primeiras, com a reinvenção regular de personagens e modos de vida adaptados às novas realidades locais;
  • O casamento simulado e a vida íntima partilhada com alguém que se desconhece;
  • O silêncio e a ocultação de opiniões perante aos restantes membros do partido em caso de divergências com a linha seguida pelos dirigentes ou a sua maioria;
  • O exílio em situações extremas por razões preventivas internas;
  • A rutura com a organização, a expulsão em situação de clandestinidade e as consequências no plano político e pessoal.

Estas e outras situações constituem a base dos cenários de vida que a clandestinidade oferece de forma por vezes violenta. Em muitos casos encontramo-nos perante lógicas de vida que são apenas comportáveis ou suportáveis através de crenças de natureza religiosa. Trata-se de um mundo paradoxal no qual não existe liberdade mas cuja missão é a luta pela própria liberdade.

A sessão contou com apresentações, debate e música

A guerra e a clandestinidade

Tino Flores relembrou ao público presente a importância dos mecanismos clandestinos para organizar e promover a deserção daqueles que recusaram participar na guerra colonial. Como recordou Paulo Esperança, Presidente da AJA Norte, que moderou o debate desta sessão, foi mais de uma centena de milhares de jovens portugueses que não obedeceu à imposição militar de incorporação e que emigrou para diversos países principalmente da Europa.

Tino Flores trouxe ao debate a questão da guerra, da ilegitimidade das ações bélicas seja em que contexto for e ilustrou as suas declarações com a mais recente atuação do Estado de Israel que não hesita em incentivar o seu exército a matar 10 crianças para atingir ou eliminar um chamado terrorista em Gaza, em território palestiniano.

Uma exposição de encher o olho

Nas paredes laterais da sala que acolheu a iniciativa da AJA Norte uma exposição fotográfica com reproduções a preto e branco enquadrava de forma quase intimista mas também desafiadora a presença numerosa de público na sessão. O meu testemunho: rutura e reparação de Donna Bassin forneceu à sessão sobre clandestinidade uma dimensão estética que ampliou as abordagens ideológicas e políticas com sensações e emoções “das feridas que representam o sofrimento individual e coletivo”.

Ana Silva e Paulo Rodrigues ofereceram um concerto intermitente aos presentes que contemplou músicas e poemas dos cantautores de Abril, nomeadamente de Tino Flores, um dos intervenientes da sessão.

Donna Bassin é uma arte-terapeuta, psicóloga clínica, psicanalista, cineasta e fotógrafa.

© Fotos e texto Carlos Ribeiro | NSF

Editor

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