20 de Maio, 2026

Emigrar tem uma diagonal, chama-se Educação Permanente

foto imigrantes

Mariano Gago, um percursor das relações exploratórias e informais na educação de adultos

GRANDE DEBATE

Por Lucília Salgado

“Grande Debate NSF: construir as utopias possíveis – Portugal 2026″ – EDUCAÇÃO [1] – Educação de adultos [2].

Perante os tristes discursos públicos sobre a emigração e os emigrantes, que o partido Chega legitimou, apresentando-os quase como perigosos “bichos” atacantes da pátria, quero homenagear os homens e mulheres que fizeram desta aventura o seu projeto de vida.

Não resisto a falar da minha vida em que, por duas ocasiões tive a oportunidade de conviver com migrantes: primeiro em Paris e em Genebra e, mais recentemente com afrodescendentes, maioritariamente originários da Guiné-Bissau. Fiz, entre eles, grandes amigos e deram-me oportunidade de ricas aprendizagens recíprocas.

Na Europa, fiz este percurso com José Mariano Gago (JMG), então investigador em Centros reconhecidos, – mais tarde, importante ministro em Portugal – mas nos tempos de lazer em atividades com emigrantes.

PARIS 1975

Em Paris, um grupo de jovens portugueses, emigrantes, animado pelo espírito do 25 de abril queixa-se de querer saber mais, de querer aprender, mas não ter acesso a quem lhes possa facultar orientação para estas aprendizagens. 

“A culpa é nossa” – diz José Mariano Gago (JMG) – “não fazemos nada!”.

Com alguns amigos interessados – entre eles o Mário Moutinho, atual Reitor da U. Lusófona, a Helena Gelpi que esteve no Chapitô, o Manuel Campos Pinto, já falecido e a sua ex-mulher Mado, professora em França – e um grupo de uns vinte que, à partida, chamaríamos de participantes, criámos o que JMG chamava um coletivo que reunia na Casa de Portugal, Residência André de Gouveia na Cidade Universitária, em Paris. 

Começámos por pegar nos programas do 9º ano de Portugal, mas todo o Ensino estava em reforma e ainda não havia nada de novo. Optámos por seguir os objetivos expressos, nos antigos, cruzando disciplinas. 

JMG, em contato com Ettore Gelpi da UNESCO, falou no método dos complexos que estudou com Makarenco e, fomos avançando. Começámos por África, estudámos a Geografia e a História, escrevemos, lemos em Português, em Francês e em Inglês, mas com uma forte consciência, digamos que, sociopolítica. Olhámos para o mapa e, para além da geografia física e humana tentamos perceber a Conferência de Berlim de 1885 feita a régua e esquadro pelas potências coloniais. E o que havia antes? Estudámos as civilizações pré-coloniais: a civilização das clareiras. Depois estudámos o triângulo da rota dos escravos entre Angola (África) , Brasil e Portugal (a Europa). Todos tivemos de estudar muito porque não havia professores especializados em programas que íamos criando de acordo com as perguntas.

Depois de África, percebemos então que ninguém era obrigado a seguir programas nenhuns porque as pessoas só queriam aprender, saber mais e o JMG perguntou então O que queriam aprender? O Álvaro disse que gostava de perceber como funcionava uma máquina fotográfica (acabou por se fazer uma com uma caixa de sapatos) mas a Manuela, que pertencia ao comité de empresa de uma fábrica têxtil disse que gostava de saber com funcionava uma fábrica, tudo para compreender a sua empresa: inglês para ler as revistas da empresa que por lá andavam, o funcionamento das máquinas, estudámos as doenças de visão.

O JMG dizia que a Matemática era o mais difícil de integrar, trabalhámos, depois, a problemática da emigração. Aí todos tivemos de estudar e aqueles que seriam considerados participantes estudaram também. 

No princípio não foi fácil. Começou a chegar muita gente a Genebra vinda sobretudo de Martinchel, uma freguesia próxima da Barragem de Castelo do Bode. Vinham para aprender francês, mas olhavam-nos com distância. Ingenuamente perguntámos “- O que querem aprender?”

 “- Vocês é que sabem, vocês é que são os professores…”. Soubemos mais tarde que detestavam a escola e alguns tudo tinham feito para a abandonar, em pequenos.

O ZMG propôs-lhes então ir ver Genebra num sábado e fomos ao Museum de História Natural. Fomos seguindo explicando o ZMG o que íamos vendo. Em determinada altura surgem vitrinas com os habitats dos pássaros. Avançámos normalmente e verificámos que ficaram todos para trás, imitando o piar e o cantar dos pássaros, discutindo entre si se eram machos ou fêmeas, por que estariam poisados em determinado ramo.  Parámos para escutar e fomos fazendo perguntas. Estavam incrédulos por não sabermos…  Então nós, professores, não sabíamos uma coisa tão fácil?

No final JMG insistiu para que se apresentassem a exame do 6º ano e do 9º ano, no Consulado de Portugal, os que se sentissem capazes. Todos se apresentaram e conseguiram. Procurava-se que tivessem atingido os objetivos previstos nos antigos programas, agora reinterpretados por nós sob a forma do que hoje chamamos competências e interagindo sobre as suas histórias de vida.   

Outra ideia importante tem a ver com o seguimento das pessoas que participaram neste coletivo que, infelizmente, não conseguimos fazer. Um amigo disse-me que uma professora que encontrou numa Escola do Barreiro lhe disse que estava ali graças ao JMG e referiu-se a este coletivo dizendo que a maior parte dos que o frequentaram e voltaram para Portugal acabaram por fazer uma licenciatura. O JMG teria ficado contente se o tivesse podido saber. 

Não foi neste sentido que, anos mais tarde, Alberto Melo e a sua equipa desenvolveram em Portugal o programa RVCC (Reconhecimento, Avaliação e Certificação de Competências) a partir das histórias de vida dos participantes, validadas num referencial de competências? Mais importante do que saber de cor os conteúdos dos programas seria adquirir/desenvolver competências que permitissem à pessoa continuar a pesquisar de acordo com as suas necessidades. Muitas destas atividades acabaram por ser percussoras de inovações importantes na educação em Portugal, sobretudo no campo da educação de adultos. Carece de ser estudado! 

Já na parte final da estadia do JMG em Genève, de entre as várias atividades realizadas conta-se a conceção, produção e realização de um filme em que o grupo relatava a sua vida em Genebra. Chamava-se O Senhor é Português?  Passavam-se fins-de-semana inteiros na UOG. A meio da tarde dava a fome e só havia uma máquina distribuidora de produtos lácteos – suíços, claro! -. Era mesmo a única hipótese. Entre muita refilice…  lá tinha de ser. E, a pouco e pouco, foi-se introduzindo o hábito. 

Há muita forma de aprender, dizia o JMG!

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