15 de Junho, 2024

OPINIÃO – Cuidado Portugal, cuidado meu 25 de Abril.

O 25 de Abril

por Raul Simões Pinto

Quase 50 anos depois da Revolução dos Cravos e do final da ditadura e da guerra colonial – encontro-me a pensar no meu contributo – um pequeno grão de areia – na luta pela Liberdade e pelo fim do fascismo.

Com 16 anos fui interrogado pela polícia política , a famosa PIDE/DGS, na Rua do Heroísmo, ao lado do cemitério do Prado de Repouso, por agentes que torturavam e matavam os lutadores antifascistas. Constava-se que os  coveiros do cemitério ficavam admirados com os funerais “silenciosos” e com campas abertas e desarrumadas por outras pessoas. Mistérios que o medo e a repressão desses anos obrigavam a calar,

Aos 20 anos estava eu no exército, como militar e “carne para canhão” em perspectiva de ser mobilizado para a guerra colonial – “matar turras, como era voz corrente do regime salazarista” e “defender a Pátria”. Como não aceitava e combatia já contra esta guerra – resolvi desertar e fugi clandestino para França, levando parte do fardamento comigo.Fez-me jeito para trabalhar nas obras em Paris.

Com 24 anos e depois de estar exilado em terras de França e ter passado por várias profissões – muitas delas, a trabalhar no mercado negro, sem documentos – a exploração capitalista não tem pátria.

No dia 25 de Abril de 1974, estava eu como lavador de vidros, nos arredores de Paris a limpar as vidraças de uma escola, quando um dos professores me veio dizer que havia um golpe militar em Portugal. Falou-me dum tal Spínola. Fiquei assustado, dado saber que o mesmo era adepto das teses hitlerianas e de extrema direita. Nessa noite, encontrei outros refugiados e desertores num Comité de Apoio, em Montparnasse e aí fiquei mais tranquilo e feliz. Finalmente tinha acabado a negritude de 48 anos de ditadura e o processo revolucionário estava em curso. Os capitães de Abril, tinham finalmente ganho a batalha com o derrube do fascismo e do colonialismo.

Quase 50 anos depois – muito se fez em Democracia, sabendo que não existem regimes políticos perfeitos. Mas qualquer semelhança com um  passado de medo, de falta de liberdade, de licenças de isqueiro, de duas pessoas a conversarem ser um ajuntamento e a polícia obrigar a dispersar.

As censuras do lápis azul nos jornais, na rádio, na televisão e nas artes em geral. A repressão constante às greves e lutas estudantis e operárias. As prisões políticas – as torturas e a morte. Os milhares de militares mortos em combate em África – uma juventude estropiada pela guerra que só favorecia as famílias ricas e os militares profissionais de patente superior. O povo vivia na miséria para sustentar este império. A emigração e a fuga à guerra colonial foram uma constante destes tempos de salazarismo fascista.

Mas afinal – o meu 25 de Abril, valeu a pena? Está tudo bem? Eu, jovem rebelde e revolucionário, desertor e combatente antifascista e hoje velho reformado, ainda a lutar por melhores condições de vida e por melhores pensões e direitos sociais e políticos. Mesmo em democracia é preciso estar atento e alertar as novas gerações digitais e sem memória dos tempos da “outra senhora” que os esqueletos e os saudosistas do “antigamente é que era bom”…que o perigo dos populismos da extrema-direita e dos novos fascismos estão por aí…A democracia e a distribuição da riqueza ainda não acabaram com os 2 milhões de pobres, as contradições e o acumular do capital tende a que o nosso País, fique como o Brasil – 10 por cento de ricos e 90 porcento de pobres…Cuidado Portugal, cuidado meu 25 de Abril.

Raul Simões Pinto

Raul Simões Pinto (n.1955, Porto), aposentado dos CTT, foi professor na Escola Artística e Profissional Árvore e é licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Ativista social e cultural na cidade do Porto, é o atual presidente do Grupo dos Amigos das Adegas e Tascos do Porto. Fundador do magazine literário Pé de Cabra, é autor de O filho do 39 (poesia), Pasteleira City, O 15 de Moulinet, Putas à moda do Porto e, nas Edições Afrontamento, As Tascas do Porto. Estórias e memórias servidas à mesa da cidade (2011) e Roteiro dos Tascos do Porto (2015)

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