16 de Dezembro, 2025

O caminho a seguir pelo PS

por Carlos Valentim Ribeiro

O cantor Tony de Matos, fadista de outros tempos, tornou-se célebre por ter cantado algumas canções que marcaram o seu tempo, uma delas apelava com fervor ao abraço e ao beijo entre amantes, o que parecia violar as regras de pudor do antigo regime. No seu catálogo existia uma outra que se iniciava com um enorme castigo do destino “Somos dois caminhos paralelos, vamos pela vida lado a lado”.  

Assim parece ser o caminho que está desenhado para o Partido Socialista.  Desde a saída da liderança de Pedro Nuno Santos um elevado número de militantes vive numa espécie de realidade virtual ao ver o partido ser liderado por uma corrente que foi rejeitada de forma categórica há pouco tempo atrás e que confirma agora, cabalmente, as intenções que então enunciou. 

Existem abordagens na atual atuação de oposição ao governo que até são razoáveis pela prudência que revelam, isto num tempo de grande incerteza que exige que o PS trate alguns assuntos com pinças, sabendo-se que foi castigado nas últimas eleições legislativas de forma arrasadora.  

Mas nas questões essenciais como a oposição à coligação informal entre o PSD e o Chega, na discussão e na posição de fundo sobre o Orçamento Geral de Estado e na defesa do Estado Social, as estratégias e táticas assumidas vão progressivamente enfraquecer o partido e torná-lo uma muleta crítica da progressão sucessiva e continuada das correntes neoconservadoras e da extrema-direita. 

A política seguida em relação ao Orçamento Geral de Estado vai abrir uma grande brecha na defesa do Estado Social ao permitir que o debate fosse purgado dos temas fundamentais da dita reforma laboral e da Segurança Social.  A única maneira de impedir que esses temas viessem a ser tratados como foram a Lei da Imigração e outros assuntos prioritários, que tiveram debates e impacto mínimos na sociedade portuguesa, era amarrá-los ao debate do Orçamento. Nesses termos a votação do PS nunca poderia ser de gestão da espera como está agora a acontecer “vamos deixá-los mostrar que são incompetentes, dar-lhes o benefício da dúvida e num próximo OGE vamos demonstrar que afinal não serviu de nada termos viabilizado a sua execução”, um pensamento inconsistente e particularmente perigoso no processo de construção de uma alternativa de esquerda. Uma coisa é certa, nos próximos tempos teremos debates previsivelmente acessos sobre questões fundamentais do Estado Social em Portugal que serão tratados como fait-divers porque o Orçamento, esse sim essencial para a governação da direita, estará tranquila e pacificamente aprovado. 

É difícil ser defensor da estabilidade política quando essa estabilidade está a ser profundamente posta em causa de forma estrutural com os anúncios a nível europeu, com destaque para a Alemanha, do fim do Estado Social nos termos em que ele tem funcionado até agora.  

Defender o Estado Social deve ser a grande bandeira do PS e da esquerda no país. Para isso uma posição clara de oposição ao investimento no setor da defesa nos termos estabelecido unilateralmente pela NATO deve, como o fazem os socialistas espanhóis, ser associado aos riscos de grave enfraquecimento do Estado Social no país, e contra a grande pressão dos setores da direita o PS deve estabelecer todas as pontes necessárias com todos os setores, partidários, sindicais e associativos numa frente de esquerda combativa e de profundo comprometimento com os trabalhadores pobres, com os profissionais em situação de precariedade, com os setores sociais que precisam de ser apoiados nas suas lutas de resistência e de defesa dos seus direitos, e já agora da democracia e da Constituição de Abril. 

Foto de destaque – Sessão sobre o OGE, na FRO-PS em Torres Vedras. 27 de outubro 2023

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